Durante os próximos dias, o 7MARGENS publicará uma selecção de fotos da autoria de Elisa Costa Pinto, professora de Português e Literatura Portuguesa no ensino secundário e autora de vários manuais, que tem desenvolvido projectos de promoção da leitura e colaborado em diversas publicações literárias. A acompanhar cada foto, a autora apresenta também um poema escolhido por si. Uma forma de fazer um intervalo de beleza a partir da criação cultural e/ou religiosa, entre a azáfama que muitas vezes toma conta das vidas de tantas pessoas nestes dias.

Pão e vinho na mesa. Fotografia © Elisa Costa Pinto
Poema
A Casa
A mesa, filho, está posta,
em brancura quieta de nata,
e em quatro muros azuleja,
reluzindo, a cerâmica.
Este é o sal, este o óleo
e, ao centro, o Pão que quase fala.
Ouro mais lindo que ouro do Pão
não está na fruta nem na giesta,
e dá o seu cheiro de espiga e forno
uma sorte que nunca sacia.
Partamo-lo, filho, juntos,
com dedos duros e palma branda,
e tu o olhas assombrado
de terra negra que dá flor branca.
Baixa a mão de comer,
que a tua mãe também a baixa.
Os trigos, filho, são do ar,
e são do sol e da fornada;
mas este pão “face de Deus”
não chega a mesas das casas;
e se outras crianças não o têm,
melhor, meu filho, não o tocarás,
e não tomá-lo melhor seria
com mão e mão envergonhadas.
[Gabriela Mistral, “A Casa”, trad,. de C. de Assis]










