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Clavis Prophetarum, manuscritos da obra do Padre António Vieira existentes na Universidade Gregoriana; Foto © Arquivo Histórico da Universidade Pontifícia Gregoriana

Manuscrito 1165/1 já era "suspeito"

A “Clavis” que pode reabrir Vieira

| 04/06/2022

Um arquivista que já suspeitava que este era o manuscrito desaparecido há 300 anos. Um texto que confirma um Vieira mais universalista do que em fases anteriores da sua vida, com perspectivas claras do que hoje designamos como direitos humanos ou diálogo inter-religioso. E que deveria ser dado a cada deputado, diz a descobridora do manuscrito….

Clavis Prophetarum, manuscritos da obra do Padre António Vieira existentes na Universidade Gregoriana; Foto © Arquivo Histórico da Universidade Pontifícia Gregoriana

Clavis Prophetarum, manuscritos da obra do Padre António Vieira existentes na Universidade Gregoriana: o 1165/1 era o tesouro que os investigadores procuravam e que o padre Morales já suspeitava que fosse o original. Foto © Arquivo Histórico da Universidade Pontifícia Gregoriana

 

A descoberta do manuscrito da Clavis Prophetarum, do padre António Vieira (1608-97), anunciada na última segunda-feira, 30, não foi uma surpresa absoluta para o padre Martín Morales, responsável do arquivo da Universidade Pontifícia Gregoriana, de Roma. Há quase doze anos, em 25 de Outubro de 2010, Morales escreveu um texto no blogue da instituição dizendo que ali estava depositado o manuscrito (ms.) 1165/1, datado de 1699, que diferia de outros três existentes por várias razões: 328 papéis não aparados e com tamanhos diferentes; uma boa quantidade de recortes colados na margem ou no texto; diferentes caligrafias e uma grande quantidade de notas à margem, bem como de erros e correcções.

“Quando vi pela primeira vez aquele exemplar, em 2010, uma pessoa do arquivo chamou-me a atenção para esses pormenores. À vista desarmada, deixavam entender que poderia ser esse o manuscrito original”, conta agora o padre jesuíta argentino.

Uma tal descrição, escrevia Morales em 2010, , pouco depois de ter assumido a responsabilidade do Arquivo da universidade jesuíta de Roma, sugeria um manuscrito composto por “fascículos escritos em diferentes períodos”, que “passou por várias andanças”. Doze anos depois, o próprio confirma ao EXPRESSO, numa conversa por vídeo a partir de Roma, que “já suspeitava” de que podia ser aquele o manuscrito da Clavis, a obra perdida de Vieira, missionário jesuíta, diplomata, defensor dos índios, perseguido pela Inquisição, pregador e escritor – que Pessoa cognominou de “imperador da língua portuguesa”.

Foram exactamente estes detalhes que levaram Ana Travassos Valdez a não acreditar no que os seus olhos viam quando, em Julho de 2019, começou a pensar que poderia estar perante o manuscrito que muitos já duvidavam que existisse. A investigadora principal do Centro de História da Universidade de Lisboa tinha ido a Roma a uma reunião da Sociedade Internacional de Literatura Bíblica, de que faz parte, e que à última hora tinha sido mudada da Índia para a capital italiana. Por acaso, percebeu que o reitor da Gregoriana é o jesuíta português Nuno Gonçalves. Decidiu apresentar-se e, à pergunta do reitor “O que posso fazer por si?”, respondeu que gostaria de ver as duas cópias da Clavis ali depositadas e com cujas fotocópias costuma trabalhar: os ms. 354 e 359. Nuno Gonçalves levou-a visitar a biblioteca e o arquivo da universidade e procurou o padre Morales. Este fez várias perguntas a Ana Valdez, para entender as razões do seu interesse e indicou uma mesa de leitura à investigadora portuguesa. Quando chegou o carrinho, havia mais dois exemplares daquela que o próprio Vieira considerava a sua obra maior – o “palácio”, por oposição às “choupanas” que eram os seus sermões.

Uma sucessão de acasos, a que se juntaria o modo de funcionar do director do Arquivo da Gregoriana: “Quando algum investigador me pede algo de uma obra, dou-lhe tudo o que tenho dessa obra.” Por trás deste modo de agir está uma ideia: “A investigação hoje em dia não tem tempo. As universidades podem até ter dinheiro, mas não têm tempo e a investigação exige que haja tempo para ver – e tempo é uma coisa que hoje a sociedade não tem…”

Não sendo especialista de Vieira, Martín Morales, 68 anos, tinha-se cruzado com o missionário luso-brasileiro por causa do trabalho que faz sobre a história da Companhia de Jesus há 30 anos. “Vieira no arquivo é uma gota num mar imenso de mais de seis mil códices. Não nos interessa tanto Vieira, mas que o Arquivo seja um lugar de investigação, chamando também a atenção para outras coisas como o restauro ou a materialidade dos documentos – coisas que normalmente não interessam tanto aos historiadores.” Mas que, neste caso, se revelaram fundamentais para a atribuição do qualificativo “original” ao ms. 1165/1 – mesmo se, como historiador, o padre Morales nunca usa a expressão “original”, preferindo falar do “testemunho mais importante” – neste caso, não sabemos se Vieira o escreveu ou se ditou a maior parte, por exemplo. E na questão da materialidade, detalhes como a descoberta de que naquele manuscrito se usava cola de mandioca foram elementos importantes para a sua “certificação”.

 

O detalhe que permitiu a confirmação
Manuscrito 1165/1 com o original da Clavis Prophetarum, do padre António Vieira. Foto © Arquivo da Universidade Pontifícia Gregoriana

Manuscrito 1165/1 com o original da Clavis Prophetarum, do padre António Vieira. Foto © Arquivo Histórico da Universidade Pontifícia Gregoriana.

 

Em Janeiro e Fevereiro de 2020, Ana Valdez e Arnaldo Espírito Santo – professor emérito da Universidade de Lisboa e investigador do Centro de Estudos Clássicos, que há décadas estuda a Clavis e publicara em 2000 uma edição crítica do Livro III da obra – foram a Roma conferir se o 1165/1 seria ou não o primeiro testemunho da Clavis. Todos os pormenores batiam certo e um último detalhe confirmou o veredicto de autenticidade: na sua apreciação sobre a obra, o relator da Inquisição em Lisboa, António Maria Casnedi, escreve que havia uma nota no manuscrito referindo a questão da proibição do pecado filosófico – e essa nota lá estava na página 2 do 2º caderno do “Tratado da pregação universal”, um dos capítulos do Livro III da Clavis.

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A etapa seguinte foi “assegurar que o manuscrito pudesse passar ao futuro”, diz o padre Morales. O documento foi objecto de um diagnóstico exaustivo, restaurado e digitalizado folha a folha. Um processo custeado pela Associação para o Desenvolvimento da Faculdade de Letras, a que Arnaldo Espírito Santo preside. Falta, agora coser as folhas e dar de novo consistência ao manuscrito, processo que ainda será tema de debate entre especialistas durante os próximos meses.

Segue-se a publicação de uma edição bilingue, em latim e inglês, que Ana Valdez e Arnaldo Espírito Santo esperam ter pronta no próximo ano, uma vez concluída a transcrição do texto. Martín Morales acrescenta que a colocação do manuscrito num portal wiki da Gregoriana permitirá ter a imagem do manuscrito folha a folha, de modo a poder anotar o que se pretende, marcar nomes e lugares, procurar informação sobre algum pormenor…

Será um “trabalho muito lento”, disso não duvida o padre Morales, mas que “pode ser uma escola para muitos, para perceber como se faz a edição de um documento do século XVII”. Também ao nível do conteúdo, já que o latim de Vieira, o seu vocabulário e o jargão teológico por ele utilizado têm de ser entendidos no tempo e na sua escrita. “Como se traduzem para o século XXI conceitos que nem sempre coincidem com os nossos” é o desafio, diz Arnaldo Espírito Santo.

“É preciso gente preparada” para o ler, acrescenta Morales, que também insiste no problema de “poder ler no presente” qualquer escritor que vem do passado. O mundo contemporâneo, acrescenta o director do Arquivo da Gregoriana, “é um mundo sem Deus, não tem nada a ver com a sociedade em que Vieira viveu, é como se chegasse um livro de Marte”.

Certo é que a Clavis pode também ser a chave para ler de outra forma a obra de Vieira. O pensador do Quinto Império, afinal, abandona essa ideia. Pelo menos, no sentido nacionalista ligado a D. João IV que lhe dera em obras anteriores como a História do Futuro – e no qual colocava Portugal a suceder aos antigos impérios babilónico, persa, grego e romano. Na Clavis Prophetarum, o conceito é o do “Reino de cristo consumado na terra”, como diz o subtítulo da obra. Ou seja, de um reino inserido na história, na perspectiva de Dante ou da profecia bíblica de Daniel (cap. 2), quando o profeta descreve ao rei babilónio Nabucodonosor a sucessão dos impérios que ele vira em sonho: “o Deus dos céus fará aparecer um reino que jamais será destruído e cuja soberania nunca passará para outro povo [e] subsistirá para sempre.”

 

Uma visão da filosofia da história
ExcertoInício da Clavis Prophetarum, do Padre António Vieira. Foto © Arquivo da Universidade Pontifícia Gregorianado Clavis Prophetarum do Padre António Vieira. Foto © Direitos Reservados

Início da Clavis Prophetarum, do Padre António Vieira. Foto © Arquivo Histórico da Universidade Pontifícia Gregoriana

 

A Clavis é, antes de mais, “uma grande visão sobre a filosofia da história, sobre o mundo”, tal como as de Platão, Dante ou Santo Agostinho, diz Arnaldo Espírito Santo. Na linha da Carta de São Paulo aos Efésios, Vieira aponta para a ideia de que “o mundo tem uma unidade, um destino, e de que todos os reinos anteriores não são alheios ao plano de Deus sobre a terra”. Em certa medida, acrescenta, faz lembrar o paleontólogo e teólogo, também jesuíta, Teilhard de Chardin (1881-1955), igualmente molestado pela estrutura eclesiástica por causa das suas ideias de redenção e salvação universais.

O professor emérito da UL admite a possibilidade de o ms. 1165/1 poder ter algum acrescento ou inciso que pelo menos faça repensar o que até agora se conhece da obra de Vieira. Mas do que já se sabe, a Clavis confirma ou desmente vários lugares-comuns sobre o jesuíta: estamos aqui perante um Vieira “mais universalista, mais teólogo”, com uma exegese bíblica apoiada nos mais recentes autores do seu tempo – só no livro III cita 160, 30 dos quais são jesuítas.

É também um Vieira claramente defensor dos índios e que se opõe à escravatura, consideram os dois especialistas portugueses: para ele, os índios brasileiros eram as tribos perdidas de Israel e por isso não podiam de todo ser escravizados. “O que ele diz aos colonos é que, se não há mãos, que se mandem vir mãos, porque os índios não têm condições físicas e têm um desígnio divino.” António Vieira terá sido, com Bartolomeu de Las Casas, “quem mais protegeu os índios da América do Sul”, a ponto de não se encontrar ninguém com semelhante atitude na América do Norte. Mas, ao contrário do frade dominicano que missionou na ilha de La Hispaniola e no México, Vieira conseguiu evitar que os índios fossem dizimados.

O jesuíta “tentou pôr ordem nos bandeirantes, que iam às aldeias e traziam índios, contrariou as ordens religiosas que também o faziam, teve mesmo que enfrentar alguns jesuítas.” Do mesmo modo, Arnaldo Espírito Santo recusa as críticas que nos últimos tempos foram feitas a Vieira, de que teria admitido a escravatura dos negros. Nos Sermões do Rosário, ele diz que é desumano o que o que os colonos querem fazer aos negros, e condena as condições em que estes vivem, “piores que o Inferno e o Purgatório”. Vieira sabia que o Brasil não existia sem negros, “levantou a voz bem alto contra a escravatura, mas não estava no seu poder mudar um sistema económico baseado no esclavagismo”, defende o académico.

Também o que hoje se designa como diálogo inter-religioso é uma inovação clara na Clavis e na obra de Vieira: “Vieira corresponde-se com toda a gente”, recorda Ana Valdez. “Pratica um ecumenismo muito moderno, muito antes de John Locke e do seu Tratado da Tolerância.”

Apesar do achado, Ana Valdez considera que “continuaremos com um trabalho inacabado”: Vieira não concluiu a Clavis. Mas, apesar disso, o que ali está é um grande manual do pensamento político ocidental, que “devia ser entregue e lido por cada deputado, juntamente com a Constituição”.

Os direitos humanos, a universalidade, a abertura ao outro estão em Vieira, diz Arnaldo Espírito Santo. Há um senão, que tem a ver com o que Morales já dizia atrás: a sua é “uma visão teocêntrica – não podia deixar de o ser, no século XVII –, que o mundo actual tem dificuldade em encontrar”.

Apesar disso, o mundo reencontrou um manuscrito perdido, graças a dois investigadores portugueses.

(Texto inicialmente publicado na página digital do Expresso)

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