O grande profeta Elias, repetida e grandemente usado por Deus em Samaria, e logo depois de ter sido ameaçado de morte por Jezabel, a rainha maldita, encontra-se exausto, deprimido, refugia-se debaixo de um zimbro, e pede a Deus que o mate, pois já não aguenta mais. O texto do 1º Livro de Reis 19:1-8 reza assim:
“1 E Acabe fez saber a Jezabel tudo quanto Elias havia feito, e como totalmente matara todos os profetas à espada.
2 Então Jezabel mandou um mensageiro a Elias, a dizer-lhe: Assim me façam os deuses, e outro tanto, se decerto amanhã a estas horas não puser a tua vida como a de um deles.
3 O que vendo ele, se levantou e, para escapar com vida, se foi, e chegando a Berseba, que é de Judá, deixou ali o seu servo.
4 Ele, porém, foi ao deserto, caminho de um dia, e foi sentar-se debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte, e disse: Já basta, ó Senhor; toma agora a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais.
5 E deitou-se, e dormiu debaixo do zimbro; e eis que então um anjo o tocou, e lhe disse: Levanta-te, come.
6 E olhou, e eis que à sua cabeceira estava um pão cozido sobre as brasas, e uma botija de água; e comeu, e bebeu, e tornou a deitar-se.
7 E o anjo do Senhor tornou segunda vez, e o tocou, e disse: Levanta-te e come, porque te será muito longo o caminho.
8 Levantou-se, pois, e comeu e bebeu; e com a força daquela comida caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe, o monte de Deus.”

“Elias estava deprimido. Depressão não é tristeza, não é um estado de alma, não é sequer um problema espiritual, é uma doença psíquica.” Pintura: Bouts (1420–1475), Profeta Elias, Igreja de S. Pedro, Lovaina, Bélgica
Elias estava deprimido. Depressão não é tristeza, não é um estado de alma, não é sequer um problema espiritual, é uma doença psíquica. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 350 milhões de pessoas sofrem de depressão no mundo.
Segundo o grande teólogo inglês John Stott: “Os principais perigos para a mente do cristão são a depressão e o desânimo”. O que podemos aprender então com a experiência do quadro depressivo de Elias, que alguns ainda hoje negam por puro preconceito?
A exaustão, a depressão, a falta de ânimo, podem vir a qualquer altura. Mesmo depois de uma grande vitória pode vir uma grande provação: “Então Jezabel mandou um mensageiro a Elias, a dizer-lhe: Assim me façam os deuses, e outro tanto, se decerto amanhã a estas horas não puser a tua vida como a de um deles” (v2). Apesar de a mão do Senhor estar sobre nós, isso não nos isenta de estados psicológicos derrotistas e negativos (18:46): “E a mão do Senhor estava sobre Elias…”
Quando estamos em baixo, a nossa primeira reacção é desistir, Elias sentou-se e deitou-se debaixo da primeira sombra: “E deitou-se, e dormiu debaixo do zimbro” (5).
A segunda reacção é compararmo-nos com os outros. Elias comparou-se com os pais, os antepassados, os mais velhos, e achou-se pior do que eles: “toma agora a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais” (4). Como se tivéssemos que ser melhores do que os outros. Afinal, somos únicos!
A terceira reacção é inventar um escape. Ele acolheu-se debaixo dum zimbro. É das bagas do zimbro que se faz a genebra, licor espirituoso feito com aguardente…
A quarta reacção é querer morrer. Elias dormiu: “(…) pediu para si a morte” (4).
Mas Deus vela por nós, para insistir em nos levantar, dar ânimo e alimentar, preparando-nos para a jornada, pois ainda temos um caminho pela frente (5b-7). Deus nunca nos deixa ficar sozinhos. Mesmo em situação do maior desespero há sempre uma esperança: “Também deixei ficar em Israel sete mil: todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda a boca que não o beijou” (18).
Finalmente, Deus quer conduzir-nos ao seu monte. “(Elias) caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe, o monte de Deus.” É a comunhão com Ele que nos restaura, cura e dá segurança.
Crente que está deprimido precisa de se tratar. Naquela altura não havia tratamento para a depressão. Mais tarde chamaram-lhe “melancolia”. Cansaço, fadiga e desânimo são sintomas de esforço e não de fracasso. Tomemos consciência do nosso estado e do que nos levou a ele. Precisamos de compreender que não somos de plástico, nem de ferro, nem super-heróis ou super-crentes.
Precisamos de entender que não somos capazes de resolver sozinhos a nossa situação. Precisamos de ter consciência de que Deus tudo sabe e tudo conhece. Precisamos de acreditar que Deus tem a solução e que não desistiu de nós. Ele nunca desiste, por isso confiemos nele.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.










