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Abertura do Congresso Eucarístico em Braga, 31 maio 2024. Foto Samuel Mendonça Folha do Domingo via Ecclesia

5º Congresso Nacional em Braga

“A eucaristia não é apenas um rito – deve ter consequências na vida”

| 31/05/2024

Abertura do Congresso Eucarístico em Braga, 31 maio 2024. Foto Samuel Mendonça Folha do Domingo via Ecclesia

O bispo de Leiria-Fátima (segundo a contar da esqª.) chamou a atenção para as implicações do tema do Congresso – “Partir o pão, alimentar a esperança” – na vida dos crentes e da sociedade. Foto © Samuel Mendonça/ Folha do Domingo, via Ecclesia

“A eucaristia é exigente, não é apenas um rito. Malgrado aquilo que possamos dizer, quem participa na Eucaristia, como é que pode ficar inativo perante a falta de pão em casa, em tantas situações de conflito e de penúria, e [perante] as numerosas crianças que, a cada hora, morrem de fome no mundo?”

A reflexão foi feita esta sexta-feira, 31 de maio, em Braga, pelo bispo José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, na sessão de abertura do 5º Congresso Eucarístico Nacional (5CEN) que decorre em diferentes espaços daquela cidade até domingo, 2 de junho.

O também bispo de Leiria-Fátima dedicou a sua intervenção à enunciação de alguns temas que têm que ver com o “significado e papel transformador da eucaristia”, chamando a atenção para as implicações do tema do Congresso – “Partir o pão, alimentar a esperança” – na vida dos crentes e da sociedade. Recordou as primeiras comunidades cristãs, nas quais, segundo o livro DOS Atos dos Apóstolos, não havia necessitados, já que quem tinha mais partilhava com quem tinha menos.

Esta relação entre a eucaristia e a fraternidade foi também um dos eixos da primeira conferência do Congresso, a cargo do padre Corrado Maggioni, que preside ao Pontifício Comité para os Congressos Eucarísticos Internacionais, desde setembro de 2021.

Segundo ele, “na eucaristia, o pão é dividido para criar comunhão e não divisão”. “A eucaristia celebrada na Igreja – sublinhou ainda – tem de ser expressa fora da Igreja, através de respostas reais às necessidades concretas das pessoas. Os sacramentos são ‘por nós, homens, e para a nossa salvação’”, como se diz no Credo.

Corrado Maggioni exemplificou o argumento: “é impensável hoje construir uma nova Igreja exclusivamente para a liturgia, sem ter em conta o serviço à fraternidade que este lugar ‘eucarístico’ implica e exprime”.

Regressando à intervenção do presidente da Conferência Episcopal, a dado passo o bispo José Ornelas referiu-se ao que designou por “condições para aceder ao pão” que Jesus “concede, como fonte de bênção e de salvação”, recordando que ele era “acusado de se pôr à mesa com publicanos, prostitutas e pecadores”. Perante esta atitude inclusiva, “que estará Jesus a pensar sobre as nossas discussões e normas” para as pessoas se poderem aproximar do “pão que ele oferece a todos?”, questionou o bispo.

No mesmo registo interrogativo em torno do “caráter verdadeiramente transformador da eucaristia”, José Ornelas gostaria que os congressistas se interrogassem sobre “como é que esta Igreja, na diversidade dos seus carismas e ministérios, se exprime, cresce e se anuncia nas [suas] celebrações”. E citou a observação de uma prima sua, nascida no Brasil, que, numa visita a Portugal, comentou para ele: “Oh primo, olhe que a missinha de vocês é uma tristeza, comparando com as nossas”. O que o leva a pedir que se reflita este aspeto de saber como é que, de facto, as comunidades celebram a alegria, a esperança e a fraternidade.

No primeiro dia do 5CEN merece ainda destaque a conferência proferida pela professora e investigadora Luísa Maria Almendra, uma religiosa do Coração de Maria, especialista em Estudos Bíblicos da Universidade Católica Portuguesa. Debruçando-se sobre o tema “Reconheceram-no ao partir o Pão (Lc 24, 35)”, a especialista aludiu ao trabalho de tradução da Bíblia em cuja comissão tem estado envolvida. Especificamente sobre o fragmento escolhido como título, ela revelou a tradução a que a referida comissão chegou, tomando como ponto de partida o texto original em grego e o trabalho de tradução para outras línguas por parte de equipas homólogas. Dando o contexto desse ponto – no caso, o episódio dos discípulos de Emaús – a tradução proposta ficou assim: “Então eles contaram o que acontecera no caminho e como Ele se lhes dera a conhecer na fração do pão”.

Grande parte da conferência desenvolveu-se em torno da questão do significado e implicações do “dar-se a conhecer” e do “reconhecer”, por um lado, e o da “incapacidade de ver o visível”, por parte dos discípulos de Jesus e como passam daí para a “incapacidade de ver o invisível”.

 

Um congresso de dez em dez anos?

Congresso eucarístico em Braga, 31 maio 2024. Foto Ecclesia OC

Na intervenção que fez na abertura dos trabalhos, o arcebispo primaz José Cordeiro deixou levantada a ideia-sugestão de que estes congressos se possam vir a realizar com mais frequência. Foto © Ecclesia/OC

O Congresso a decorrer em Braga evoca o primeiro, realizado na mesma cidade, precisamente há cem anos. Dos restantes, outros dois também tiveram Braga como palco e o outro realizou-se em Fátima.

Na intervenção que fez na abertura dos trabalhos, o arcebispo José Cordeiro deixou a ideia-sugestão de que estes congressos se possam realizar com mais frequência, aventando a possibilidade de serem de dez em dez anos e organizados por diferentes dioceses, a começar pela sedes metropolitanas (que agrupam e articulam várias dioceses de uma mesma região) de Braga, Lisboa e Évora.

O prelado bracarense recordou o contexto histórico em que, por meados do séc. XIX, se começa a falar de um “movimento eucarístico”, com devoções eucarísticas vindas de séculos anteriores, ligadas ao desejo de “ver a hóstia”, num tempo em que poucos comungavam.

Os congressos eucarísticos internacionais e nacionais nascem depois, “como reação ao contexto político caraterizado pela laicização, secularismo, anticlericalismo e indiferença difusa”, observou José Cordeiro.

Na sequência da re-orientação dada pelo Concílio Vaticano II, e ainda segundo a explicação do arcebispo de Braga, “hoje existe uma consciência unitária da eucaristia (memória, sacrifício, banquete e presença permanente), vista como uma ação participativa da Igreja”. “Simultaneamente, sentimos a necessidade de recentrar a eucaristia e o domingo na experiência da fé pessoal, familiar e comunitária, para melhorar o cuidado das celebrações e da adoração eucarística e da caridade para com os necessitados, que parte da eucaristia”, disse.

Neste sábado, o programa inclui, de manhã, a terceira conferência do Congresso, sobre o tema “Alimentar a Esperança”, pelo padre jesuíta Carlos Carneiro, decorrendo, à tarde, um primeiro painel de sete oficinas sobre diferentes temas como hospitalidade, jovens, família, pobres, ecologia, entre outros, e um segundo painel sobre “Eucaristia e Santidade”, que abordará figuras de participantes no 1.º Congresso Eucarístico Nacional de 1924 que têm processos de canonização em curso. Na Sé, tem lugar, depois do jantar, uma Cantata eucarística com peças de diferentes épocas e autores, com arranjo e orquestração de Fernando Lapa.

 

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