Depois de um primeiro texto, publicamos agora o segundo e último texto Face Feminina de Deus, de Marco Oliveira, que nos apresenta a perspectiva Bahá’í sobre o fenómeno de Fátima.

Vista aérea do santuário de Bahá’u’lláh. © Bahá’í International Community
Nas religiões abraâmicas, Deus tende a ser descrito com atributos que tradicionalmente consideramos masculinos, apesar do Criador ser considerado uma realidade transcendente, sem um corpo físico. As representações artísticas clássicas atribuíram-lhe uma figura masculina. Vivemos e moldámos as nossas culturas com essas imagens masculinas da divindade. E ainda hoje a expressão “Deus-Pai” é usada comummente para referir o Todo-Poderoso, não obstante ser assumido que o Criador não é homem nem mulher.
É sabido que os cultos marianos se desenvolveram a partir do século III, e assumiram uma dimensão relevante nas tradições católica e ortodoxas. Alguns investigadores sugerem que teria sido uma forma de substituir o culto das divindades femininas pagãs.
De certa forma, parece-me legítimo afirmar que há nestes cultos uma necessidade de ver a divindade com um rosto feminino (em alternativa às representações masculinas). É um desejo legítimo. Nas memórias de infância de muitos de nós, ficou a imagem de um Pai onde encontrávamos a segurança, e uma Mãe de onde emanava o conforto e o carinho. Quantos de nós, na infância chamávamos pela mãe nos momentos de aflição? E, mais tarde, na idade adulta surgiu a necessidade de chamar por uma mãe divina que nos acuda em tempos de aflições maiores.
Assim, esta necessidade de ver o Criador com características femininas parece-me perfeitamente legítima. E por esse motivo, não critico a fé de quem acredita que essa faceta feminina se manifestou na Cova da Iria em 1917.
Há, porém, dois aspectos que me parecem merecedores de atenção dos devotos marianos.
O primeiro aspecto consiste no facto de Maria não ser uma figura exclusiva do Cristianismo. A Virgem Maria também está presente noutras religiões. Na verdade, há mais referências à Virgem Maria no Alcorão e nas Escrituras Bahá’ís do que no Novo Testamento. E todas essas referências, sempre em tons elogiosos e plenas de reverência, deveriam despertar a curiosidade dos cristãos.
Na Fé Bahá’í, por exemplo, a Virgem Maria é profundamente respeitada. No entanto, não tem um estatuto igual aos dos fundadores das religiões mundiais, nem é objecto de uma devoção especial. No Kitab-i-Iqan (O Livro da Certeza), Bahá’u’lláh (o fundador da Fé Bahá’í) descreve, numa linguagem intensa, a ansiedade e a perplexidade de Maria ao saber que estava grávida:
De igual modo, deves reflectir sobre o estado e a condição de Maria. Tão profunda foi a perplexidade desse belíssimo semblante, tão penosa foi a sua situação, que ela lamentava amargamente ter nascido. Disto dá testemunho o texto do sagrado versículo onde se menciona que Maria, depois do nascimento de Jesus, chorou a sua situação e gritou: “Oxalá eu tivesse morrido antes disto e tivesse sido esquecida, completamente esquecida!” … Reflecte: que resposta poderia Maria ter dado às pessoas ao seu redor? Como poderia ela afirmar que um Bebé Cujo pai era desconhecido tinha sido concebido pelo Espírito Santo? Por isso, Maria, aquele semblante velado e imortal, pegou na sua Criança e regressou ao seu lar. (¶59)
Um segundo aspecto que considero merecedor da atenção dos crentes na Virgem de Fátima tem a ver com o momento em que Bahá’u’lláh recebeu a revelação de Deus.
Ao longo da história religiosa, Deus conferiu a condição de profeta aos Seus mensageiros divinos através de vários símbolos espirituais. Sabemos pelos textos sagrados que Moisés recebeu a Sua revelação através da Sarça Ardente. Mais tarde, Jesus viu o espírito de Deus descendo na forma de uma pomba que pousou n’Ele. Buda recebeu a Sua revelação quando estava em meditação profunda sob a árvore de Bodhi. O anjo Gabriel visitou Muhammad, revelando-Lhe o princípio daquilo que se tornaria o Alcorão.
Em 1852, numa prisão em Teerão, Bahá’u’lláh recebeu a Sua revelação da “Virgem Celestial” – uma personificação do Espírito Santo – que Lhe anunciou que Ele era um Manifestante de Deus. A descrição desse momento foi feita pelo próprio Bahá’u’lláh, com as seguintes palavras:
Enquanto submerso em aflições, ouvi a mais maravilhosa, a mais doce voz, chamando acima da Minha cabeça. Ao virar a Minha face, vi uma Virgem – a personificação da lembrança do nome do Meu Senhor – suspensa no ar perante Mim. Ela estava tão feliz na sua alma que o seu semblante brilhava com o adorno da complacência de Deus, e a sua face incandescia com o brilho do Todo-Misericordioso. Entre a Terra e o Céu, ela fazia um chamamento que cativava os corações e as mentes dos homens. Ela passou a todo o Meu ser as boas-novas que regozijaram a Minha alma e as almas dos honrados servos de Deus. Apontando para a Minha cabeça, dirigiu-se a todos os que estão no céu e todos os que estão na terra, dizendo: “Por Deus! Este é o mais amado dos mundos, mas ainda não o compreendeis! Ele é a Beleza de Deus entre vós, e o poder da Sua soberania entre vós, se apenas o entendessem.”
Ao longo da Sua vida, Bahá’u’lláh foi encontrando conforto e encorajamento nas palavras da Virgem Celestial. E em várias das Suas epístolas, ela está presente como fonte da Sua revelação, como juiz da santidade de Bahá’u’lláh, como testemunha os Seus sofrimentos, como símbolo do poder espiritual dos Manifestantes de Deus, como metáfora da atracção pela beleza de Deus, como uma nova Eva que inaugura um novo ciclo de fecundidade espiritual.
Assim, para os meus amigos crentes na Virgem de Fátima costumo dizer que há algo na Fé Bahá’í que devia, no mínimo, merecer a sua atenção. Se a crença numa “revelação privada” com uma face feminina merece a sua fé pessoal, quanto mais interesse deve merecer uma revelação divina onde o Espírito Santo surge personificado na Virgem Celestial? Se são tocantes os relatos dos pastorinhos, quão fascinantes são as palavras de Bahá’u’lláh nos Seus diálogos com a Virgem Celestial? Se é impactante a mensagem da Virgem de Fátima numa revelação privada, que dizer da influência das palavras de Bahá’u’lláh numa revelação pública, destinada a toda a humanidade?
Marco Oliveira é membro da Comunidade Bahá’í de Portugal










