A fotografia pode ser uma forma poderosa de combater o horror ou documentar a tragédia – e a História guarda muitos exemplos destes, da libertação dos campos de concentração nazis à guerra do Vietname, entre outros.
Em dois livros de banda desenhada, com pontos de partida bem distintos, as duas personagens principais usam a fotografia como um retrato impressivo e revelador dos crimes nazis, no caso de O Fotógrafo de Mauthausen, ou do drama social e económico vivido durante o Dust Bowl, na região que abrange os estados do Centro e Sul do EUA dos anos 1930, como desenhado em Dias de Areia.
Uma e outra história partem de factos verídicos, mesmo que tomem liberdades narrativas criativas para nos contarem os acontecimentos que desenham: a realidade dos campos de concentração na Segunda Guerra Mundial, mais familiar para todos do que a da tremenda crise económica, que se abateu num longo período de seca na década de 1930 vivido nos Estados Unidos da América.
Mauthausen não é um nome de que nos lembremos logo quando falamos dos horrores dos campos concentrionários que os nazis espalharam pela Europa, durante a Segunda Guerra Mundial. Auschwitz, Birkenau e Treblinka são nomes mais reconhecíveis.

Num traço duro, de cores pesadas, esta novela gráfica revela a história do fotógrafo de Mauthausen, que dá nome ao livro. DIreitos reservados.
Para os espanhóis, Mauthausen tem idêntica ressonância. Este campo na Áustria é sinónimo de histórias de terror e de “extermínio pelo trabalho”, sobretudo para muitos republicanos, que saltaram a fronteira para França, no estertor da Guerra Civil espanhola, com a vitória da extrema-direita franquista.
Em França, a sorte não sorriu a esses espanhóis: o regime fantoche de Vichy e as tropas nazis capturaram muitos desses fugitivos e encaminharam-nos para Mauthausen, onde muitos e muitos encontrariam a morte. Neste campo, houve engenho de prisioneiros para revelar ao mundo os crimes que aconteciam ali.
A história é verídica e os factos reais descrevem-se numa pincelada: em 1941, o filho de um fotógrafo espanhol, Francisco Boix (o prisioneiro com o número 5185), e camaradas seus, que estavam no chamado “serviço de identificação”, traçaram um plano para roubar fotografias que confirmassem as atrocidades nazis e incriminassem os altos responsáveis do regime de Hitler.
Num traço duro, de cores pesadas, esta novela gráfica revela a história do fotógrafo de Mauthausen, com nervo, sem perder o interesse. O álbum é também ele uma brevíssima lição de história, com várias páginas que contextualizam a banda desenhada, enquadrando o leitor nestas páginas sobre espanhóis que “são os mais difíceis de matar”, como exclamou o comandante do campo de extermínio de Mauthausen, Franz Ziereis.
As armadilhas do clima

Dias de Areia traça o destino de um jovem fotógrafo diluído entre a angústia da poeira e da criação. Direitos reservados.
Noutro continente, nas Grandes Planícies dos EUA, muitos foram apanhados pelas armadilhas do clima, quando tempestades de poeira e secas, pragas de coelhos e gafanhotos, combinadas com fatores humanos, formaram o Dust Bowl, que atingiu o Oklahoma, Texas, Kansas, Colorado e Novo México (na metade Centro Sul dos EUA), nos anos da Grande Depressão.
Esta catástrofe ecológica, aliada à crise económica, traçou uma catástrofe humana, com a pobreza a deixar um rasto de fome e morte. A agência governamental Administração de Segurança Agrícola (FSA, no original em inglês de Farm Security Administration), destinada a combater a pobreza nas regiões rurais, lançou um programa de fotografia para registar a vida rural americana: reportar as condições de vida dos pobres permitiria organizarem-se esforços de ajuda, socorro e de realojamento – e informar o público em geral.
O programa teve um forte impacto na… fotografia: a qualidade elevou a fasquia da fotografia jornalística e documental, foram tiradas centenas de milhares de fotografias, o arquivo da FSA é hoje uma fonte essencial para historiadores e investigadores, e foram revelados grandes fotógrafos, como Walker Evans, Arthur Rothstein e Dorothea Lange, autora da espantosa fotografia Migrant Mother(1936). Todos estes dados são contados num conjunto de páginas que contextualizam a novela gráfica, dando-lhe também uma dimensão didática relevante, como em O Fotógrafo de Mauthausen.
Dias de Areia traça o destino de um jovem fotógrafo diluído entre a angústia da poeira e da criação, num registo vivo e equilibrado de cores quentes e suaves, com uma liberdade narrativa que coloca o foco nas pessoas que viviam por entre a “desolação coberta de areia” daquela “Terra de Ninguém”. De leitura obrigatória.

Capa de O Fotógrafo de Mauthausen.
O Fotógrafo de Mauthausen
Salva Rubio, Pedro J. Colombo (trad. António Gonçalves)
Edição Gradiva, 2024, 168 páginas, 32,50€.

Capa de Dias de Areia.
Dias de Areia
Aimée de Jongh (trad. Helena Guimarães)
Edição Asa, 2024, 288 páginas, 29,90€.










