
“Neste punhado de líderes com quem aqui me encontro imagino a esperança apenas como o ponto de partida. É o destino na mão que os move. Uma confiança num devir que não antevejo. Porque não sou eles.” Foto © Luís Castanheira Pinto
Passa pouco das sete da manhã. O ar já sufocante a esta hora. Lá fora, um tecido fino de névoa feita pó. Areia no ar que nunca chega a assentar. Sempre lá. Como se ao sol ardente se opusesse um escudo tácito de veludo. A natureza tem as suas coisas. Cobarde, refugio-me no alívio do ar condicionado. A máquina a arfar de esforço aposta em passar dos 40 graus persistentes aos 24 que se aguentam. Tem mérito. O fato e a gravata combinam mal com esta batalha térmica. Ainda assim, uma anedota caridosa se comparada com outro combate travado entre o mundo lá fora e as salas deste hotel. Lá fora morrem recém-nascidos todos os dias. Aqui, mulheres e homens comprometidos com um destino que querem ser eles a traçar, guardam a dor para contrariar a sorte.
No Burkina Faso a história do país conta-se como tantas outras da África subsariana. É feita de miséria, sangue, corrupção, olhos vidrados de ganância. Abutres do norte do mundo sedentos da última gota de penúria. Trabalhos esforçados. Alguns, forçados. Tropas em corrupio constante. Governos e governantes em carrosséis descontrolados. Montanhas russas de governação impossível. Olhos sem brilho. Dormentes. Pessoas como eu – tal e qual como eu – marcadas pelo destino de simplesmente nascer neste lugar.
No Burkina Faso, como em tantos outros países em Africa, há depois uma outra história para contar. Tantas outras, na verdade. Estoutra fala-nos do punhado de profissionais, mulheres e homens sem lugar nas parangonas dos noticiários. Sem outro incentivo que os mova, cerram os dentes agarrados ao essencial. O futuro. Um, que não será o deles. Onde já não viverão. Mas querem-no como água para os seus filhos. Para as gerações que se seguem. Como legado para um mundo outro que nunca chegarão a conhecer.
Li uma vez sobre a virtude de saber esperar para lá da esperança. A frase não é minha. Assalta-me invariavelmente nestas viagens.
Neste punhado de líderes com quem aqui me encontro imagino a esperança apenas como o ponto de partida. É o destino na mão que os move. Uma confiança num devir que não antevejo. Porque não sou eles.
Tal como este texto, deambulo por entre grupos de trabalho romantizando o esforço heroico destes profissionais. Contra o mundo dos maus, de dentes cerrados e punhos erguidos, sobrolho carregado e veias salientes. Entregam-se de peito feito às maldades do destino, esgravatando sem fim até ao vislumbre de um mundo melhor.
E é nesse momento que desperto do torpor das minhas ideias feitas. Do imaginário repetido de cenas gravadas, livros lidos, reportagens filmadas. Estremeço ao som retumbante de uma gargalhada. E logo outra. E muitas mais.
O debate é aceso e aguerrido. O desenho meticuloso de políticas outras. Frases cuidadas. Objectivos definidos com precisão. Estratégia. Acção. Execução. Coisa séria para todos nós. O que está em jogo são vidas e futuros de mulheres e crianças à mercê de serviços de saúde sem saúde. A morte ao virar da esquina. A miséria lá fora. A mudança cá dentro. Não há lugar a diversão. E assim mesmo, o sorriso que descompõe. Não. Um sorriso não. Uma gargalhada mesmo. E logo outra. E muitas outras.
No meu entendimento de arrogância lógica, não percebo. Talvez porque não me toque perceber. Talvez porque não se trate de compreensão. Talvez até porque o sentido profundo desta gargalhada esteja muito para lá das sinapses neuronais que (mal) conhecemos.
Fecho os olhos por um momento apenas. Breve, quase imperceptível quero acreditar. E sinto apertar o nó da garganta. Vibram as entranhas. Num segundo apenas, assoma a comoção mal contida numa lágrima. Se existe um sopro universal, senti-o agora mesmo. A confiança divina feita gargalhada. A gargalhada de Deus ali mesmo.
Luís Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.









