
“Para onde vou?” Imagem do filme Persepolis, inspirado no livro de Marjane Satrapi com o mesmo título.
A adolescência é uma fase de transição da infância para a idade adulta, que maioritariamente decorre de forma adaptativa.
Ao longo da adolescência, e apesar de a maioria dos adolescentes ser saudável, podem surgir dúvidas, dificuldades, conflitos e doenças que necessitam de ser avaliados por profissionais competentes na área.
No atual Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil que é já de 2013, estão apenas planeadas três consultas de vigilância de saúde, aos 10 anos, 12-13 anos e 15-18 anos, em contraste com o primeiro ano de vida em que estão programadas sete consultas. Todos os adolescentes, sem exceção, deveriam ter, pelo menos, acesso a estas consultas programadas, que consideramos, no entanto, insuficientes. A título de exemplo, estar apenas uma consulta planeada entre os 15 e os 18 anos, não nos parece ser o mais adequado, pois trata-se de um período relativamente curto, mas que espelha realidades completamente distintas. Os 15 anos correspondem ao auge da influência do grupo de pares e pico de incidência de perturbações do comportamento alimentar como a anorexia nervosa. Os 18 anos trazem a problemática da entrada no ensino superior ou início da vida laboral, os projetos de futuro, a vivência de uma sexualidade mais adulta e a transição para os cuidados de saúde de adultos.
Nesta fase de transição para a vida adulta, em que as tarefas da autonomia e de construção da identidade serão desejavelmente cumpridas, surgem desafios não só para o adolescente como para os seus cuidadores.
Há necessidade de uma consulta ‘específica’ para adolescentes porque o adolescente já não é uma criança e ainda não é um adulto. Tem necessidades específicas que exigem interlocutores preparados, treinados no modo como comunicam com o adolescente e sabedores dos principais problemas que afetam esta idade. Se recebemos um adolescente com acne, por exemplo, um problema tão comum na adolescência, a nossa perspetiva não é apenas tratar a acne, mas sim aquele adolescente concreto que, por acaso, naquele momento da sua vida tem acne.
Outro ponto de honra da Medicina do Adolescente é a questão da confidencialidade, que tem por regra ser abordada e garantida, assim como a promoção da autonomia e responsabilização.
Claro que toda esta abordagem terá de ser modulada em função da fase do desenvolvimento em que o adolescente está. É uma prioridade articular esta abordagem com os pais, garantindo sempre a privacidade do adolescente, para que sejam nossos aliados neste processo. A consulta do adolescente promove a participação da família, auxiliando os pais na missão de educar, nomeadamente a superar dificuldades e na resolução de conflitos. Nesta etapa, mais do que nunca, a família necessita de estar presente, atenta e capaz de lidar com as mudanças.
A Medicina do Adolescente vem preencher as lacunas de prestação de cuidados diferenciados a este grupo etário. O foco da intervenção é a saúde global nos seus aspetos somático, psicológico e da relação. São exemplos as dúvidas relativas à normalidade do processo de crescimento, a insatisfação com a imagem corporal e as perturbações de comportamento alimentar, a acne, o excesso de peso/obesidade, as perturbações do humor, como a ansiedade e a depressão, as dificuldades de relação entre pares, o bullying, os conflitos geracionais e os problemas de comunicação na família, o insucesso escolar, a necessidade de contraceção, questões relacionadas com a sexualidade e a orientação sexual.

“Nesta fase de transição para a vida adulta, em que as tarefas da autonomia e de construção da identidade serão desejavelmente cumpridas, surgem desafios não só para o adolescente como para os seus cuidadores.” Foto © Maruf Choudhury / Unsplash
O médico de adolescentes, para além de estar apto a abordar as problemáticas mais prevalentes desta idade, tem como objetivo promover a participação ativa e responsável do adolescente nas questões da saúde, fundamentando a sua ação numa intervenção individualizada e na confidencialidade. O objetivo desta intervenção é, dentro de um espírito de responsabilização em saúde, capacitar o adolescente da sua autonomia crescente, envolvendo-o desde logo nos processos de decisão e nos compromissos terapêuticos.
Trata-se de uma Medicina holística, de oportunidade e de proximidade. Medicina de oportunidade significa que o jovem pode recorrer à consulta por um motivo específico (febre, por exemplo), mas serem identificados outros problemas que não podem ser ignorados. Medicina de proximidade significa que há a preocupação de nos focalizarmos no que o adolescente está a sentir, no modo como vivencia a situação, como vê o problema, a maioria das vezes com lentes muito diferentes das nossas.
Os objetivos da consulta são providenciar vigilância e cuidados de saúde ao grupo etário do adolescente e jovem adulto. Quando o adolescente nos chega com um determinado sintoma, não tratamos o sintoma, mas sim o adolescente. Avaliamos o todo, aquele adolescente concreto, e damos particular importância aos seus contextos de vida (família, escola, grupo de amigos, etc.). Na maioria das vezes trabalhamos de um modo individual com o jovem. Por vezes, no entanto, temos de trabalhar de um modo mais sistémico e propor sessões familiares onde procuramos perceber como é que o sintoma é interpretado por cada um dos membros da família, de que modo afeta cada um individualmente e procurar soluções em conjunto. É muito interessante perceber como um espaço neutro com um facilitador disponível pode ajudar a ‘re-perspetivar’ um problema. Cada um lança o seu olhar único, irrepetível, sobre um mesmo problema, mas, a mais das vezes, os vários olhares são complementares e extremamente enriquecedores. Parte-se daqui para a negociação e para o estabelecimento de compromissos, acordam-se planos a implementar até à consulta seguinte.
Helena Fonseca é pediatra especializada em Medicina do Adolescente e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa; email: helenaregalofonseca@gmail.com










