Cerca de dez minutos ao anoitecer; cerca de dez de minutos ao amanhecer. Quem nunca prestou atenção, comece a prestar.
Podemos ver este fenómeno no campo, nas aldeias, mas também nas cidades – por exemplo, quando os pardais, ao crepúsculo, tentam encontrar um lugar para dormir fora do alcance de gatos, já nos álamos já em outras árvores do mesmo porte. Ou de manhã, antes do dia abrir, como quem saúda o Sol Nascente.
De um momento para outro, onde houver passarada de bando, começa um admirável trinado em canto coral. A seguir, os chilreios vão-se intensificando, depois diminuindo, intensificando outra vez, diminuindo de novo…, como se o mesmo coro alternasse entre si próprio, por entre salmos e antífonas, estrofes e antístrofes. Depois, no final, de um momento para o outro, tudo se cala. Into Great Silence…
A vida de um bando de pássaros – como a de um cardume, de um enxame, de um formigueiro, de um rebanho… – é um grande mistério (mysterion / mysterium > sacramentum: celebração que opera e realiza o que significa). Um bando não é um somatório de ‘x número’ de indivíduos. Constitui antes um todo com vida própria que comunica entre si de forma holística, numa sincronização que só a Vida vivida pode alcançar. Vejam-se aquelas imensas nuvens de estorninhos – a murmuration of starlings –, no outono-inverno, na Escócia (Gretna, Dumfries, Galloway, Mersehead et alibus): milhões deles, a voltear, a dançar ao pôr do sol, numa sincronia espantosa, num admirável “ritual de chegada” ou “cerimónia do adeus”: as migrações que vêm de regiões da Escandinávia começam no outono e vão até novembro, tendo o seu akmḗ no fim do ano. Milhões ficam por ali mesmo, nas regiões entre a Escócia e a Inglaterra, mas tantos outros partem e rumam ainda mais para o Sul, para o sol mediterrânico.
Confesso que, em menino, sentado no joelho esquerdo do meu Pai, Cesário Rosa, ao lume da mítica lareira invernal, escutando-o declamar para todos, em alta voz, O Melro de Guerra Junqueiro [1], ficava muito perturbado com o ódio incompreensível do “Velho Padre Cura” aos melros e aos pardais:
«O velho disse um dia:
“Nada, já não tem jeito! este ladrão
Dá cabo dos trigaes!
Qual seria a razão
Porque Deus fez os melros e os pardaes?!”»
Já, pelo contrário, os versos que abrem o Poema ainda madrugam de cor a minha alma:
«O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar d’entre o arvoredo
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro d’entre a horta
Dizia-lhe: «Bons dias!»
E o velho padre cura
Não gostava d’aquellas cortezias.»
O melro (turdus merula) é um cantador solitário; em Portugal é sedentário, não migra e não costuma andar ou cantar em bando (nas regiões do hemisfério mais a norte, migra). Mas os seus diferentes cantares ao longo do ano (ou do dia) – nas “nas frescas manhãs de abril, nas tardes quentes de junho, nos doirados poentes de setembro”, como rezava uma das lições preferidas de um dos meus livros da Primária – são das melodias mais persistentes que imigram com as minhas memórias de menino, do vale da minha infância, no Brejo Fundeiro (Vila de Rei). Outra, é a melodia do rouxinol – essa voz do rouxinol que um dia hipnotizou o menino-pastor chamado Zezito, que às vezes fazia de áugure / ‘auspex’, e se esquecia de si mesmo… Mas isso já seria outra história.
Que mysteriosa Liturgia celebrarão os pássaros ao anoitecer e ao amanhecer? Que cantos vespertinos e matutinos saem das suas gargantas? Que Vésperas e que Laudes entoarão os seus gorjeios? Que outra, senão a eterna Liturgia da Luz?!
[1] Numa antologia mítica da nossa infância, coligida por Custódio Quaresma, Primores da Poesia Portugueza, Livraria Quaresma, Rio de Janeiro, 1913 (selecta que o meu Pai herdou do seu, o nosso avô Manuel António Júnior, que a trouxe do Brasil, onde duas vezes esteve emigrado, por períodos que ignoro, entre 1905 e 1920).
José Maria da Silva Rosa é professor da UBI (Universidade da Beira Interior).
A Metamorfose dos Pássaros é também o título de um filme de Catarina Vasconcelos, de 2020, película muito tocante sobre o “voo” dos filhos para fora do ninho e as tentativas de regressar, memorialmente, do “ninho vazio” ao Paraíso Perdido…










