Presumia conhecer bem a região do Douro. Há muitos anos – mais de 40 – que a percorro, passeando ou indo para / vindo de Trás-os-Montes, pulando de Lamego para a Régua, e subindo daqui até Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Mirandela, Macedo, Chacim, Balsamão e vice-versa. Ou então descendo desde Foz Côa até ao Vale da Vilariça, passando pelo Pocinho e a Foz do Sabor, subindo depois à Serra de Bornes (Alfândega da Fé, Sambade, Soeima, Gebelim…). Em alternativa mais sinuosa: ir até São João da Pesqueira, descer a São Salvador do Mundo, à Barragem da Valeira, Carrapatosa, Linhares, Parambos…
Houve mesmo um ano inteiro (1987-1988) durante o qual andarilhei, com o padre Basileu Pires, MIC (Congregação dos Marianos da Imaculada Conceição) por praticamente todas as povoações de Carrazeda de Ansiães, perscrutando as gentes com minúcia, falando com elas, provando as suas comidas, imbuindo-me dos seus sotaques, do linguajar e do praguejar, dos modos de ser e de viver. Como esquecer o acolhimento e a generosidade tão franca e aberta das gentes de Campelos!? E das de Coleja? Daqui e dali, basta subir a um penedo ou a um dos inúmeros miradouros (da Fraga, da Talefra, dos Olhos do Tua, etc.) para, de um salto, mergulhar de cabeça diretamente no rio Douro, voando por cima de carrascos, castanheiros, sobreiros, socalcos e escarpas afiadas. E em fundo o rio Imemorial, perene, violento, agora amansado pelas barragens quais espelhos do céu que, como íman, continuamente nos atraem o olhar. E além de Campelos e de Coleja, com toda a justiça devo acrescentar acto contínuo a hospitalidade das pessoas da Carrazeda, de Seixo de Ansiães, de Samorinha, de Selores, da Lavandeira, da Beira Grande, de Vilarinho da Castanheira… E Marzagão, e Mogo, e Fonte de Seixas, e Luzelos, e Fiolhal, e Pombal, e Pinhal do Norte, e Pinhal do Douro… Que riqueza a nossa região do Douro, da Régua até Barca D’Alva e para lá dela, até onde o olhar avista!

“E em fundo o rio Imemorial, perene, violento, agora amansado pelas barragens quais espelhos do céu que, como íman, continuamente nos atraem o olhar.” Foto © José Rosa
Como não trazer ainda à memória o padre Silvino, de Carvalho de Egas, a construir com as suas próprias mãos uma casa, de raiz? E o padre Virgílio, de Carrazeda, com as suas mãos e os dedos todos retorcidos dos frios gélidos de tantos invernos? O acolhimento do padre Moutinho, em Vale Torno, no conforto do escano e do caldo caridoso, à lareira invernosa? Ou a sensibilidade tão hospitaleira do padre Trigo, de Freixiel? Tantas e tantas coisas que vêm e se me atropelam na memória. Um por todos, não posso nem quero esquecer nunca aquele domingo à tardinha, em que, subindo da estação de Tua pela estrada secundária que passa por Ribalonga, fomos nesta generosamente convidados por um casal já idoso para a sua quinta – casa aberta, mesa posta, franqueza, distinção… – para ali bebermos um cálice do ‘vinho fino’ (na conversa também dito “vinho generoso” ou “vinho do benefício”). Ainda hoje vejo nítidos a nobreza dos rostos e dos gestos, o jarro e a bacia de esmalte para lavar as mãos, trazidos num venerável suporte de ferro forjado, com toalhas de linho alvíssimo bordadas à mão, e os trajes finos, dir-se-iam heráldicos, a imensa dignidade do acolhimento como antiquíssimo ritual de hospitalidade. Eram personagens intactas, reais, saídas diretamente dos romances de Camilo Castelo Branco ou de Júlio Diniz.
De uma outra vez, foi em Samodães (do lado de lá do Peso da Régua, após um delicioso passeio em família: de comboio à ida, de barco à vinda), na Casa do Cimo da Vila, com as janelas abertas para o luzidio Vale Abraão. Esta incursão minuciosa pelo Vale da Augustina Bessa-Luís valeria por si só “o livro que ainda não escrevi”… Numa palavra: havia mil razões para dizer que conhecia bem o Douro.

“Fomos nesta generosamente convidados por um casal já idoso para a sua Quinta – casa aberta, mesa posta, franqueza, distinção… – para ali bebermos um cálice do ‘vinho fino’.” Foto © José Rosa
E, no entanto… No dia 4 de outubro de 2021, à tardinha, tive um choque intenso. Quase por acaso, regressando com outros amigos de Balsamão (Chacim), depois do almoço, dei comigo a descer de Ludares, a dois passos de São Martinho de Anta, e ao sair de Vila Real virar inesperadamente à esquerda, enfiando por uma estrada íngreme e muito estreita. Rumava sem rota certa, por azimute aproximado, farejando os cheiros, deixando-me conduzir pela estrada, sem saber nem querer saber por onde ia. Como que num golpe de mágica, eis-nos passando entre socalcos, vinhas vindimadas e ramagens todas vestidas das mil cores do Outono duriense.
Lá ao fundo, perdida nos mil tons, rebrilhava o branco da pequenina aldeia de Afolões (só soube o nome depois, ao ver a placa). Passámos para o lado de lá do ribeiro por uma pequena ponte. Do lado de cima, à direita, um marmeleiro carregado de enormes gamboas amarelinhas, deliciosas só de ver. Subindo dali para Vilarinho de Tanha, parei junto de um senhor aí dos seus 70 anos, à beira da estrada, para meter conversa com ele e pedir algumas informações. Palavra puxa palavra: «O senhor nasceu aqui? – Nasci sim. E sempre aqui morei. – E gosta disto? É feliz aqui? – Se eu gosto disto!!! Não posso viver sem isto. Quando vou a casa da minha filha, ali, em Vila Real, não consigo lá estar mais de duas horas. Tenho de me vir logo embora para aqui. – Como é que o senhor se chama?» No final da conversa, antes de irmos embora, o senhor Joaquim surpreende-nos: «– Esperem aí!» Vai ao carro e puxa de lá uma garrafa do tal “vinho generoso”, fino, caseiro, e oferece-nos: «– É para vós!»
E continuámos a subir, a subir, a subir; passámos por Vilarinho de Tanha, depois Abaças, Fontelo… Ao chegarmos lá ao alto, à direita, já na Galafura, eis uma placa à esquerda a indicar: Miradouro. Acolhemos muito bem a ideia. E de súbito, de um momento para o outro, sobreveio um instante de todo inesperado, intenso, mágico, absolutamente extraordinário. Pode ter sido do dia, da ocasião, da luz outonal da tarde, do azul do céu, do verde-azul do rio, das encostas e vinhedos vangoghianos, dos génios do lugar (genii loci), da disposição anímica do momento, sabe-se lá.

“O Miradouro de São Leonardo de Galafura foi o excesso do dom de um Douro ainda desconhecido. Quando subi ao alto do monte onde está a ermida e vi o imenso vale imenso pintado aos meus pés fiquei boquiaberto, siderado, extasiado, pasmado, fora de mim!” Foto © José Rosa
Devo confessar, sem quaisquer pretensões, que já tive a dita de contemplar e ser esmagado por paisagens absolutamente soberbas (como todos nós, aliás; cada um/a de nós tem a galeria íntima das suas paisagens singulares): para mim, a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, no dia 5 de outubro de 1986, à tardinha, com radioso sol sem nuvens, sair do aeroporto do Galeão a planar baixinho – e ficar sem fôlego, arrebatado diante da pura magnificência da baía, do morro do Corcovado, do azul, do verde, da espuma das ondas, da grandeza. O mesmo se diga de Florianópolis, na Baía Norte, indo de barco até à Ilha de Anhatomirim, para ver os golfinhos, em abril de 2012. Ou da Bahia de Todos os Santos, em São Salvador… Revivo também, noutro hemisfério, em agosto de 2010, a grandeza incomparável das Highland, na Escócia, quando se sai de Fort Wiliam pelo vale do Lochness, em direção a Inverness, passando por Invergarry e Fort Augustus. E na Toscana, há muitos, muitos anos, nos idos de 1985: imensas searas de cevada ondulando ao vento, por entre oliveiras e infindáveis renques de ciprestes a beirar as estradas. E outras e outras poderia acrescentar. Sim, é verdade: por esse mundo fora há paisagens tremendas, fabulosas, de suster a respiração. Mas…
Mas o Miradouro de São Leonardo de Galafura, no 4 de outubro de 2021, desde as 15h30 até mais ou menos às 17h, foi o excesso do dom de um Douro ainda desconhecido. Quando subi ao alto do monte onde está a ermida, junto de uma pequena amurada de pedra e vi o imenso vale imenso pintado aos meus pés fiquei boquiaberto, siderado, extasiado, pasmado, fora de mim! Foi um instante com algo de eterno. E um súbito alarme, um toque a rebate a meio da tarde, uma alegria inexprimível, todo o meu ser em festa como há muito, há muito (talvez desde criança) não acontecia. E logo um embargo e um aperto do coração e uma comoção interior tão intensa que não é possível descrever nem explicar. Parece que ‘eu’ ainda ali ‘fazia sombra’. Sentia-me exíguo, estreito, incapaz de acolher, de recolher tudo aquilo, de fruir e de saborear em levitação, como ela merecia, a beleza exuberante que neste promontório duriense, inesperadamente, se me oferecia de graça. Quase anelava desaparecer, desvanecer-me na imediatez da experiência, ficar diáfano e fundir-me inteiramente com a paisagem, os vinhedos, as rochas, o rio, as nuvens. Não ‘estar ali’, mas simplesmente ‘ser aquilo’.

“Sentia-me exíguo, estreito, incapaz de acolher, de recolher tudo aquilo, de fruir e de saborear em levitação, como ela merecia, a beleza exuberante que neste promontório duriense, inesperadamente, se me oferecia de graça.” Foto © José Rosa
Subi a seguir ao próprio pico da fraga, em frente da orada, virada a poente. E por momentos, naquele penedo onde o Torga registou o Poema, também fui torga com ele: fui grito silencioso, fui xisto e cepa muda agarrada à rocha e fui vide carregada de cachos bêbados, fui realmente capitão suspenso na ponte daquele navio imenso: eis a sagração plena de um Douro-deus intenso, deslumbrante, imaculado. Contou-nos quem ainda conheceu o Poeta, que Miguel Torga escutou o poema ali mesmo, naquele alto. Que tendo saído um dia à caça com o padre de São Martinho de Anta, estava este lá em baixo, no lado nascente, quando se levantaram por ali umas perdizes. Estando já muito próximas e não dando ocasião para abrir fogo, o cura deixou-as passar, ficando então as fasianídeas à mercê da espingarda de Miguel Torga, que estava aqui, no cume da penedia. Mas inesperadamente, misteriosamente, ele não disparou. As perdizes passaram, voaram deslizantes à sua frente, rasantes, silenciosas, planando até à vinha do outro lado do morro. Gritou-lhe o velho padre cura lá de baixo: “– Então? Não as apanhou? A essa distância não costuma errar!” E ter-lhe-á respondido Miguel Torga lá de cima, extasiado: “– Estava a apanhar um Poema!” Que poema? Está inscrito em azulejo, nas traseiras da capela. Ei-lo:

“Que poema? Está inscrito em azulejo, nas traseiras da capela.” Foto © José Rosa
São Leonardo da Galafura
À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.
Lá não terá vinhedos
Nem socalcos
Na menina dos olhos
deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.
Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!
(Miguel Torga in Diário IX)

“À proa dum navio de penedos, / A navegar num doce mar de mosto.” Foto © José Rosa
Depois vieram as fotos. A câmara captou, sim, muitas e bonitas. Mas ela não sentiu a plenitude do instante, não “apanhou” nada. Não desejou prolongar o momento. Não sorveu os cheiros a mosto, a xisto e flor arçã. Não provou os medronhos. Não se alegrou com as cores, não estremeceu com a luz demorada da tarde, não cantou interiormente em Sol Maior, não brindou sobre o Vale duriense com o generoso néctar na mão, não ficou com a névoa do ‘outro-lado-do-Rio’ nos olhos rasos, não ficou arrepiada com a plenitude do instante e a pulcritude do lugar.

“Depois vieram as fotos. A câmara captou, sim, muitas e bonitas. Mas ela não sentiu a plenitude do instante, não “apanhou” nada. Não desejou prolongar o momento.” Foto © José Rosa
José Maria da Silva Rosa é professor da UBI – Universidade da Beira Interior










