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Namíbia: na cidade, no deserto e no mar

| 25/09/2025

 

A minha experiência na Namíbia começou de forma inesperada. Após um atraso considerável na vinda do Botsuana, apareceu uma pequena aeronave apenas para nós, sete viajantes, com destino a Windhoek. O avião de carreira, por assim dizer, não tinha aterrado para nos levar, porque estaria cheio, mas o assunto resolveu-se num improviso quase assustador. Ao chegarmos, já de noite, senti que tinha perdido uma parte importante do que seria tentar perceber o pulsar da capital. Ainda assim, prevaleceu a vontade de aproveitar o pouco tempo que nos restava nesse dia.

Logo no hotel, fomos alertados sobre questões de segurança – estava fora de questão circular na rua, a pé, depois das 6h da tarde; os táxis que, porventura, usássemos deveriam ser os que os rececionistas chamassem… É uma sensação estranha, quase claustrofóbica, estar num novo destino e saber-se impossibilitado de o explorar livremente, apesar de isto não nos ter acontecido pela primeira vez, embora noutras paragens e até noutros continentes.

“Realmente era um lugar para tudo e para todos.” Foto © Margarida Cordo

Decidimos, com alguma irreverência, jantar fora e escolhemos um restaurante bastante recomendado. O que presenciámos acabou por marcar o início do nosso olhar sobre este país. Era um cenário caricato – uma mulher visivelmente grávida, aparentando ter cinquenta anos (para mais, não para menos), fumava e bebia bebidas alcoólicas de forma descontrolada; outras pessoas de diferentes origens, etnias e idades exibiam comportamentos pouco civilizados, numa amostra crua do lado mais selvagem e menos estético do ser humano; “gente como nós” agia de forma espontânea e natural sem ser incomodada por isso. Enfim… Realmente era um lugar para tudo e para todos.

Windhoek. Namíbia

Museu Nacional da Independência (Windhoek), Namíbia. Foto © Margarida Cordo

Foi com esta mistura de perplexidade e de inquietação que, no dia seguinte, à hora prevista, arrancámos estrada fora (sempre em gravilha ou terra batida, consoante os troços), num 4/4 realmente confortável. Fizemos uma tirada de 450Km. Interiormente lutei para não deixar que os primeiros contactos manchassem a minha disponibilidade interior para acolher o que estava para ser vivido.

A Namíbia não é apenas um país, mas um convite ao espanto e ao êxtase. Ao atravessar o seu território, de Windhoek até Sossusvlei e daqui a Walvis Bay, Swakopmund, (…) cruzando o Trópico de Capricórnio, somos confrontados com paisagens que desafiam a imaginação e acordam os nossos sentidos, muitas vezes hibernados pela rotina e pelas exigências do dia-a-dia.

Estou a falar de uma terra de contrastes na qual se misturam o fascínio pelas paisagens inóspitas e pelo silêncio das dunas, com um substrato social muito complexo, palpável mesmo, que intuímos, seja num simples passeio urbano pela capital ou por outras cidades, seja numa conversa ingénua com um habitante que espera numa fila de multibanco para levantar todo o seu vencimento num só dia [1]. Vivê-la é sentir, ao mesmo tempo, o apelo da aventura, o peso das contradições, o encontro com diferentes culturas e idiomas, o luxo descarado e a pobreza extrema.

Talvez por causa da minha formação, gosto de compreender, quando viajo, o impacto do ambiente sobre o ser humano. Neste país tudo à nossa volta fala alto – o silêncio, quase ensurdecedor; o vento, no interior, que nos saudou sob a forma de brisa suave; a cor da areia nas dunas descomunais que subimos, em alguns lugares, quase de gatas; o mar forte, mas que morre sem violência junto ao deserto; as construções bizarras e os edifícios talvez confortáveis embora sem história, nas zonas urbanas, diria eu, as menos interessantes deste país.

O pôr-do-sol no deserto interior parecia exibir diante de nós um mar de fogo e de sombra. Começámos a conversar, mas o silêncio, quase terapêutico, impôs-se num espaço onde os pensamentos se queriam reorganizar, livres da pressão e do burburinho. Claro que não sei se todos experimentámos o momento da mesma maneira, mas todos nos calámos para ver chegar a noite em Sossusvlei.

“Claro que não sei se todos experimentámos o momento da mesma maneira, mas todos nos calámos para ver chegar a noite em Sossusvlei.” Foto © Margarida Cordo

Quando já era muito escuro, com um ponteiro a laser, procurámos as constelações no céu estrelado e descontaminado da poluição luminosa.

A viagem prosseguiu, dias depois, até Swakopmund, cidade costeira onde o deserto encontra o Atlântico. Aqui, a aventura ganha um ritmo novo – subir e descer enormes dunas de jeep é um desafio à gravidade e ao medo, uma descarga de adrenalina que contrasta com a serenidade do deserto interior. O vento forte traz o cheiro salgado do oceano, misturando-se com a poeira da areia.

Swakopmund. Namíbia

Swakopmund. Foto © Margarida Cordo

Em Walvis Bay, embarcámos rumo ao mar. Focas, pelicanos, gaivotas… coexistem num habitat que parece não tocado pelo tempo. A observação e o convívio com estes animais que se aproximam do barco sem temor, livres e adaptados a condições extremas, inspirou-nos uma reflexão sobre resiliência — tanto a deles quanto a nossa. O contacto com a natureza selvagem produz uma sensação de pertença ao mundo enorme, muitas vezes esquecido por nós na vivência provinciana das cidades que dizemos desenvolvidas.

“Em Walvis Bay, embarcámos rumo ao mar. Focas, pelicanos, gaivotas… coexistem num habitat que parece não tocado pelo tempo.” Foto © Margarida Cordo

Walvis Bay. Namíbia

“A observação e o convívio com estes animais que se aproximam do barco sem temor, livres e adaptados a condições extremas, inspirou-nos uma reflexão sobre resiliência — tanto a deles quanto a nossa.” Walvis Bay. Foto © Margarida Cordo

Por curiosidade e de um modo mais prosaico, deixo alguma informação sobre o território e o seu povo – é um dos países menos densamente povoados do mundo, com quase 3 milhões de habitantes numa área total de cerca de 825 000 quilómetros quadrados. A diversidade étnica é marcante: Povos como os Himba, Herero, Nama e San mantêm tradições ancestrais, enquanto cidades como Windhoek refletem influências coloniais alemãs e sul-africanas. Conquistaram a independência em 1990 e, desde então, têm investido em turismo sustentável e na conservação da natureza. A gestão dos recursos naturais é um desafio constante, especialmente face às alterações climáticas e à escassez de água.

Apesar de nos rechear o espírito, esta viagem ressoa também como um alerta para o que estamos a fazer ao nosso planeta, perturbando o seu equilíbrio e negligenciando o óbvio.

“Apesar de nos rechear o espírito, esta viagem ressoa também como um alerta para o que estamos a fazer ao nosso planeta, perturbando o seu equilíbrio e negligenciando o óbvio.” Foto © Margarida Cordo

 

[1] Uma curiosidade – segundo apurámos a Namíbia não tem salário mínimo. O salário médio oscila entre os €500 e os €1200.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt

 

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