Na intervenção que foi convidado a fazer na conferência sobre os abusos sexuais de dia 10, o jornalista João Francisco Gomes teceu várias críticas ao modo como a Igreja Católica se relaciona com os média em Portugal. Depois de ter publicado esse texto na íntegra, e também tendo em conta o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinalou no último domingo, 29 de Maio, o 7MARGENS convidou vários jornalistas que têm acompanhado a informação religiosa com alguma regularidade a escrever um depoimento sobre o tema. A seguir, o contributo de Ana Catarina André, jornalista da Rádio Renascença.

Ana Catarina André: “Perceber que o tempo dos jornalistas implica maior agilidade nas respostas, que é necessário desconstruir conceitos, é cada vez mais importante.” Foto: Direitos reservados.
Há uma questão fundamental que, por vezes, me parece estranhamente esquecida ou pouco considerada, quando se fala na relação entre a Igreja e os média. Uma pergunta que a um olhar mais atento se torna evidente, mas que na voracidade do quotidiano aparenta escapar: Qual é a função do jornalista? Que missão tem? Faz perguntas porquê e para quê?
Recordo muitas vezes as palavras de Nelson Traquina, um dos mais conceituados professores de jornalismo da Universidade Nova de Lisboa, onde estudei, um homem que marcou várias gerações de profissionais. Dizia ele que “os jornalistas são uma comunidade interpretativa”, com uma competência específica: a de informar a sociedade. Uma missão que implica questionar, cruzar informação, considerar e ouvir os diferentes intervenientes, esclarecer dúvidas, perceber o contexto e a linguagem para que leitores e ouvintes possam estar informados, exercendo de forma mais esclarecida a cidadania.
Não se trata aqui de uma cruzada – não me revejo num jornalismo que, utilizando muitas vezes argumentos falaciosos, explora a vida privada, descura a contextualização, incute no leitor/ouvinte perceções erradas sem sustentação fatual, e não procura o contraditório. Não, não me refiro a esse tipo de abordagem, mas a um trabalho sério que grande parte dos jornalistas que conheço procura fazer todos os dias, com a dificuldade acrescida de as redações estarem cada vez mais pequenas e os cidadãos se confrontarem com uma panóplia de conteúdos de origem duvidosa que facilmente são confundidos com notícias, sobretudo no mundo digital.
Os jornalistas fazem perguntas para informar, fazem perguntas não para levantar suspeitas, mas para clarificar. E é à luz desta missão primordial, essencial à democracia, que o tratamento jornalístico da temática religiosa naturalmente se deve enquadrar. Um questionamento que, como sublinha o Papa Francisco, implica escuta: “Para narrar um acontecimento ou descrever uma realidade numa reportagem, é essencial ter sabido escutar, prontos mesmo a mudar de ideia, a modificar as próprias hipóteses iniciais.”
Para que este exercício de escuta possa, de facto, ocorrer, é preciso que a própria Igreja esteja disponível a colaborar, dando-se a conhecer, estando disponível para o diálogo. É certo que a Igreja, sendo tão heterogénea, tem reagido, ao longo dos anos, de maneiras distintas às solicitações do mundo mediático, mas há ainda um caminho a percorrer, sobretudo no que diz respeito à profissionalização daqueles que interagem com a imprensa. Perceber que o tempo dos jornalistas implica maior agilidade nas respostas, que é necessário desconstruir conceitos, muitas vezes também eles pouco conhecidos pelas comunidades eclesiais, é cada vez mais importante.
Por outro lado, sendo fundamental que a Igreja compreenda a função do jornalista, cabe também ao jornalista perceber a missão da Igreja, conhecer a sua linguagem e história para a poder contar. Um desafio exigente que implica a tal disponibilidade para a escuta de que fala o Papa: “A boa comunicação não procura prender a atenção do público com a piada foleira visando ridicularizar o interlocutor, mas presta atenção às razões do outro e procura fazer compreender a complexidade da realidade.”
Além deste olhar atento e deste espírito inquieto que é pedido a cada jornalista, é preciso também investir na sua formação.
Será, então, que a missão de uns e outros, ou seja, de jornalistas e membros da Igreja é assim tão antagónica, como por vezes aparenta ser pela forma como, por vezes, a imprensa é descrita e até repelida? Não me parece. O que é fundamental é que cada um desempenhe da melhor maneira a sua função, conhecendo também a missão do outro. Isso sim.
Ana Catarina André é jornalista da Rádio Renascença e tem feito vários trabalhos na área da informação religiosa.










