No ano que há poucos dias chegou ao fim, a palavra mais pesquisada no dicionário foi “inefável”. No ano anterior, foi a palavra “apocalíptica” a ocupar o primeiro lugar, por motivos que eram fáceis de entender. Acabávamos de sair de uma pandemia, a Rússia insistia em espalhar os seus erros de destruição pelo mundo, e Israel seguia o mesmo caminho de violência, esmagando a faixa de Gaza num combate desigual. Neste cenário apocalíptico, abriam-se os selos, soavam as trombetas; a peste, a fome, e a guerra cavalgavam mundo fora.
Inesperadamente, em 2024, a palavra mais procurada foi “inefável”, sem qualquer associação a algum acontecimento em concreto. No dicionário, a definição de “inefável” consiste naquilo que, paradoxalmente, “não pode ser expresso por palavras”. O mesmo dicionário se apressa a sugerir alguns sinónimos como “indescritível”, “indizível” ou “inexprimível”. Mas o que lemos no dicionário, de que assunto trata? Apenas palavras, palavras, palavras…

‘Inesperadamente, em 2024, a palavra mais procurada foi “inefável”, sem qualquer associação a algum acontecimento em concreto. No dicionário, a definição de “inefável” consiste naquilo que, paradoxalmente, “não pode ser expresso por palavras”.’
Nas mais diversas ocasiões, sobretudo no telejornal, ouvimos as pessoas dizer: “não tenho palavras”. Acontece quando se depararam com sentimentos extremos, seja uma felicidade irreprimível, uma suprema alegria, ou, pelo contrário, uma tristeza avassaladora, um sofrimento atroz. Nos momentos mais radiantes ou nos momentos mais amargurados, os sentimentos não cabem nos estreitos limites da linguagem. Sendo inefáveis, a alma dispensa o ruído das palavras.
Frequentemente uma imagem vale mais que mil palavras: a mulher que acolhe o marido nos braços, após uma década de ausência; o filho que, aos ombros, salva o pai de uma cidade em chamas; a criança que nasce num presépio; o mestre que lava os pés aos seus discípulos; o homem que abraça a cruz; a mãe que embala, no colo, o filho morto. São acontecimentos a que as palavras não conseguem fazer justiça, apesar das tentativas de escritores, poetas, evangelistas ou místicos.
Recorrendo à imagem de João da Cruz, “é como se uma porta se escancarasse e a alma visse uma luz parecida com um relâmpago numa noite escura.” Um relâmpago que, rasga em dois, o véu do templo em dois, a terra treme, as rochas fendem. Inefável era o silêncio do princípio, inefável o nome que falava da sarça ardente, inefável o murmúrio da brisa suave, inefável o mistério tremendo e fascinante. O mesmo verbo era inefável, que por isso teve de encarnar. Talvez por ser inefável, o mundo não o conheceu.
“Acerca daquilo que não se pode falar”, dizia o filósofo Wittgenstein, “temos de permanecer em silêncio”. Também o silêncio é inefável. A linguagem da alma é, muitas vezes, a linguagem do silêncio: o silêncio da humildade, o silêncio da espera, o silêncio da contemplação. Porque as palavras podem ser um espelho confuso, que nos impedem de ver face a face, “ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos…”
A Nuvem do Não-Saber ensina-nos a orar com poucas palavras, porque um simples monossílabo “dito secretamente na profundidade do espírito”, é escutado mais depressa do que um “longo saltério distraidamente debitado”. Na experiência do deserto, diz Pablo d’Ors, o que menos importa é o que dizemos a nós próprios; o que importa é o que o silêncio nos quer dizer: “dizei uma palavra e serei salvo”. É quando as palavras vão embora que encontramos o que procurávamos.
O amor é inefável. A vida, a graça, a esperança são inefáveis. Contudo, insistimos em procurar a palavra certa para proferir no momento oportuno, com o mesmo empenho que a mulher acende a candeia e varre a casa, até encontrar a dracma perdida. Porventura nem sabemos que dracma, que palavra procuramos. Talvez, no fim de contas, as palavras que procuramos sejam sempre as mesmas. Além de “inefável”, as palavras “amor”, “felicidade”, “perdão” e, no ano que agora começa, sem dúvida a palavra “paz”.
Carlos Lemos é médico.








