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Ressurreição El Greco
El Greco, Ressurreição. Museu do Prado (Madrid)

Música para a festa cristã

A Páscoa intrigante

| 04/04/2026

Há obras que não se limitam a ocupar um lugar no repertório. Tornam-se dispositivos que atualizam permanentemente uma memória. Messiah, de Georg Friedrich Händel, pertence a essa estirpe. Não apenas pela sua difusão ou pela eficácia imediata de certas secções – como o inevitável Hallelujah –, mas também porque nele a música se converte em forma de inteligibilidade: uma maneira de organizar, tornar audível e partilhável aquilo que o cristianismo afirma desde as suas origens, em articulação com a memória do povo bíblico – a salvação como história.

O cristianismo, na história das tradições religiosas, demarca-se de uma visão cíclica do tempo, fundada na repetição de idades e no eterno retorno. Em seu lugar, propõe uma narrativa: uma intriga que articula promessa, cumprimento e consumação. A Criação, a Encarnação, a Paixão, a Ressurreição não são episódios, mas momentos que se atravessam numa economia de salvação que se desenrola no tempo. É precisamente essa lógica que Messiah assume e traduz num idioma musical.

Do ponto de vista histórico, o oratório surge num momento em que o género se afirma como forma privilegiada de mediação entre a ação ritual, o concerto público e a meditação religiosa. Händel, herdeiro da tradição italiana do oratório e protagonista da sua reconfiguração no contexto inglês, leva essa forma a um ponto de rara concentração entre eloquência musical e retórica teológica.

O libreto de Charles Jennens é decisivo. Longe de propor uma narrativa linear da vida de Jesus, compõe uma tessitura de citações bíblicas que articula profecia e cumprimento. Jesus é reconhecido como o Messias prometido, o Redentor e o Senhor glorificado, seguindo o tradicional método tipológico. O Antigo Testamento não é apenas antecedente: é prefiguração; o Novo, consumação. A estrutura tripartida da obra reforça essa coerência. A primeira parte concentra-se na expectativa messiânica e na Encarnação; a segunda, na Paixão e na vitória pascal; a terceira, na ressurreição dos mortos e na esperança escatológica.

A reflexão de Paul Ricœur pode oferecer uma chave de leitura particularmente fértil. Ao desenvolver a noção de “identidade narrativa”, Ricoeur sublinha que os sujeitos – individuais ou coletivos – se compreendem a si mesmos por meio das narrações que contam e recontam. A identidade não é um dado estático, mas o resultado de uma configuração temporal, de uma intriga que confere coerência ao vivido. Messiah pode ser escutado como um dispositivo dessa ordem: uma prática musical que permite à comunidade reapropriar-se da sua génese, não por mera repetição, mas por reconfiguração narrativa.

A música de Händel confere a esse programa uma eficácia notável. Recitativos, árias e grandes coros alternam contemplação, afirmação e exaltação com uma clareza que favorece a receção do sentido. A abertura, de “estilo francês”, investe a obra de uma solenidade régia que antecipa o tema da realeza de Cristo; os coros ampliam a dimensão litúrgica – portanto, pública – da proclamação. O Hallelujah, tantas vezes isolado como se de um “efeito” se tratasse, revela-se na sua função própria: não um clímax arbitrário, mas a expressão sonora de um reconhecimento – a afirmação da soberania de Jesus Cristo no interior da narrativa que a obra constrói.

É certo que este programa, no seu universo interior, corresponde a um mundo em que se celebrava a vitória do cristianismo sobre os destinos do mundo. Hoje, num tempo de diáspora, precisamos de outras leituras. No entanto, é justo reconhecer que é na convergência entre forma e sentido que reside a força duradoura de Messiah . Permanece a sensação de que Händel encontrou, no oratório sacro, uma forma capaz de tornar audíveis a beleza e a inteligibilidade de uma narrativa. A sua escuta hoje reforça a convicção de que o cristianismo tem uma história a contar.

Ver o vídeo nesta ligação do canal YouTube.

 

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