A revelação de um apaixonado
Na catequese católica aprendemos e ensinamos os dogmas da Igreja, mas talvez fosse preferível alterar o paradigma para a abertura e fomentar o gosto pela aventura do encontro com Deus. Na terminologia de Santo Inácio de Loiola: “Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o saborear internamente as coisas.”
Na pregação e no ensino é necessário dar raízes, na transmissão da fé a primeira etapa é dar a conhecer Deus. Mas esse conhecimento nunca substitui a aventura da procura e do encontro. A interioridade só pode ser percebida pela vivência pessoal. Saborear a presença de Deus é muito mais intenso do que qualquer catecismo ou tratado teológico. A excessiva preocupação com a doutrina corre o risco de asfixiar o desejo de conhecer Deus e de o seguir. A fé cristã é de uma dimensão vasta demais para poder caber num elenco de dogmas.
De facto, o cristianismo é a única religião no mundo que professa a fé num Deus que se deixou tocar por pecadores, chorou, foi torturado e morto numa cruz de onde veio a ressuscitar conservando as chagas. O deus dos cristãos é um deus que não foi poupado ao desespero e à dor. Essa realidade é incompreensível para a lógica humana. O Homem tem o desejo de algo que seja maior do que a sua humanidade, algo que o transcenda e lhe dê segurança. No imaginário humano, deus é omnipotente, distante da realidade humana, dotado de um poder absoluto sobre o mundo. Ora, na História da revelação divina, Cristo é o Deus encarnado que assumiu a nossa humanidade, chegando ao ponto de permitir que a sua própria criação o crucificasse. Renunciou ao poder absoluto sobre o Homem por amor, dando-lhe uma liberdade total, inclusivamente para O negar.
No nosso íntimo, imaginávamos um deus omnipotente. A proximidade divina com a nossa matéria-prima, a desmedida do Seu amor tira-nos o chão. Queríamos um justiceiro e Deus troca-nos as voltas revelando-Se um apaixonado.
Inconformados, voltámos a negar a Deus, negando a medida do Seu amor tornando-nos os justiceiros que desejaríamos que Ele fosse. Para isso, criámos imperativos intransponíveis e selecionámos impuros que, arrogando-nos uma autoridade que não nos foi dada, pusemos às portas da Igreja. Apesar do caminho feito por várias pessoas com sede de procura, ainda hoje, e numa tendência crescente, encontramos acérrimos defensores do deus distante e justiceiro, um deus à medida do homem. Realidade muito mais cómoda, para nós, apesar de Cristo ter destruído esse bezerro de ouro instituindo o amor como princípio e fundamento da essência divina. Ao fazê-lo, tirou-nos o rol de certezas que criámos para apaziguar as dúvidas da nossa existência.
Nas nossas permanentes contradições, ao mesmo tempo que ansiamos por um abrigo onde possamos largar armaduras e reclinar a cabeça, temos uma imensa dificuldade em entregar-nos por inteiro, sem medida. E, do mesmo modo, nos negamos a aceitar quem vem ao nosso encontro, procurando integrar as suas imperfeições numa história de vida em vez de excluir. A tentação de ceder ao facilitismo de nos deixarmos reger por imperativos pré-fabricados acaba muitas vezes por vencer. Abrir a porta a alguém é sempre um ato de risco. A possibilidade de nos depararmos com algo para o qual não temos resposta ou com que não saberemos lidar está sempre presente. Um julgamento apriorístico é mais cómodo do que o encontro com uma ferida.
Na Igreja refugiamo-nos no desejo de um deus juiz. A Sua entrega total a nós por amor na cruz é-nos incompreensível. A nossa mente é incapaz de abraçar esse amor. Em alternativa, criámos uma interpretação da cruz utilitarista, vendo o sacrifício de Cristo como uma exigência que nos obriga a responder com sacrifícios, mortificações e resignação com o sofrimento. Não concebemos a desmedida deste amor que apenas nos tornaria apaixonados por este Deus. O amor e, mais ainda, o amor apaixonado, é uma realidade que ainda não alcançámos. Durante a Sua vida pública e, ao ver aproximar-se a hora da morte, Cristo apenas desejou que nos entregássemos a Ele, cumprindo o mandamento que nos deixou: amar os outros como Ele nos amou.
Neste mandamento há uma mudança de paradigma. Cristo deu um salto, não pediu que amássemos os outros como a nós mesmos. Pois isso seria amar com a nossa medida. Ao invés, decidiu ir mais além pedindo-nos que amássemos os outros como Ele nos amou. Esse é o amor que não tem medida. Um amor apaixonado. Só alguém verdadeiramente apaixonado como é este Deus pode esperar de nós uma superação desta ordem.
É característico do amor desejar que a pessoa amada tenha “vida em abundância”, que supere os obstáculos que a impedem de dar o melhor de si mesma. Ao deixar-nos este mandamento, Jesus professa uma imensa fé em nós. É um mandamento que exprime uma confiança incalculável na nossa bondade. Com este mandamento de amor, Deus pede-nos que continuemos o Seu trabalho de criação. Só quando nos sentimos incondicionalmente amados é que as nossas asas se soltam para voos mais altos. Amando incondicionalmente o nosso próximo permitimos que o melhor de si venha à superfície, libertamos o bem original que Deus marcou nele.
Em Igreja professamos o compromisso de seguir Cristo. Essa exigência implica inclusão, amor a todos e empenho em cuidar de toda a criação.
Uma Igreja que continue de portas fechadas a pessoas que decidiu excluir, em nome de um reduto de conforto, nunca será capaz de ser verdadeiramente Igreja: presença real de Jesus Cristo no mundo.
Sofia Távora é estudante de Direito e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.
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