Perdi a conta às vezes que já me sentei naquela sala.
Ao marcar o código que abre a porta, penso sempre que aquela sala não deveria ser assim. A luz não é má e abrindo a janela fica agradável. Os pequenos sofás, no entanto, são de um vermelho aberto, plástico. Um computador, um lavatório e um pequeno crucifixo, bastante discreto por cima da porta. É uma sala do hospital. Chama-se Roter Salon (Salão vermelho). E é a sala que temos, embora tenha outros propósitos, para as conversas que exigem mais tempo e privacidade com doentes e familiares. Geralmente familiares.
É sempre uma incógnita. Ao marcar o código da porta nunca sei como vão correr aquelas conversas. Trata-se de doença, de prosseguir ou não com o diagnóstico. De limitação de cuidados. De morte. Mas também de qualidade de vida, de controlo de sintomas, de acompanhamento, de aceitação.
Antes de me dirigir às pessoas e as convidar para uma destas conversas faço sempre uma pausa. Respiração, encontro comigo própria, esforço de equilíbrio. Embora o seja, não o podemos fazer como uma tarefa entre as outras tantas tarefas. Tem de ser-ser, tem de ser-estar.
Abro a porta. Sentamo-nos nos pequenos sofás vermelhos. Expectativa. Não sei que pessoas são aquelas e os doentes também conheço sempre pouco, apenas em alguns dias da sua longa vida. Tantas histórias em cada pessoa, em cada família. Eles também não me conhecem e farão as suas imagens.
Abro a conversa. Convite a que falem sobre o que já sabem, a sua própria perspetiva da situação. Perguntas. Tento perceber em que lugar está aquela família, aquela pessoa.
Resumo a situação. Exponho as alternativas diagnósticas e terapêuticas. O objetivo é, primeiro, saber qual a vontade, expressa ou não, da pessoa doente. Muitos têm documentos escritos, onde estão registados que tipo de procedimentos aceitam no caso de doença grave. Trata-se de manobras de ressuscitação no caso de paragem cardiorrespiratória, mas também a sua vontade de ser transferido para uma unidade de cuidados intensivos, ventilação e alimentação artificial, diálise, tratamento de infeções, etc. Quando não há documentos temos essas conversas juntamente com as famílias para tentar perceber como escolheria, se pudesse, a pessoa doente nesta situação concreta.
A mim cabe-me dizer o que, em termos médicos, é possível ou previsível. Difícil, muito difícil. Certezas são poucas.
E há de tudo.
Conversas tranquilas, apaziguadoras.
Conversas doídas, tristes.
Conversas indecisas, confusas.
Conversas duras, agressivas.
Conversas circulares, desesperantes.
Reconduzir novamente a questão. Várias vezes. Não se trata do que eu posso ter vontade de fazer (é sempre mais fácil avançar-avançar) ou do que os familiares possam querer (muitas vezes evitar o seu próprio sofrimento). É na pessoa doente que nos temos de concentrar.
Aprendi com a própria experiência, profissional e privada, que muitas vezes são precisas várias conversas.
E assim, com ou sem resolução, termino a reunião. Disponibilidade para novas conversas, se necessário marcamos já outra. O compromisso sempre reafirmado de cuidar, o abandono não é uma opção.
Sai-se da sala. Fora da sala o ritmo não parou. As outras tarefas à espera, o tempo a apertar. Por dentro uma calma. Um alívio. Uma tensão. Uma incompreensão.
Penso que tudo isto não pode ser muito saudável para mim.
Se me dá outra compreensão da humanidade? Espero que sim.
Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.










