
“Não olhávamos à cor da pele ou às classes sociais. Visitávamos as casas uns dos outros sem avisar, bastava tocar à campainha. As avós ou mães preparavam sempre um lanche para encher a barriga desses pequenos aventureiros da rua suburbana.” Imagem Freepik
Passo várias vezes pelo velho parque da minha rua, infelizmente marcado pelo descuido municipal e pela cruel passagem do tempo. Revivo dias bem passados, repletos de sonhos e loucuras infantis, com partidas de futebol em vários formatos, desde o “vira-costas” – em que o guarda-redes lançava a bola de costas para dois jogadores – até aos clássicos 5×5.
Quando estamos imersos num lugar, muitas vezes não percebemos como o tempo avança. Concentramo-nos no momento presente, como se fôssemos eternos, mas esquecemo-nos de que o tempo, a consciência e a memória estão profundamente interligados. Diversos vultos da cultura europeia ocidental, de Proust a Bergson, exploraram como a memória não é apenas um repositório do passado, mas também uma força vital que molda a nossa percepção do presente e do espaço que habitamos.
No entanto, a memória também se recria a si própria. Muitas vezes, algo que experienciámos há 10 anos pode não corresponder exatamente ao que aconteceu, pois a nossa consciência tende a recriar esses momentos, quase como um artesão que sublinha certas partes e obscurece outras.
Ouvimos frases repetidas, de quem culpa o presente e o passado pelos seus próprios erros. É sempre mais fácil culparmos os “outros” do que enfrentarmos a difícil autoanálise – e o quão dolorosa esta pode ser.
O tempo passa, não porque queremos, mas porque sempre passou e sempre passará.
Na primária, fazia parte de uma turma multicultural. Naquele tempo, não havia grupos ou barricadas políticas para combater o racismo e fomentar a fraternidade entre nós. Bastava-nos o bom-senso e a bondade infantil. Brincávamos todos juntos no parque.
Não olhávamos à cor da pele ou às classes sociais. Visitávamos as casas uns dos outros sem avisar, bastava tocar à campainha. As avós ou mães preparavam sempre um lanche para encher a barriga desses pequenos aventureiros da rua suburbana. Foi assim que conheci várias gastronomias, sobretudo africanas, como a cachupa e a muamba de galinha, feitas com o amor de mães trabalhadoras, que, apesar do cansaço, tinham sempre dedicação suficiente para preparar uma refeição acolhedora.
Não precisávamos que nos ensinassem sobre respeito, igualdade e fraternidade. No final de contas, bastava sermos humanos e criar o ambiente certo para unir as crianças e sair à rua.
Hoje, o parque está vazio e em degradação avançada. Este também é um sinal dos tempos. A comunidade precisa de ser cuidada, não através do ódio ou daqueles que monopolizam causas para seu próprio proveito, mas pelo exemplo. Não é preciso dizer que “há racismo”. Precisamos de voltar a pisar o chão acolchoado do parque e brincar todos juntos. Afinal, é simples.
Pedro Castro Gomes, licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica Portuguesa, é natural de Lisboa e trabalha como Analista de Media.








