Trump deu o tiro de partida para a concretização de uma nova ordem capitalista mundial: o imperialismo tecno-feudal. Imperialismo, porque reaparecem as tradicionais submissões que alguns territórios, as colónias, deviam a outros que exerciam a função de metrópole. E tecno-feudal (termo cunhado pelos economistas Durand e Varoufakis, cada um à sua maneira), porque é já evidente que a servidão e a vassalagem começam a ser impostas a novos senhores que baseiam o seu poder na tecnologia.
Este tecno-feudalismo imperial tem regras muito estritas. Só pode ser conduzido por um tipo de Estados que satisfaçam quatro condições:
A) Ser potências económicas. B) Ter poder militar. C) Dominar plataformas tecnológicas capazes de controlar o comportamento de milhões de cidadãos; e, finalmente, D) Ser dirigidos por governos quase despóticos.
Atualmente, apenas dois países cumprem estes requisitos: os EUA e a China. E são estes dois que começaram a dividir o mundo. Mesmo que a Rússia, muito mais fraca, esteja a tentar não perder a sua parte do bolo, ainda que à custa de uma relação muito estranha com os EUA e Trump. E, nesta partilha, a UE – uma potência económica, mas sem exército (nem armamento suficiente), nem tecnologia, nem despotismo político – tem um papel a desempenhar porque os EUA (com a Rússia) e a China parecem querer atribuir-lhe um papel secundário, irrelevante.
Mas será que temos de obedecer aos ditames dos grandes? Será que temos de ceder e resignar-nos a esta irrelevância?
É verdade que, depois do Brexit, da ascensão da extrema-direita, da invasão da Ucrânia pela Rússia, do genocídio israelita na Palestina e das primeiras fases do trumpismo, a UE parece ter ficado atordoada, sem rumo e em estado de choque. Mas ainda pode reagir e superar as circunstâncias. Porém, para o fazer, tem de resolver o dilema entre sucumbir perante o tecno-feudalismo (e ficar, desse modo, subordinada ao inquilino de turno da Casa Branca) ou, em alternativa, desenvolver um modelo próprio que lhe permita alcançar a autonomia estratégica.
Vassalagem aos senhores tecno-feudais
Sucumbir ao tecno-feudalismo significaria, para a Europa, prestar vassalagem aos novos senhores feudais (Elon Musk e outros) e colocar-se ao serviço do rei que eles escolheram (Trump). As servidões desta vassalagem são claras e foram estabelecidas como regras vinculativas.
No domínio militar, implicam o aumento das despesas – o que beneficiaria, a curto prazo, a indústria de armamento dos EUA. No domínio tecnológico, passam por abolir – seguindo o dogma trumpista – a regulação das plataformas tecnológicas, o que consagraria a supremacia da oligarquia americana. Por fim, na esfera política, requerem que a UE renuncie ao Estado de direito, do bem-estar e da defesa dos direitos humanos e o multilateralismo nas relações internacionais. Todos eles princípios democráticos aos quais os EUA parecem dispostos a renunciar, na sequência da crise institucional aberta por Trump.
Autonomia estratégica
Em contrapartida, a alternativa para alcançar a autonomia estratégica consiste em a UE afirmar-se na defesa do seu próprio modelo. Ou seja, que não renuncie aos princípios que abraçou desde a sua criação: cooperação, democracia e unidade na diversidade.
No entanto, para continuar a manter estes princípios, é imprescindível que tenha um plano de ação apoiado pela maioria dos Estados-Membros da UE, mobilizados para esse efeito.
No plano militar, é necessário que as despesas com a cooperação e o desenvolvimento tenham prioridade sobre as despesas com armamento. Isto é particularmente importante em relação aos países vizinhos, desde o Mediterrâneo até à Rússia. Não basta, evidentemente, estabelecer objetivos para as despesas militares em proporção do PIB, mas sim em proporção às despesas afetadas à cooperação. Provavelmente quanto maior for o investimento na cooperação, menor será a necessidade de gastar em armas.
No que respeita à tecnologia, trata-se tanto de manter as regras do mercado interno como de aumentar o investimento em tecnologia (I&D e formação). Mas não uma tecnologia que imite a tecnologia que os oligarcas de Silicon Valley nos querem impor, mas sim uma tecnologia libertadora, humana e respeitadora dos direitos das pessoas.
Por fim, no campo político, trata-se de não se deixar levar pelo canto de sereia do autoritarismo populista e de dar prioridade à defesa da democracia. O ser humano não foi feito para o autoritarismo, mesmo que este, como qualquer tirania, possa prometer – apenas em princípio – um certo grau de segurança. A longo prazo, a liberdade e o pensamento crítico são as bases para o desenvolvimento dos direitos humanos e da fraternidade.
A procura de consenso
No entanto, se a resposta europeia ao desafio do tecno-feudalismo é clara a nível teórico, é-o menos no plano político.
Enquanto o tecno-feudalismo encontra aliados na extrema-direita europeia – convertida em cavalo de Troia do trumpismo – não há, de facto, unidade entre aqueles que se lhe opõem. É verdade que o trumpismo gerou uma multiplicidade de movimentos de protesto – especialmente fora das fronteiras dos EUA. Mas esses protestos são dispersos e fracos no seu conjunto. Como sempre, a soma das oposições não vai gerar uma alternativa estável e um movimento político sustentável e positivo. Por isso, há que explorar outras vias.
Neste contexto, a prioridade da UE há-de ser a articulação de um consenso maioritário dos cidadãos e de uma concertação política alargada, o mais amplo possível, que vá da direita democrática e moderada à esquerda plural.
Naturalmente, construir um tal consenso exige a mobilização da maioria social mais ampla possível em cada um dos Estados da União e o abandono de todo o frentismo retórico – que exagera as diferenças e impede os acordos. Por outras palavras, alcançar este consenso exige que se ponha termo a uma polarização selvagem que, nos últimos anos, só tem favorecido os extremos e, sobretudo, a extrema-direita.
A mobilização dos cidadãos através do consenso e da concertação exigirá, sem dúvida, um grande esforço e uma boa dose de tolerância e compreensão. Contudo, neste momento, vale a pena esforçar-se por explorar essa via. Porque é a única possível para, por um lado, vencer o tecno-feudalismo imperialista e, por outro lado, alcançar a paz e a autonomia estratégica de que a UE necessita para existir.
José Manuel Pérez Tornero é professor catedrático da Universidade Autónoma de Barcelona e ex-presidente da RTVE – Radio e Televisão de Espanha. Dirigiu diversos projetos de investigação e consultadoria no âmbito da União Europeia e da Unesco. Uma primeira versão deste texto foi publicada na coluna habitual do autor no jornal El Periódico.










