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Nuno Miguel Rodrigues

A urgência de uma nova evangelização

anuncio campanha evangeliz a He Gets Us, foto c He gets Us (1)

Um anúncio de uma campanha de evangelização levada a cabo nos Estados Unidos, por uma organização, sob o mote “He Gets Us”, Foto © He Gets Us.

 

Sim, esta é a maior urgência para a nossa Igreja Católica de hoje. Não tenhamos ilusões! Andamos já há alguns anos em serviços mínimos e apenas em cuidados paliativos. Ainda não tivemos a coragem de acordar para a vida e para o que é urgente. Estamos fartos de reuniões e mais reuniões; de encontros; de sínodos; de diagnósticos; de análises e estudos.

Quando é que teremos a ousadia de passar para uma verdadeira terapia? 

E isto já não passa com uma mera medicação. É preciso ir ao fundo da questão e fazer uma reforma de fundo. Esta reforma chama-se nova evangelização. Novos conteúdos e novos meios e métodos. Deixarmos de ser uma Igreja assistencialista e passarmos a uma Igreja missionária. Deixarmos uma Igreja meramente conservadora da sua tradição e passar a uma Igreja de futuro, construindo uma nova esperança para os homens de hoje. O Evangelho será sempre o mesmo, mas o tempo muda, os contextos mudam e as sociedades modificam-se.

 A Igreja, como comunidade de crentes e de discípulos missionários têm de enveredar por outros caminhos. 

Deixarmos a concepção duma Igreja meramente hierárquica, de bispos e padres, para uma Igreja de cristãos baptizados e todos consagrados a Deus e comprometidos com a acção evangelizadora da Igreja. Deixarmos a ideia duma Igreja de supermercado onde só vou quando preciso dum determinado serviço: um baptismo; um casamento; um funeral. Uma Igreja de consumo consoante os meus apetites e necessidades.

 Quando é que iremos ter a coragem de suspender por uns tempos a administração de alguns sacramentos e fortalecermos o que já somos enquanto baptizados, casados, sacerdotes ou religiosos? Uma nova evangelização não é uma cruzada, muito menos uma ação de arrebatar o maior número de cristãos para a Igreja Católica. É uma missão de cuidar dos que já fazem parte desta família. De re-evangelizar os que já são cristãos ou como muitos dizem, católicos não praticantes. 

Quando é que vamos ter a coragem, e sobretudo as dioceses, seus bispos, as paróquias e seus párocos de não se preocuparem, apenas e só, com as estatísticas para enviar anualmente ao Vaticano? Quando é que vamos ter a ousadia de percebermos que já não nos interessa uma Igreja de massas, de multidões, de números? Mas sermos uma Igreja como o resto de Israel? De sermos uma igreja de catacumbas e não uma igreja de regalias e mordomias? De abandonarmos uma igreja de militância e de majestosos templos e catedrais para passarmos a uma igreja de rua, de praça e do mundo dos homens de carne e osso? De deixarmos os nossos ritualismos litúrgicos, estéreis e vazios de conteúdo para celebrações mais simples e com ritos mais concretos e alegres que digam alguma coisa ao comum dos mortais? De deixarmos de ser apenas uma Igreja de anjos e santos para uma Igreja pecadora, enlameada que grita por perdão e misericórdia? De termos a determinação de deixarmos esquemas de catequese baforentos e arcaicos e passarmos a um tipo de formação mais abrangente e crítica? Repensarmos todo o percurso catequético e as festas da catequese e seguirmos o caminho duma mistagogia mais apropriada abrangendo várias áreas do saber? De termos a coragem de refazermos todo o Catecismo da Igreja Católica que tem uma linguagem demasiadamente tradicionalista e conservadora para uma linguagem mais contextualizada à realidade social de hoje? De conseguirmos incrementar novas metodologias pastorais e evangelizadoras como por exemplo os encontros nos lares familiares; nos prédios habitacionais; nas ruas e praças públicas; nas universidades; nas escolas e em tantos outros lugares e espaços que não seja a igreja paroquial? Quando é que vamos ter a coragem de fecharmos os cartórios paroquiais e sermos nós, padres, a ir ao encontro das pessoas e das famílias? Preciso de falar com o pároco? Em vez de ir à paróquia, vou convidá-lo a vir ao nosso lar familiar para falarmos, convivermos e rezar.

Enfim, ou queremos ou não queremos incrementar esta urgência de re-evangelização.

Para isso basta coragem e ousadia de percorrermos caminhos novos, sem medo, sem reservas, sem apegos ao passado, sem calculismos, mas com muita confiança na ação do Espírito Santo que faz novas todas as coisas e a todos nos renova.

Nuno Miguel Rodrigues é padre católico, da Congregação dos Missionários do Espírito Santo (Espiritanos)

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