Oito minutos é o tempo que separa uma ambulância de um carro onde uma menina de apenas seis anos, rodeada pelos cadáveres da sua família, pede socorro. Uma situação que, apesar de dramática, parece controlável, pensará quem começou a ler. O problema é que a situação se passa no norte de Gaza, onde o tempo parece dilatar-se por efeito das bombas. E aqueles oito minutos, que já são demasiado tempo para quem espera entre carros de assalto disparando, transformaram-se em cento e oitenta minutos ou mais.

Cartaz do filme.
Falo do filme A Voz de Hind Rajab, da realizadora tunisina Kaouther Ben Hania, baseado num caso real noticiado na comunicação social e nomeado para os Óscares 2026 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Este é um filme entre o documentário e o drama, mas não ficção. Guião baseado na transcrição das conversas, da autoria da realizadora tunisina Kaouther Ben Hania, tudo no filme é muito real.
Como disse a própria aos repórteres no Festival de Veneza, onde o filme ganhou o Leão de Prata: “Quando ouvi a voz de Hind pela primeira vez, havia algo mais do que a voz dela. Era a própria voz de Gaza pedindo ajuda… Foi a raiva e a impotência que deram origem a esse filme.”
Não sei se por me ter embrenhado demasiado no enredo, se por raiva ou impotência, confesso que saí exausto do filme e algo envergonhado com tantos silêncios convenientes e algumas condenações envergonhadas por esse mundo fora.
Todo o filme se desenrola num ambiente de grande tensão, catalisadora do próprio filme. A tensão passa para o espectador, ao ouvirmos o desespero e o medo na voz da menina, enquanto os voluntários do centro do Crescente Vermelho da Palestina, situado em Ramallah, na Cisjordânia, a 80 quilómetros da frente de guerra, e que é responsável por coordenar os esforços de resgate e assistência, procuram desesperadamente conseguir uma rota segura de salvamento. Uma rota em que tanto a criança como a ambulância enviada para a socorrer pudessem ficar em segurança.
A tensão entre a necessidade urgente em resgatar a menina – afinal seriam apenas oito minutos de percurso –, e a exigência de cumprir todos os protocolos para não colocar em risco a equipa de socorristas, a única equipa que restava na zona norte de Gaza. Surge então a pergunta: será legítimo e justo colocar em risco uma equipa de socorristas, comprometendo futuros resgates e salvamentos, em nome de um único salvamento, por mais dramática e desumana que seja a situação? É também essa a tensão entre quem ouve o desespero da menina e tenta mantê-la em linha tentando, apesar do seu próprio desespero, aliviar-lhe o sofrimento e a angústia (Omar e Rana) e o peso e a responsabilidade do coordenador dos socorristas (Mahdi, o actor Amer Hlehel) que não pretende perder a última equipa que lhe resta no norte de Gaza.

Mahdi (Amer Hlehel) explicando (a Omar) a importância dos protocolos. Foto retirada do trailer do filme.
O problema é que os protocolos são desenhados e impostos por quem tem o poder e aceites por quem está fragilizado e nada mais pretende do que trazer alguma humanidade a um mundo de caos e de trevas.
Rana (Saja Kilani) e o seu colega Omar (Motaz Malhees) nada podiam fazer, apenas tentarem controlar as emoções e a tensão, conservarem a voz calma e manterem a conversa com Hind Rajab, menina de seis anos, escondida dentro do carro de seu tio, cercada pelos corpos de seus familiares e presa sob fogo cruzado na cidade de Gaza. As vozes de Omar e sobretudo de Rana, que “aguentou” a conversa durante horas, eram o seu único elo com o mundo exterior, com algo que lhe era familiar.
Decorridas três horas de espera e de desespero, finalmente o sinal verde de Israel para enviar uma ambulância para salvar Hind. Um certo alívio paira no ar mesmo sabendo que a missão não está terminada. No computador do coordenador do Crescente Vermelho aparece a verde fluorescente a rota segura através dos destroços de Gaza. A partir do centro tentam guiar o condutor da ambulância e o acompanhante até chegar ao destino.
Há no filme um certo absurdo, incompreensível como todos os absurdos: nesta era das comunicações, é mais fácil contactar com o tio da menina na Alemanha (é ele que informa que a menina está viva) do que comunicar com as várias entidades responsáveis para encontrar uma rota segura. Imagine-se o absurdo que é o pedido ter de passar pelo gabinete da Cruz Vermelha em Genebra até chegar ao responsável do exército israelita que coordena as rotas!

Omar seguindo a rota no ecrã do computador enquanto Mahdi dá indicações aos socorristas da ambulância. Foto retirada do trailer do filme.
Finalmente, a ambulância chega ao local. Ouvem-se tiros. Silêncio de um lado e do outro. As vozes calaram-se. Para sempre.
Esse foi o destino, porque em Gaza não existem rotas seguras quando o invasor é o único a defini-las.
Doze dias depois da gravação de pedido de socorro, os corpos de Hind Rajab, de seu tio, de sua tia e de seus três primos foram encontrados no carro cravado de balas, assim como os dos socorristas junto da ambulância.
Todos os actores do filme são oriundos da Palestina e, de acordo com a realizadora e argumentista, a tunisina Kaouther Ben Hania, não existe uma criança a representar Hind Rajab por respeito à sua vida.

Rana mantendo a conversa com a pequena Hind Rajab. Foto retirada do trailer do filme.
Como disse a actriz Saja Kilani no Festival de Veneza: “A história de Hind carrega o peso de um povo inteiro. Ou ainda: como deixamos uma criança implorar pela vida? Ninguém pode viver em paz enquanto uma criança for forçada a implorar por sua sobrevivência… Que a voz de Hind Rajab ecoe pelo mundo.”
Este não será por certo um grande filme em termos cinematográficos, mas ficará indubitavelmente para a história como um documento que nos lembrará o quanto fomos cúmplices de tamanha desumanidade.
Em memória de todas as crianças mortas em Gaza, vale a pena terminar com um poema do escritor e poeta palestiniano Khaled Juma:
Oh Crianças Malandras de Gaza
Oh crianças malandras de Gaza
Vocês que me perturbavam o tempo todo com vossos gritos…
Vocês que quebraram o meu vaso e roubaram a única flor da minha varanda
Voltem…
E gritem como quiserem, quebrem todos os vasos
Roubem todas as flores
Voltem…
Só voltem…
[Poema escrito aquando da ofensiva militar de Israel na Faixa de Gaza em 2014 e apelidada de Operação Margem Protetora (Operation Protective Edge).]
A Voz de Hind Rajab
Realização: Kaouther Ben Hania
Com Saja Kilani, Motaz Malhees, Clara Khoury; Amer Hlehel
França/Tunísia, 2026
Duração: 1h 29m
Em exibição nas salas










