Abandonar o plástico e investir no ambiente e na água potável para todos, pede o Vaticano às instituições católicas

e | 2 Abr 20

Vídeo do Papa - preservação dos oceanos

Imagem do “vídeo do Papa”, de Setembro de 2019, sobre a preservação dos oceanos, mostrando uma ave morta pela ingestão de plásticos.

 

Abandonar o uso de garrafas de plástico, contribuir para a separação de resíduos e investir em sistemas amigos do ambiente são algumas das propostas do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral (DSDHI), do Vaticano para todas as estruturas e instituições católicas.

O documento Aqua Fons Vitae (“A água fonte de vida”) – Orientações sobre a Água. Símbolo do Gritos dos Pobres e da Terra (disponível para já apenas em inglês) considera a água como “um bem comum cuja sábia gestão contribui para o bem comum da família humana”. A “privatização” dos recursos hídricos é questionada e, mesmo sem condenar essa hipótese a priori, sublinham-se os riscos de apropriação da água por interesses privados e as consequências que daí resultam.

Publicado segunda-feira, 30 de março, o texto pretende ser “uma reflexão muito ampla sobre a água e os desafios que representa para a humanidade e o meio ambiente”.

A divulgação estava prevista para o Dia Mundial da Água, assinalado a 22 de março, mas foi adiada devido à redução do trabalho da Cúria Romana, causada pela pandemia do coronavírus – o que significa também que a sua tradução para outras línguas não será imediata. A propósito da covid-19, o Dicastério sublinhava, na sua apresentação, o facto de a atual crise tornar “particularmente alarmante” a situação das entidades sanitárias que se confrontam com a falta de água de qualidade.

Com base na “ecologia integral”, desenvolvida pelo Papa Francisco na encíclica Laudato si’ – que sublinha a profunda ligação dos campos espiritual, ecológico, económico, político e social – o texto agora publicado começa por recordar longamente o valor da água, não apenas no plano espiritual, mas nas suas implicações socioculturais, estéticas e, obviamente, económicas.

“Sem água limpa, lavabos, sabão, duches e procedimentos de higiene, milhares de milhões de pacientes, profissionais de saúde e famílias estão em risco, pois faltam os alicerces ou infra-estrutura para um atendimento digno, seguro e de qualidade”, diz o DSDHI.

Apelando à responsabilidade dos governos ou decisores económicos na tomada de decisões ou na execução de projetos com impacto na água, Aqua fons vitae dirige-se, no entanto, sobretudo às igrejas locais e às várias organizações e movimentos eclesiais. E pede: “Em todas as paróquias, mosteiros, escolas, cantinas, oratórios e centros de saúde, a Igreja deve garantir o acesso à água potável e ao saneamento com sistemas que sejam amigos do ambiente, eficientes e compatíveis com as necessidades específicas dos utilizadores.”

 

Água potável, um direito básico

Círculo de Gavarnie (Altos Pirinéus, França, próximo de Lourdes)

A água potável é um direito de todos, recorda o Vaticano. (Círculo de Gavarnie, nos Altos Pirinéus, França). Foto © António Marujo/7MARGENS

O documento trata também dos direitos humanos – referindo o direito à água potável como um direito básico, ainda negado a 2,2 mil milhões de pessoas – e das consequências das atividades humanas para o meio ambiente, em relação à água, como no caso do impacto do desperdício de alimentos no que ele implica de esbanjamento da água necessária para os produzir. E refere as questões dos oceanos e mares: exploração de recursos, os migrantes no mar ou a situação dos trabalhadores no mundo marítimo.

Na apresentação do documento, noticia entretanto a Ecclesia, o DSDHI diz que que está a definir uma estratégia global para as instituições de saúde da Igreja Católica. Muitas delas, em países pobres, não têm “um acesso adequado à água para as necessidades mais básicas de limpeza e higiene”.

“Partos, intervenções cirúrgicas, infeções, epidemias: nada disto pode ser gerido de modo seguro sem água e a situação é particularmente alarmante nestas semanas, devido à pandemia de Covid-19”, recorda aquele organismo.

O documento distingue três dimensões, tratadas nas três partes em que se organiza: a água para uso humano; a água como recurso usado em muitas atividades humanas, em particular na agricultura e na indústria; e a água como superfície, isto é, rios, aquíferos subterrâneos, lagos e, principalmente, oceanos e mares.

Para cada uma das dimensões, o documento apresenta os desafios e as propostas para aumentar a consciencialização sobre o problema e o compromisso local. A parte final do documento propõe uma reflexão sobre educação e integridade.

O Papa Francisco falara já do tema da preservação dos oceanos no vídeo de setembro da Rede Mundial de Oração do Papa. Nele recordava um encontro que teve com vários pescadores que lhe disseram ter recolhido, em poucos meses, seis toneladas de plástico. “Isso é a morte dos oceanos, é a morte de todo o ser vivo, é a minha morte”, dizia o Papa no vídeo.

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