
Abbé Pierre, fundador do Movimento Emaús, morreu em 2007. Em 2023, a Federação Emaús França recebeu um primeiro testemunho que dava conta de uma agressão sexual por ele cometida contra uma mulher. Foto © Aurora Prize
Aquela que foi durante décadas a figura pública mais querida dos franceses, Abbé Pierre (1912-2007), acaba de morrer uma segunda vez, com a informação, divulgada esta quarta-feira, 17 de julho, pelo próprio movimento por ele fundado de que várias mulheres, uma das quais menor de idade, o acusam de abusos de natureza sexual.
A informação, que vem detalhada num relatório datado do último dia 4, caiu como uma bomba, tornando-se notícia em diferentes partes do mundo, devido à projeção que o padre católico tinha granjeado, primeiro na Resistência francesa aos nazis e, a partir dos anos 50, em obras sociais com grupos marginalizados e especialmente pessoas em situação de sem-abrigo.
As denúncias começaram em 2023, quando a Federação Emaús França recebeu um primeiro testemunho que dava conta de uma agressão sexual cometida pelo Abbé Pierre contra uma mulher.
Depois de uma delegação do movimento ter falado com a vítima, foi decidido desenvolver um trabalho de auscultação interna que envolveu igualmente o Emaús Internacional e a Fundação que traz o nome do fundador, para apurar se outros factos da mesma natureza se tinham verificado.
Esse trabalho foi levado a cabo por Caroline De Haas, do grupo Egaé, vocacionado para a formação e consultadoria no que se refere a “igualdade de género, combate à discriminação e prevenção da violência sexista, sexual e moral, nomeadamente no trabalho”.
Sensação de nada poder fazer
Essa instituição recolheu o testemunho de sete mulheres, nos primeiros meses deste ano, todas elas dando conta de comportamentos de agressão ou de assédio, ocorridos num período compreendido entre 1970 e 2005, ou seja, até dois anos antes da morte do clérigo.
Segundo o relatório, pelo menos mais quatro pessoas – que não quiseram falar ou não puderam ser contactadas – podem ter sofrido violências do mesmo tipo. E o documento é claro ao admitir a possibilidade de novos casos virem a surgir.
Foi neste quadro que os responsáveis do movimento Emaús tomaram a decisão de montar um dispositivo que continue a recolher de forma confidencial outros testemunhos de eventuais vítimas do Abbé Pierre. Esse dispositivo não se limita a escutar quem o deseje, mas também a desenvolver formas de acompanhamento de vítimas.
Os casos que, de forma anónima, o relatório especifica ainda que sumariamente, mostram vários pontos comuns entre eles e dão a perceber que, em vários momentos e circunstâncias, alguns responsáveis foram postos ao corrente dos comportamentos abusivos. Porém, isso era aparentemente levado à conta de fraquezas da grande figura pública que era o Abbé Pierre, não tomando em consideração a violência contida em tais práticas.
Outro ponto comum entre os relatos refere-se ao choque e surpresa que os avanços do padre suscitavam nas vítimas, a ponto de levarem cada uma delas a perguntar-se se aquilo que viam e sofriam era de facto real e se o próprio se daria conta do caráter inapropriado dos atos. Ficavam com a sensação de que, tratando-se daquela pessoa, nada podiam fazer.
“Uma enorme fissura” entre o compromisso social e os abusos

Frase do Abbé Pierre num muro de Montpellier: “Governar é antes de mais dar casa ao seu povo.”: “A dissonância entre a sua vontade de justiça e o comportamento em relação às mulheres é uma enorme fissura.” Foto © GFreihalter, via Wikimedia Commons
O grupo Egaé percebeu em alguns dos testemunhos “uma forma de domínio alimentado pela diferença de idade, pelo estatuto do Abbé Pierre” – uma “forma de idolatria”. Em vários casos de mulheres que trabalhavam diariamente numa relação de proximidade com ele, elas sentiam-se tão em perigo que evitavam estar com ele sem ser com alguém ao lado, que pudesse ser testemunha.
“A dissonância entre a imagem do Abbé Pierre, a sua vontade de justiça e de igualdade e o seu comportamento em relação às mulheres está a criar uma enorme fissura entre as pessoas que o admiravam ou que admiravam o compromisso”, sublinha o relatório da indagação sobre este caso.
Com a revelação desta faceta de agressor, é difícil não a ligar com declarações que o fundador de Emaús fez, na fase final da sua vida, quando, numa entrevista publicada em livro, reconheceu que tinha cometido o “pecado da carne”. Se a confissão se referir às situações de abuso agora relatadas, está-se perante uma versão que não reconhece os abusos e violências cometidos; por outro lado, se, além daqueles abusos, teve relações consentidas com outras mulheres, então está-se perante um caso de vida dupla ainda mais complexo.
Tal como conseguiu, ao longo da vida, que as suas irreverências e excessos se apagassem perante a magnitude do bem que promoveu junto dos mais carenciados e da luta denodada contra a pobreza, é provável que também estas denúncias passem ao esquecimento. Mas não deixarão de constituir uma mancha profunda de insensibilidade perante o sofrimento que gerou.
O movimento Emaús reconhece, no comunicado divulgado sobre este caso, que as revelações “estão a abalar as [suas] estruturas, nas quais a figura do Abbé Pierre desempenha um papel fundamental” e “estão a mudar profundamente a forma como olhamos para um homem conhecido sobretudo pela sua luta contra a pobreza, a miséria e a exclusão”.









