Os testes sumativos, enquanto elemento de avaliação, deveriam pura e simplesmente ser eliminados do sistema, ou reduzidos ao mínimo dos mínimos. Ouço já as vozes sobressaltadas de alguns colegas professores, que não concebem uma avaliação que não passe por testes de avaliação regulares. Porém, são esses mesmos colegas que, tanto quanto posso saber pela minha limitada experiência pessoal, não gostam de passar horas e horas, por vezes até tarde na noite, e muitas vezes fins de semana inteiros, a corrigi-los.
Pois é. Eu também não gosto nada de nada.
Além disso, perguntar-me-ão: e como avaliaríamos os alunos? Ora, simplesmente – sem menosprezo da complexidade inerente – por via da assiduidade, da pontualidade, e do trabalho de aula (que pode ser avaliado de muitas formas). Nada mais. E, no final de cada ano letivo, pela realização de um exame global à disciplina (com duas fases). Pronto.
Alunos como instrumentos do sistema

“Se a escola é percecionada, pelos alunos (e professores também), como um lugar que violenta a sua natureza, sem lhes dar em troca uma verdadeira educação para a inteligência emocional, para a liberdade, para a sensibilidade ética e estética, então não é de esperar que aprendam alguma coisa, a não ser de um modo negativo.” Foto © Gpoint Studio | freepik
Há muito tempo – décadas – que quem reflete sobre o assunto apresenta a mesma conclusão. O ensino baseado no “come e deita fora”, quer dizer, na assimilação a modos que apressada e mal digerida da matéria para depois ser “vomitada” num teste, não contribui realmente para a aprendizagem do aluno. Mas contribui, de facto, para o aumento da ansiedade, de alunos e professores, especialmente quando se trata de disciplinas de exame (falo especialmente no ensino secundário). Contribui, de facto, para que alunos e professores gostem cada vez menos da escola, a qual tem vindo progressivamente a assimilar, de modo cada vez mais doentio, a mentalidade do modelo social vigente, todo voltado para a aceleração, a pressa, a conformidade, a obsessão pelos resultados e pelas estatísticas. E sabemos que este modelo social, em que o indivíduo é mais uma engrenagem da máquina do que um fim em si mesmo da atividade política e económica, assenta, mesmo que não sejamos disso conscientes, numa forma de violência psicológica, a qual contribui para gerar ansiedade, medo, angústia e, enfim, todas as patologias e perversões que daí decorrem.
Se a escola é percecionada, pelos alunos (e professores também), como um lugar que violenta a sua natureza, sem lhes dar em troca uma verdadeira educação para a inteligência emocional, para a liberdade, para a sensibilidade ética e estética, então não é de esperar que aprendam alguma coisa, a não ser de um modo negativo: isto é, por simples condicionamento clássico, aprenderão a associar certas matérias (e, no geral, a própria escola), em si muito interessantes e belas se aprendidas de uma outra forma e noutro contexto, à violência da obrigação, à angústia e à ansiedade dos resultados. Por conseguinte, em vez de aprenderem a amar o conhecimento, detestá-lo-ão. Em vez de aprenderem a amar o estudo e compreenderem o valor humano (e não apenas instrumental) do conhecimento, aprenderão a levá-lo em conta com o mesmo entusiasmo com que se experimenta uma dor de dentes. Nunca mais quererão ouvir falar n´Os Lusíadas, nas equações de segundo grau ou em Descartes, nem aprender mais sobre o assunto (a não ser que tenham, de facto, aprendido a gostar deles, o que é mais exceção do que regra).
Em vez de ser o lugar que desperta a curiosidade e o amor pelo conhecimento, pela beleza e pelo bem, a escola (salvo certamente algumas exceções) mata-os e enterra-os bem fundo. Em vez de despertar o gosto pela leitura demorada, pela criação, pelo estudo, pela solidariedade, pelo conhecimento enquanto revelador do Homem e das suas possibilidades, a escola aposta na necessidade de vergar os alunos às necessidades do “mundo real”, que tão doente está por carência crescente de humanidade, verdade, solidez moral, cooperação e sentido do bom e do belo. Não quero dizer que não seja importante, por exemplo, um aluno saber como criar uma empresa; tudo o que libertar o Homem é positivo. Falo sobretudo dos valores éticos, do espírito moral de uma sociedade, do valor humano do conhecimento, que a escola deve preservar e promover. O conhecimento e as competências intelectuais e morais assumem, na escola atual, um valor meramente instrumental, ao serviço do “sucesso”, escolar, material, estatístico ou outro, mas não da formação integral da pessoa, ou seja, do desenvolvimento equilibrado de todas as suas dimensões, a saber, intelectual, emocional, moral, criativa e mesmo espiritual. Não dá ao aluno a consciência de ser membro da vasta e diversa comunidade humana, coparticipante na sua marcha histórica multimilenar, cheia de passado e cheia de futuro. Resultado: os alunos saem do ensino obrigatório de cabeças (mal)cheias, mas com os corações muito desarrumados, ansiosos, com pouca ou nenhuma curiosidade acerca do mundo e da vida, emocionalmente analfabetos, moralmente fracos e pouco conscientes de si e das suas reais capacidades e talentos, intelectuais e práticos. Dito de outro modo: sem Esperança.

‘(…) não é a escola que tem de se adaptar à sociedade, ao dito “mundo real”, mas antes o “mundo real” que tem de ser transformado através da escola.’ Foto: Debate sobre o acolhimento dos migrantes e a construção da paz (Escola Secundária de Cacilhas-Tejo). © Jorge Wemans | /MARGENS
Assim, afirmo que não é a escola que tem de se adaptar à sociedade, ao dito “mundo real”, mas antes o “mundo real” que tem de ser transformado através da escola.
É aliás provável que dessa violência latente da vida escolar decorram também muitos dos fenómenos de indisciplina em sala de aula. Porque a violência, mesmo que subliminar, gera sempre, necessariamente, uma reação, especialmente se falamos de jovens que ainda não têm o cortéx pré-frontal (responsável pelo controlo dos impulsos e pela deliberação racional) completamente desenvolvido (só o está, como há muito a neurociência mostrou, por volta dos 25 anos).
Além do mais, comportamento gera comportamento, isto é, a indisciplina dos alunos em sala de aula gera descontentamento e stresse sobre os professores que, por sua vez, se manifesta em impaciência destes para com os alunos, alimentando o circulo vicioso que transforma a escola num lugar de tensões permanentes, ansiedade e jogos de força subliminares que a ninguém beneficiam e agradam, e tornam muito ineficaz o processo de ensino-aprendizagem (para não dizer mesmo numa fraude em que ninguém acredita, mas para a qual todos colaboram diariamente, só por inércia e conformismo).
É necessário, pois, reduzir a tensão, expurgar excrescências burocráticas, curriculares, de avaliação, etc. que permitam tornar a escola num lugar onde se possa formar (ou começar a formar, porque isso é algo para a vida toda) seres humanos mais livres, responsáveis, solidários, criativos, curiosos, mais senhores das suas emoções e capacidades, mais sensíveis à beleza e moralmente robustos.
Mandem-se às malvas as estatísticas e, quanto às necessidades do “mundo real”, elas serão sempre mais bem atendidas por homens e mulheres que começaram a aprender a ser realmente livres e conscientes do valor humano do conhecimento, curiosos, responsáveis e emocionalmente competentes.
O “mundo real” está, infelizmente, cada vez mais impregnado pelo pessimismo moral e ontológico, e a esperança verdadeira é um bem cada vez mais raro. Perante o dito “caos” que grassa pelo mundo, e que é propalado até ao paroxismo pelos média; perante um mundo superpovoado, onde o indivíduo parece sentir-se cada vez mais indefeso e insignificante, sentimento que se adensa por causa do desenraizamento familiar e comunitário, e em relação à própria natureza; perante as sombrias previsões do futuro, pejado de eventos extremos, alterações climáticas e catástrofes; perante a incerteza no emprego, na saúde, na habitação, reforçada pela precariedade da vida familiar e afetiva, onde o jovem já não encontra porto seguro, amizade ou referências sólidas; perante ainda a realidade global e sombria da manipulação digital, que lança os jovens em novas dependências, jogando, muitas vezes, com a sua solidão e vulnerabilidade emocional, minando a sua capacidade de concentração e atenção, a sua criatividade e até a sua capacidade de se relacionar saudavelmente com os outros; perante a ubiquidade do ruído, real e “informativo”, e a falta de uma cultura de silêncio, reflexão e contemplação; perante tudo isto, os jovens estão cada vez mais ansiosos, sentem-se cada vez mais sozinhos e impotentes, e a escola não está a ajudar a que, nas suas vidas, a esperança possa ser cultivada; eles, que são a própria encarnação da esperança, e não matéria-prima ou carne para canhão a lançar na engrenagem da “vida social real”…
Porque a própria escola se deixou impregnar deste pessimismo, e a sua crescente burocratização, massificação e submissão ao “mundo real”, incluindo a sua excessiva preocupação por resultados e estatísticas, já não serve o culto da esperança que ela deve desenvolver num mundo que dela muito precisa. O propósito da escola deve ser, também, o de devolver a esperança a uma juventude prematuramente cansada e envelhecida, ansiosa e angustiada, mostrando-lhe, aliás, que nem tudo é caos, guerra e sombra, e que há realmente motivos para acreditar na possibilidade de um mundo mais humano. E que eles podem contribuir para esse mundo, com o melhor das suas capacidades e dando testemunho, em si mesmos, de uma humanidade melhor. A escola dispensa bem o ruído, em todas as suas formas, a precipitação, e deve tornar-se exemplo de comunicação e comunidade humana, à sua própria escala.
Mas para tal, é preciso revalorizar o conhecimento por si próprio, e ainda o tempo, a serenidade, reformas curriculares que introduzam novas disciplinas, oficinas ou espaços de aprendizagem dedicados a formar, como já antes referi, o sentido do belo, a inteligência emocional, a criatividade, a reflexão, a solidez moral (ou coragem ética, se quisermos), a consciência e autoconsciência (por exemplo, já tarda demasiado a inserção, nas escolas, de uma disciplina dedicada à prática da meditação ou outras práticas relacionadas com o aperfeiçoamento da atenção, da disciplina interior e do controlo da ansiedade).
Avaliação das aprendizagens

“Está por provar que um grande volume de avaliações signifique mais e melhor aprendizagem. Os próprios alunos admitem estudar para “vomitar” a matéria, e depois, a tendência quase geral é simplesmente deixar os conteúdos deslizar preguiçosamente para o esquecimento.” Foto © CPLP – Portal da Educação
Voltemos agora à questão dos testes.
Notícia recente do jornal Público revelou que, em 2025, houve quase 3500 pedidos de apoio em Portugal para crianças e jovens (entre os 14 e os 18 anos), principalmente relacionados com “elevado sofrimento psicológico, solidão, ideação suicida, pressão na escola com as notas (itálico meu), angústias na escolha da área profissional e bullying.”
A minha experiência também me diz que a pressão dos testes e das notas está cada vez mais presente e é fator de ansiedade e angústia entre os jovens, especialmente em semanas que implicam um grande volume de avaliações, por vezes consecutivas. O centro, mesmo na mente desses alunos, são sempre os testes, nunca o conhecimento, nunca as possibilidades de humanização que a escola pode abrir, porque é essa a mentalidade que a escola ativamente cultiva neles, desde o primeiro ano.
Ora, está por provar que um grande volume de avaliações signifique mais e melhor aprendizagem. Os próprios alunos admitem estudar para “vomitar” a matéria, e depois, a tendência quase geral é simplesmente deixar os conteúdos deslizar preguiçosamente para o esquecimento. É verdade que se pode sempre retomar certos conteúdos no processo de avaliação contínua, de modo a reforçar a aprendizagem e garantir alguma consolidação. Mas, ainda assim, não é fácil retomar conteúdos em programas que, por norma, são bastantes extensos e têm de ser cumpridos, especialmente nas disciplinas de exame no final do 11º ou 12º. Em todo o caso, um exame final em cada ano seria um modo de retoma de conteúdos.
Temos, além disso, de contar com aquilo que já referi, que é o condicionamento psicológico gerado pela associação entre ansiedade/medo/revolta e avaliações/conteúdos/matérias, que mata, a longo prazo, aquilo mesmo que a escola gostaria de alimentar, que é o gosto pelo conhecimento, pelo estudo, a curiosidade e a criatividade. O conhecimento é um valor. Vale por si próprio, e não só enquanto meio para tirar boas classificações e, assim, ter “sucesso escolar”, ou um bom emprego, ou o elogio dos professores e pais. Quando muito, o conhecimento pode ajudar a que nos tornemos melhores (embora, só por si, não o possa fazer, não o conhecimento estritamente intelectual, literário ou técnico; tem de ser coadjuvado pelo desenvolvimento da consciência e da auto-consciência, moral, emocional, intra e interpessoal). Deve, portanto, ser trabalhado em aula enquanto tal, como valor em si mesmo, e com a profundidade que merece, para abrir ao aluno novos horizontes de possibilidades humanas e novas perspetivas acerca do mundo e da vida.

“Dir-me-ão que dar uma nota final pelo trabalho em aula, aluno a aluno, numa turma de 28 alunos (mais ou menos) é muito complexo e difícil. É, sem dúvida. Mas um professor tem a capacidade de perceber, se estiver atento, se um aluno se empenha nas tarefas propostas, se responde e participa de forma pertinente, se o seu comportamento está ou não dentro das regras.”
Repito que não se trata de acabar com a avaliação, mas antes de tirar peso e importância à avaliação sumativa regular, colocando-a antes no trabalho em aula, na assiduidade e na pontualidade. E o trabalho em aula pode e deve ser desenvolvido de um modo mais dinâmico, com momentos de exposição/explicação, mas também de trabalho individual, em pares ou grupos, no sentido de desenvolver competências de interpretação, criação, exposição, expressão do pensamento por via oral ou escrita, porque não há dúvida de que só se aprende realmente quando somos obrigados a explicar ou apresentar um conhecimento anteriormente trabalhado por nós, com esforço e benéfica dificuldade (só aprendemos quando estamos em dificuldades, dizia Agostinho da Silva, baseado na experiência de Baden Powell, o fundador do escotismo).
As competências que um teste normalmente avaliaria, quaisquer que elas fossem, podem e devem ser trabalhadas em sala de aula com regularidade, e desse trabalho, consoante o desempenho e empenho do aluno ao longo do período ou semestre, extrair-se-ia uma nota final. Essa nota depois seria, no final de ano, ponderada em conjunto com a nota do exame.
As horas que alunos e professores ganhariam com a eliminação dos testes serviria para, por exemplo, adicionar as tais novas disciplinas e oficinas de desenvolvimento ético/estético/emocional que atrás referi (votados ao desenvolvimento integral da pessoa, que vai muito para além da mera assimilação, por vezes forçada, de conhecimento, raramente bem digerido e por isso nunca realmente aprendido), ou para tempos dedicados ao acompanhamento mais personalizado dos alunos (as salas de estudo), ou simplesmente para que os professores tivessem mais tempo para preparar as suas aulas, frequentar formações, ou simplesmente refletir sobre o conhecimento (que é o seu objeto), a sua prática profissional, a sua missão.
Dir-me-ão que dar uma nota final pelo trabalho em aula, aluno a aluno, numa turma de 28 alunos (mais ou menos) é muito complexo e difícil. É, sem dúvida. Mas um professor tem a capacidade de perceber, se estiver atento, se um aluno se empenha nas tarefas propostas, se responde e participa de forma pertinente, se o seu comportamento está ou não dentro das regras. Se os alunos compreenderem que o trabalho em aula, cada dia e todos os dias, o seu comportamento, assiduidade e pontualidade, passam a ter muito mais peso na classificação final do período ou do ano, muito mais do que um teste ou outro elemento de avaliação, eles irão, em princípio, atribuir-lhes também muito maior importância e, portanto, adequar-se ao novo sistema. Não será a eliminação dos testes regulares que fará a turma descambar.
Em conclusão, julgo que esta ideia, a de eliminar os testes como elemento regulares de avaliação, colocando antes a tónica, principalmente, no trabalho em aula ou em trabalhos de projeto, complementando, eventualmente, por um exame no final de ano, poderia libertar alunos e professores de muita ansiedade e angústia, abrindo tempo a outras atividades e opções curriculares que fizessem da escola um lugar de aprendizagem efetiva – intelectual, técnica, emocional, estética, ética –, com paz e serenidade, cultivando a Esperança todos os dias.
Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Essência da Vida, Enigma – Noemas em torno do Mistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.
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