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Aldeias em mudança, revolução silenciosa

| 05/03/2023

Aldeias de Xisto na Lousã, Portugal. Foto © Ricardo Perna

Aldeias de Xisto na Lousã, Portugal, um património esquecido pelo governo português e recuperado muitas vezes por estrangeiros. Foto © Ricardo Perna

 

Há cerca de um mês, esteve reunido em Castelo Branco o primeiro-ministro António Costa com os ministros do seu Governo e deputados socialistas. Uma iniciativa que quis apresentar “um Governo mais próximo”, numa tentativa de conhecer melhor este distrito, através de visitas à maioria dos seus concelhos.

Deste modo, o Governo, por algumas horas, quis deixar o Terreiro do Paço e rumar até à Beira-Baixa, bem no interior esquecido do país, desde há muitos anos dependente do poder central da capital. De qualquer modo, tratou-se de um gesto significativo e louvável, para se tomar o pulso ao país real. Espera-se que esta iniciativa possa vir a dar alguns frutos no futuro, se forem cumpridas algumas promessas deixadas no final desta jornada.

Com um ano de mandato do Partido Socialista, com maioria absoluta, recheado de “casos e casinhos”, com entrada e saída de ministros e secretários de estado, foi-se criando uma imagem de instabilidade tal que já se reflecte nas últimas sondagens, com a direita a crescer. O Governo, com este gesto de descentralização, tentou fugir ao ambiente pesado de Lisboa e aspirar o ar gélido e puro da Beira-Baixa que tempera e acicata os espíritos.

Deste modo, o primeiro-ministro pretendeu virar a página das polémicas e arrancar com novas iniciativas políticas, capazes de acalmar um pouco a oposição que tem estado em ebulição e aguerrida, suscitando constantemente muitos temas polémicos.

Agora, António Costa respondeu com a sua agenda política, trabalhando os temas da visita a Castelo Branco: o cadastro florestal, as portagens, a política agrícola, a habitação e a valorização do interior.

Temos pena que nem uma só palavra se tenha ouvido sobre a revitalização das nossas aldeias pobres e desertas ou em vias de encerrar a sua secular vida, por falta de moradores.

A não ser a contínua vinda de estrangeiros para as nossas aldeias, quais novos povoadores, temporários ou mais persistentes, em inícios ou finais de vida, geralmente possuidores de uma boa cultura e cheios de ambição para dar vida às nossas aldeias, o interior já quase tinham fechado as suas portas. Na nossa região, como se verifica desde há décadas, já existem muitos estrangeiros instalados que vão dando alguma vida às pequenas aldeias: israelitas judeus, holandeses, polacos, franceses e ingleses têm vindo a adquirir muitas das habitações desocupadas e vastas propriedades rurais, resgatando muitas das complicadas situações familiares, após o falecimento dos seus parentes. Muitos dos antigos habitantes das nossas aldeias, devido à emigração, nunca mais pensam em vir a viver para o interior, uma vez que já têm habitações adquiridas nas grandes cidades ou no estrangeiro. Deste modo, está a decorrer uma revolução silenciosa a qual, nos tempos mais próximos, não sabemos onde irá terminar.

É esta nova realidade que não vimos ser tratada devidamente, nesta descida do Governo ao interior do interior do país. Saberão os nossos governantes lidar com esta profunda mudança em que estamos envolvidos, com as nossas aldeias a mudar de mãos todos dias sem que nada se planeie para o futuro?

Esta revolução silenciosa é tão lenta e escondida que não é notada pela maioria dos nossos gestores públicos que não têm dado a devida importância a este fenómeno migratório.

Neste momento, falta a coragem política e técnica para se criarem novas centralidades rurais que poderão, em rede, criar serviços, promover o acesso à educação, fazer promoção turística, bem como processos participados de desenvolvimento de comunidades.

Como sabemos, mais de 75% do nosso território tem densidade populacional abaixo da média nacional e já há municípios (correspondentes a 13% do território nacional) com menos de 10 habitantes por km2.

Com a falta de planeamento atempado, vamos pagar caro o deslizar desta situação. Como nos adverte Pedro Pedrosa, mestre em ordenamento do território: “Temos de olhar com seriedade para os desafios que um novo modelo de território rural apresenta, convocando os diversos sectores da sociedade e da administração pública a dar o seu contributo.”

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

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