
“É precisamente em Lourdes, no famoso santuário mariano em França, que a vida e mentalidade de Carrel começam a mudar, ao ter alegadamente presenciado um fenómeno inexplicável do ponto de vista da ciência convencional.” Foto: Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, França. © Elise Harris/CNA
Alexis Carrel (1873-1944) foi um médico fisiologista francês, cientista consagrado, prémio nobel em 1912 pelos seus trabalhos sobre a estrutura dos vasos sanguíneos e a transplantação de órgãos.
Na sua juventude, influenciado pelas teses dos positivistas Taine, Berthelot e Renan, abraça o materialismo mecanicista sem pestanejar: “Nenhuma certeza é válida fora dos factos científicos comprovados”[1], terá afirmado. Perdeu a fé, não obstante sentisse, intimamente, um protesto contra a aridez a que se condenara ao negar a transcendência, segundo escreveu no seu livro A Viagem de Lourdes[2], publicado postumamente.
É precisamente em Lourdes, no famoso santuário mariano em França, que a vida e mentalidade de Carrel começam a mudar, ao ter alegadamente presenciado um fenómeno inexplicável do ponto de vista da ciência convencional. Em 1903, com 30 anos, professor de Anatomia na Faculdade de Lyon, aceita com relutância substituir um colega no acompanhamento de um grupo de doentes ao famoso santuário. Está muito longe de acreditar em milagres, que reputa como falsos ou como meros produtos da sugestão psicológica. Para ele, como para todos os adeptos do cientismo, as leis da natureza são imutáveis, e portanto não podem ser alteradas. No entanto, não deixa de ver nesta viagem uma oportunidade para comprovar in loco as alegações de milagres que, há muito, escritores com a reputação de um Emile Zola apresentam nos seus escritos.
Exteriormente, Carrel manifestava um forte materialismo agnóstico; interiormente não fechara completamente a porta à fé e à transcendência. Mas queria ser confrontado com factos, não meras alegações.
Ainda durante a viagem de comboio, e já em Lourdes, Carrel examina exaustivamente uma jovem agonizante de tuberculose, fazendo registos meticulosos. Se vier a ser confrontado com um “milagre”, quer ter a certeza de que não se enganou no diagnóstico. A dada altura, declara a um seu amigo: “Receio que ela morra em minhas mãos. Se ficasse curada, seria realmente um milagre. Eu acreditaria em tudo e far-me-ia monge.”
Decide observar a jovem enquanto ela é mergulhada nas piscinas curativas, e depois no interior da gruta das alegadas aparições, para onde é transportada de maca e num estado lastimoso. Aí, ele terá murmurado para si mesmo: “Ah! Bem que eu gostaria, como todos esses infelizes, de acreditar que vós sois apenas uma estranha fonte, criada pela nossa imaginação. Ó Virgem Maria, curai esta moça: ela já sofreu muito. Deixai-a viver um pouco, e fazei-me crer.”
Segundo o próprio narra no seu livro já citado, seguiu-se um acontecimento impossível: a jovem, subitamente, mostra sinais de melhoria. O pulso volta ao normal, o rosto ganha cor, a tumefação do ventre diminui. Carrel, como bom cientista, anota a hora: 14h40. Durante o resto da tarde e da noite, ele e dois outros colegas médicos analisam o caso, fazem observações. Parece confirmar-se o diagnóstico impossível e inesperado: a jovem está curada.

O futuro nobel da Medicina e da Fisiologia nunca deixará até ao fim de ser o cientista respeitador do método e da observação escrupulosa dos factos, apesar de, no seu interior, a fé não ter parado de se aprofundar. Terá dito a um ser amigo, Dom Alexis, já no crepúsculo da vida, que desejava que Deus lhe concedesse ainda mais dez anos de trabalho, para que pudesse finalmente estabelecer cientificamente as relações objetivas do espiritual e do material, e a veracidade do Cristianismo.[3]Ao milagre a que terá assistido não se seguiu uma conversão imediata, mas uma grande brecha foi aberta no seu materialismo, que acabará por levá-lo a reconsiderar completamente o papel da fé e da espiritualidade na vida humana.
Denunciará um dia, em O homem, esse desconhecido (1935), o caráter desumano de uma civilização materialista sem referências espirituais. E a sua denúncia é profundamente atual. O homem, na era mecanizada, orientada para o dinheiro e para o gozo, é um infeliz. Ao negar o primado do espírito, a civilização “barbarizou-se”. Só a verdade pode libertar; a verdade sobre o Homem, não sobre o átomo. A velha exortação délfica “Conhece-te a ti mesmo” foi totalmente esquecida. A escola deforma, não educa. A política ignora quaisquer valores espirituais. A sociedade, construída em torno do ideal do conforto e de um padrão de vida sempre crescente baseado em necessidades artificiais, conduz à “proletarização do espírito”, a pior de todas. Ou seja, à miséria moral e espiritual, e ao deteriorar progressivo da saúde mental (muito atual!). Nos EUA, escreve ele, as doenças mentais são mais numerosas que todas as outras doenças reunidas… É interessante ver este diagnóstico feito já em 1935! Hoje, como é patente nos EUA, mas também na Europa, a saúde mental tornou-se um dos principais, para não dizer mesmo o principal problema de saúde pública, acompanhado pelo consumo crescente de drogas sintéticas, álcool, redes sociais, e pelo aumento preocupante das taxas de suicídio, especialmente entre os jovens.
Carrel realça também o esquecimento do esforço que, no campo intelectual como no moral, conduz à “idiotia”, isto é, à incapacidade de distinguir o verdadeiro do falso, o bem do mal. De facto, esta “idiotia” crescente é hoje bem patente, mesmo entre a dita “geração mais preparada de sempre”, tantas vezes incapaz de julgar com justiça e imparcialidade os acontecimentos, de transcender os seus próprios preconceitos, de fazer o crivo entre informação fidegigna e informação falsa, de se demorar na leitura, na reflexão ou na contemplação.
Haverá salvação? Carrel diz que sim, desde que se utilizem as forças do “coração e do sentimento”, i.e., as forças do espírito que as religiões libertam, particularmente o Cristianismo, sem esquecer os poderes da inteligência e da ciência.
Nove anos mais tarde, numa fase mais madura do seu desenvolvimento espiritual, Carrel faz uma apologia da oração e da prece num pequeno livro intitulado precisamente A oração (1944). Já não se coibe de escrever preto no branco que “O homem tem necessidade de Deus, como tem necessidade de água e de oxigénio.” Longe vão os tempos de materialismo e agnosticismo. Defende, além do mais, que a oração tem benefícios físicos, intelectuais e espirituais palpáveis e mesmo mensuráveis: “A influência da prece sobre o espírito e o corpo humano é tão facilmente demonstrável quanto a secreção das glândulas. Seus resultados se medem pelo acréscimo de energia física, de vigor intelectual e de força moral, e pela compreensão mais profunda das realidades fundamentais.” (itálico meu)
Julgo ser importante destacar esta ideia de que a oração expande e aprofunda o discernimento e a consciência das realidades fundamentais. É que, de facto, no que concerne à compreensão das realidades essenciais que respeitam ao sentido da vida humana, à sua liberdade e ao seu destino, a filosofia convencional atribui pouco ou nenhum valor à oração e à meditação como vias de aprofundamento do discernimento intelectual. A importância é toda ela posta na lógica estrita – especialmente na escola chamada “analítica” de matriz anglo-saxónica – e no estudo da linguagem em si mesma. Mas seria importante compreender que somos feitos dessa mesma realidade metafísica profunda que constitui o “estofo do universo”, para usar uma expressão de Teilhard de Chardin, e que portanto a nossa consciência não está longe dela. Se é verdade que não conseguimos superar a cisão sujeito-objeto para compreender o Todo que os engloba — o englobante (Jaspers) –, também não deixa de ser plausível a ideia de que a coisa em si, i.e. a realidade absoluta – Deus –, está também dentro de nós, constituindo a própria essência da nossa interioridade, sendo ela mesma interioridade absoluta ou absoluta subjetividade. Como escreveu Schopenhauer, opondo-se em certo sentido a Kant,
“não somos meramente o sujeito cognoscente, mas pertencemos nós mesmos às coisas que devemos conhecer e somos nós mesmos a coisa em si. Consequentemente, se não podemos penetrar a partir de fora no ser próprio e íntimo das coisas, há uma via a partir de dentro que permanece aberta.”[4]

“Carrel, o cientista metódico e consagrado, reconhecia a importância da busca por uma sabedoria existencial profunda que a ciência, por si mesma, não pode dar, onde uma espiritualidade efetivamente vivida – logo, a oração – tinha um papel central.” Foto: Alexis Carrel. © Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular – Regional São Paulo
Isto não significa, evidentemente, que uma gnose seja possível no sentido de um acesso ilimitado às essências ou arquétipos do mundo inteligível, para falar platonicamente; e muito menos um acesso ilimitado a Deus. Para quem crê no Deus de Abrãao, Isaac e Jacob, o esforço místico ou a prece mais profunda não logram alcançar aquilo que a graça não oferece de livre vontade. O melhor que muitos místicos alcançaram foi, por vezes, um reconhecimento profundo da sua própria ignorância perante o Infinito de Deus, ainda que se tenha tratado de um reconhecimento positivo, i.e. de um conhecimento efetivo, e não de uma mera constatação negativa. Um saber que consiste em saber-se ignorante (docta ignorantia). Vê-se isso bem em Nicolau de Cusa ou em São João da Cruz.
Por outro lado, pelo esforço continuado de oração, contemplação e meditação, alguns terão logrado certas iluminações ou intuições essenciais, pérolas de autêntica e depurada sabedoria acerca da vida humana e do seu sentido, nem sempre facilmente comunicáveis. Simon Weil, ela própria uma filósofa de grande pendor místico, contemporânea, de resto, do próprio Carrel, garantia que o desejo da luz produz a luz, e que, desde que o esforço de atenção seja o adequado, aquele que pede pão não receberá pedras.
Carrel, o cientista metódico e consagrado, reconhecia a importância da busca por uma sabedoria existencial profunda que a ciência, por si mesma, não pode dar, onde uma espiritualidade efetivamente vivida – logo, a oração – tinha um papel central. No Natal de 1939, escreve no seu diário: “Ó meu Deus, quanto lastimo não ter compreendido nada da vida, e ter tentado compreender coisas que é inútil tentar compreender.” E a 16 de dezembro de 1940, lê-se: “Que cegueira, a dos intelectuais! Eu mesmo não tinha compreendido… O imenso erro da civilização atual foi dar primazia ao desenvolvimento intelectual e social… Queremos conhecer o sentido da vida. É impossível conduzir a nossa vida se não soubermos o que ela significa e o que significa a morte.”
Em conclusão, eis como um cientista nobelizado, incansável e rigoroso investigador, se libertou da prisão de um materialismo estrito e foi capaz, a par do seu trabalho científico, de pensar o Homem como ser espiritual com um destino transcendente. Eis como ciência e fé não têm de necessariamente de andar de costas voltadas.
[1] CARREL, Alexis, citado por LELLOTE, F. SJ, Convertidos do séc. XX, Rio de Janeiro: Editora Agir, 1966, p.46. Todas as citações de Carrel, paráfrases e informações sobre o mesmo são retiradas deste mesmo livro.
[2] Acedi à obra, não a partir do original francês, mas da tradução portuguesa Milagres de Lourdes, seguidos de fragmentos de um diário e meditações, trad. de Jorge Madureira, Editora da Educação Nacional. Seria interessante saber, em respeito pela verdade, a razão pela qual esta obra só foi publicada postumamente e se Carrel chegou alguma vez a falar deste milagre que alegadamente presenciou a mais alguém, ou se o deixou escrito em mais alguma obra sua. A obra é escrita quase como um pequeno romance, e Carrel não fala de si na primeira primeira pessoa, mas na terceira e sob o pseudónimo Lerrac (Carrel invertido).
[3] CARREL, Alexis, citado por Dom Alexis in Milagres de Lourdes, seguidos de fragmentos de um diário e meditações, trad. de Jorge Madureira, Editora da Educação Nacional, p.10.
[4] Schopenhauer, citador por SCRUTON, Robert, Breve história da filosofia moderna, Lisboa: Guerra e Paz, p.207.
Ruben Azevedo é professor e autor de vários livros.
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