
“É preciso falar sempre de Paz. É preciso ensinar o mundo a amar a Paz, a construí-la e a defendê-la” (Paulo VI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1968)
Diz a sabedoria popular “Ano Novo, Vida Nova” e o povo lá terá as suas razões coincidentes ou não com as de cada um e de cada uma dos leitores e leitoras do 7MARGENS. A verdade é que chegado o momento dos festejos da passagem de ano lá engolimos as dozes passas para, supersticiosamente, enfatizarmos secretamente os nossos desejos. Dizem ser esta tradição de finais do séc. XIX, tendo tido origem nas Portas do Sol, em Madrid, como contestação a uma taxa que proibia as pessoas de festejarem o final do ano, uma vez que a tradição era festejar a chegada dos Reis Magos. As passas dizem ser imitação dos festejos alemães e franceses que comiam uvas frescas e bebiam champanhe na passagem de ano.
Confesso que chegado o momento fico sempre um pouco perdido: ou porque os desejos são tantos que ficaria empanturrado com tantas passas ou porque de repente me dá uma branca e não me recordo dos meus desejos. Mas, mesmo se de forma atabalhoada, nas dozes passas cabem sempre os que me são mais próximos e queridos. E também um pouco do mundo. No dia seguinte esses desejos desvanecem-se, mesmo se continuam presentes. Uma outra frase também habitual nesta época é entrar no novo ano “com o pé direito”, aquele que dá sorte, já que o outro, tal como a mão, pode ser da “má sorte”, do mafarrico. Entre crenças e superstições são várias as tradições da passagem de ano de acordo com as respetivos usos e cultura (atirar coisas pela janela, bater tachos e panelas, ter dinheiro no bolso, vestir roupa nova e de determinada cor, mergulhar no mar, não comer aves no último dia do ano, pular sete ondas, guardar até ao próximo ano sete grãos de romã, comer um prato de lentilhas no último dia do ano, etc..) cujo simbolismo não deixa de ser importante para as pessoas e para as sociedades, pois é o fechar de um ciclo e o abrir de um outro que se inicia.
Uma dessas tradições, que nos é próxima sem darmos por isso, é a de evitar que as pessoas se zanguem ou que haja qualquer tipo de altercação. Apela à paz, à nossa conversão. Talvez por isso – quem sabe!? – o primeiro dia do ano tenha sido designado pela Igreja Católica o Dia Mundial da Paz. Sendo originalmente proposto pelo Papa Paulo VI, em 1967, celebrou-se pela primeira vez no dia 1 de janeiro de 1968. O Dia Internacional da Paz, instituído pela ONU em 1981 e proclamado na Resolução 55/282 adotada na Assembleia Geral da ONU a 28 de setembro de 2001, celebra-se a 21 de setembro. Aliás, se atentarmos ao que são os desejos das pessoas, os primeiros da lista são, em geral, saúde e paz. A paz é um desejo inerente à condição humana, apesar de tão maltratada.
A verdade é que a mudança de ano é como uma passagem, um desejo de rejuvenescer a alma, um nascer de novo, um desejo de sermos melhores enquanto seres humanos. Um desejo de conversão. Criamos expectativas sobre o cumprimento de promessas secretas tantas vezes incumpridas. E, provavelmente, continuarão a ter a chancela da procrastinação. Apesar de tantas vezes ilusória, sabe-nos bem essa ideia de nos podermos converter ou nascer de novo. Mas não deveria ser esse exercício de conversão uma prática quotidiana? Sendo verdade, não é de desprezar a existência de marcos simbólicos, de referências, que nos “obriguem” a parar e a festejar coletivamente esse novo ciclo, independentemente das crenças ou superstições. Porque os grandes projetos são sempre coletivos.
Talvez valha a pena aqui recordar o que escreveu Paulo VI na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1968:
É preciso falar sempre de Paz. E preciso ensinar o mundo a amar a Paz, a construí-la e a defendê-la e, contra as premissas de guerra que continuamente renascem (emulações nacionalistas, armamentos, provocações revolucionárias, ódio de raças, espírito de vingança; etc.) e contra as insídias dum pacifismo táctico, que narcotiza o adversário que se pretende abater; ou faz gradualmente desaparecer nos espíritos o sentido da justiça, do dever e do sacrifício, é preciso despertar, nos homens do nosso tempo e das gerações vindoiras, o sentido e o amor da Paz, fundada na verdade, na justiça, na liberdade e no amor. (Cfr. João XXIII, Pacem in Terris).
Termino desejando que o Novo Ano nos anuncie a Paz e nunca nos nossos corações esmoreça a esperança de que ela é possível. Para isso é preciso falar de Paz, ensinar o mundo a amar a Paz, construí-la, defendê-la e não permitir que a guerra, a exclusão, a pobreza, a negação de direitos e a injustiça ocupem o espaço e o tempo que não lhes pertencem.
A todos e a todas um ano com muita Saúde e Paz.
José Centeio é editor da opinião no 7Margens e membro do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social); contacto: jose.centeio@gmail.com










