A criação, na voz do autor de música religiosa (3)

António Cartageno: “Eram autênticas pérolas, que nós desenterrámos da memória cansada de muitos idosos”

| 18 Nov 2023

Na última parte da entrevista ao padre e compositor António Cartageno, o protagonista é o canto popular religioso do Baixo-Alentejo, cujo conhecimento e preservação foi ampliado pelo autor da Cantata de Santo Agostinho, em estreita colaboração de décadas com António Mendes Aparício, dedicado estudioso da história da Diocese de Beja e das suas gentes. Nesta última parte da conversa, ganham destaque as periferias a quem foi dada e conservada a voz, com uma fecunda recolha de património musical e literário oral. Também a criação e a fragilidade serão objeto de reflexão, a propósito do trabalho do Coro de Carmo de Beja, feito por um especialista em música sacra que depende de leigos que, na sua maior parte, nunca tiveram oportunidade de estudar música.

A primeira parte da entrevista abordou a formação musical de António Cartageno, assim como o seu processo de trabalho. Na segunda parte, esteve em destaque a sua formação musical na infância, em Lisboa na juventude, e já adulto e padre em Roma.

 

António Cartageno: tudo começou em 1977, quando uma equipa da então RDP foi transmitir a missa em Beja. Foto © Maria do Sameiro Pedro.

António Cartageno: tudo começou em 1977, quando uma equipa da então RDP foi transmitir a missa em Beja. Foto © Maria do Sameiro Pedro.

 

7M – Em que momento é que descobriu canto popular religioso do Baixo-Alentejo e como é que esta descoberta o transformou [ver texto da revista Eborensia (nº 53), publicada pelo Instituto Superior de Teologia de Évora]?
ANTÓNIO CARTAGENO – Tudo começou quando veio aqui à Igreja do Carmo uma equipa da Radiodifusão Portuguesa transmitir a missa em 1977, por aí. Fazia parte desta equipa um senhor chamado Casimiro Rosa, que hoje trabalha na TVI nesta área (acompanha a TVI sempre para as missas transmitidas). E ele disse: “Agora só cá voltamos quando vocês também cantarem alguns cânticos alentejanos religiosos”. A intuição, no fundo, foi dele.

 

7M – Porque, nessa primeira missa, ainda não cantaram…
Não me recordo, talvez houvesse um cântico à Virgem Maria ou assim, que era o que toda a gente sabia. Mas talvez seja possível saber, nós temos as gravações quase todas em cassete. Achámos boa a ideia. Eu próprio conhecia duas ou três coisas que sabia que existiam, mas nunca imaginei que o panorama fosse tão rico. Então, pusemo-nos em campo, eu e o padre Aparício. Aos fins de semana, especialmente aos sábados à tarde, e às vezes logo de manhã, saímos para algumas terras onde provavelmente poderia haver coisas.

E lá fomos nós os dois, no meu velho Fiat 127. Fomos a Baleizão, por exemplo. Temos tudo gravado. Fomos a Serpa. Recordo-me perfeitamente de recolher o Canto ao Menino ali num sapateiro que vivia no Largo de Salvador. Foi ele quem cantou o Canto ao Menino. Recordo-me de termos ido ao Lar de Idosos de Serpa, eu creio que até mais de uma vez, porque ali tínhamos os idosos reunidos, e recolhemos algumas coisas interessantes. Está tudo documentado e escrito [ver livro].

Recordo-me de termos ido a outras zonas do concelho de Serpa, nomeadamente A-do-Pinto e Aldeia Nova de São Bento. Aí foi um lugar muito bom para encontrar material, porque havia um grupo de cantores que sabia algumas coisas: o Canto ao Menino, o canto das Janeiras e o canto dos Reis Magos de Aldeia Nova.

 

7M – Precursores dos agora tão conhecidos Cantadores de Aldeia Nova de São Bento?
Era qualquer coisa que ainda estava vivo na memória, pelo menos daqueles homens. E, eventualmente, isso não tenho a certeza, que se cantaria pelo Natal na igreja, ou pelo menos à volta do madeiro, na noite de Natal. Lembro-me perfeitamente de termos ido a Vila Verde de Ficalho, no mesmo concelho, onde ouvimos também algumas coisas, algumas delas até já ouvidas a outras pessoas que eram do mesmo concelho e havia, digamos, pontos de contacto. Depois, voltámo-nos para o concelho de Mértola: visitámos Vale de Açor, São Miguel do Pinheiro, Monte dos Penedos, Monte do Roncão, Santana de Cambas, Corte Sines, etc..

Fui conhecer pequenas aldeias, a que chamam montes, de que nunca tinha ouvido falar. E algumas coisas interessantes apareceram porque, se não houvesse cânticos tradicionais religiosos, havia pelo menos coisas bonitas do romanceiro, que também recolhemos. Depois fomos para o concelho da Vidigueira, nomeadamente Pedrogão do Alentejo e Selmes. Havia uma senhora já idosa que, estimulada pela filha, conseguia lembrar-se de várias coisas, e eles próprios, depois a família, colaboraram muito bem. Mais tarde, fomos a Peroguarda, no concelho de Ferreira do Alentejo, naturalmente.

 

7M – Por esse tempo já conhecia o trabalho de Michel Giacometti?
Ah, sim, claro.

 

7M – E do Padre Marvão também?
Conhecia isso tudo. E sabia que, para além disso que eles recolheram, ainda havia mais coisas. E ficou provado que sim. Fomos, no concelho de Ferreira do Alentejo, a Peroguarda e Alfundão. Todas estas visitas ocorreram entre 1978 e 1982. Porque também não íamos todos os sábados, às vezes ao domingo à tarde. Íamos às vezes uma segunda vez, porque na primeira vez preparávamos o terreno, perguntávamos quem é que saberia cânticos da tradição religiosa, que nos pudesse transmitir. Umas vezes, davam-nos nomes. Outras vezes, a pessoa não estava e voltávamos.

 

Na Igreja do Carmo de Beja, 2021: “As pessoas ficavam contentes e estimuladas por ver que as coisas que elas sabiam também tinham interesse para nós. Foto © Padre José Maria Afonso Coelho.

Na Igreja do Carmo de Beja, 2021: “As pessoas ficavam contentes e estimuladas por ver que as coisas que elas sabiam também tinham interesse para nós. Foto © Padre José Maria Afonso Coelho.

 

7M – Essas peregrinações, digamos assim, essas deambulações já eram uma forma de ir às periferias?
Era, era mesmo [risos]. E as pessoas ficavam contentes e, digamos, estimuladas por ver que as coisas que elas sabiam também tinham interesse para nós. Não eram assim coisinhas perdidas sem valor, não. Eu chego a dizer algures que eram autênticas pérolas que estavam enterradas e que nós desenterrámos da memória cansada de muitos idosos. Também fomos para o lado de Almodôvar. Para lá do concelho de Castro Verde, onde fomos a São Marcos da Ataboeira, fomos a Aracelis, embora não viva lá ninguém. Mas houve um senhor, Manuel Sequeira, que organizou uma sardinhada e, com um grupo de amigos, cantaram lá o Canto ao Deus Menino de São Marcos da Ataboeira, que é bem bonito e diferente dos outros. A filha, professora Margarida Sequeira, que trabalhava na Escola D. Manuel [Beja], também se interessou pelo assunto e ajudou bastante. Portanto, isto é o concelho de Castro Verde. Mas também, do lado de cá, em Entradas, por exemplo, descobrimos algumas coisas interessantes. Nomeadamente, um belo cântico para pedir a chuva, que temos cantado na Igreja do Carmo nos períodos de seca.

 

7M – Temos falado sobretudo a propósito de música erudita. Mas lembra, num dos textos que escreveu, que há também uma relação com a tradição da Igreja que vem pela tradição oral. Refere um documento do II Concílio do Vaticano (Sacrosanctum Concilium, n. 118 e n. 119) e um outro sobre a música sacra (Musicam Sacram, n. 11), que falam desta valorização.
Sim, é verdade. Eu citei esses documentos para dizer que a Igreja inclui no seu tesouro da música sacra também o canto popular religioso. E não é só no Alentejo que existe; também o temos noutras partes do país, porventura menos, mas existe. E existe noutras zonas do mundo, pois em toda a parte a religiosidade popular produz muita coisa interessante. E aí o Concílio pôs isso por escrito, no documento sobre a Sagrada Liturgia, no qual é considerada como música sacra o canto gregoriano, a polifonia clássica, a música que se vai produzindo mais modernamente e também o canto popular religioso.

 

7M – A cultura local acaba por contaminar aquilo que são dimensões litúrgicas e pastorais…
Sem dúvida. E temos o dever, e foi o que nós fizemos, de recuperar, de voltar a dar valor a coisas que estavam perdidas e abandonadas. E divulgar. Aí é que entrou o Coro do Carmo: gravação e depois divulgação.

 

7M – O Coro do Carmo acaba por ser uma espécie de instância de mediação que ajuda a preservar esta tradição, enquanto procura conhecê-la. E ao divulgá-la, cria público, aumenta o público.
Exato. Há 50 ou 40 anos, neste campo, não havia quase nada no Alentejo. Havia os cânticos Ó Virgem Maria, Nossa Senhora do Carmo (nasceu em Moura, esse cântico). Também lá fomos, a Moura, há pouco não citei. Fomos a Moura e fomos à Amareleja. Mas o que havia da tradição viva local eram estes dois que eu disse. E também a Senhora das Dores, em Pias, nunca deixou de se cantar, porque há lá uma procissão à Senhora das Dores, uns dias antes da Páscoa e faz parte da tradição.

Deixe-me acrescentar, para completar em relação à conversa sobre o Casimiro Rosa: de vez em quando ele telefonava. “Então? Já há uma coisa?” Eu respondia: “Estamos a tratar disso.” E passado uns oito meses, ele já pôde voltar e já pudemos apresentar mais cânticos desses na missa, para divulgar.

 

7M – E ele ainda mais entusiasmado ficou.
É. E depois cada vez que encontrávamos novos cânticos, íamos divulgando nas várias missas transmitidas em direto pela Radiodifusão Portuguesa. E, portanto, esse homem tem muito mérito, neste trabalho que sugeriu. Ele, de alguma maneira, ajudou a dar o pontapé de saída. Não sei, se não fosse isso…

 

Padre Cartageno: “Tínhamos algumas pessoas especialmente "carismáticas" no canto alentejano. Foto © Maria do Sameiro Pedro

Padre Cartageno: “Tínhamos algumas pessoas especialmente “carismáticas” no canto alentejano. Foto © Maria do Sameiro Pedro

 

7M – Pois, estava tão próximo que não havia o distanciamento necessário para dar o devido valor… Além disso, nesta questão da importante função de mediação que tem o Coro do Carmo, parece-me que deve ser particularmente complexo para si lidar com um universo eminentemente popular e, por outro lado, um universo erudito, com um grupo de pessoas em que algumas têm a formação musical e suponho que uma minoria e a maior parte não tem formação musical nenhuma.
É verdade.

 

7M – Como é que isto se consegue?
Com muito trabalho, muitos ensaios. E quando nós começámos – voltamos ao Casimiro Rosa – foi a Radiodifusão Portuguesa que nos gravou, numa tarde dessas vindas a Beja. Eles vinham ao sábado e, ao domingo, transmitiam a missa. Preparavam as coisas. E num desses sábados, gravámos a primeira cassete, com uns doze cânticos. Depois, naturalmente, a produção, a realização e a divulgação foi nossa. Mas o master daquele trabalho foi a Radiodifusão Portuguesa. Os técnicos estiveram um bocado connosco. Começámos ao princípio com determinado cântico, se fosse preciso repetia-se para ficar bem. Fizemos a gravação numa tarde.

 

7M – Isso acabou por ser uma revelação até para os próprios membros do Coro, o ouvirem-se.
Claro que sim. Depois, nessa altura, divulgou-se muito. A divulgação dessas cassetes começou aqui no Alentejo e alastrou-se por todo o país. Era a cassete, ainda não havia CDs nessa altura. Ainda temos alguns exemplares dessas cassetes. Portanto, o Coro do Carmo aí teve o papel, como disse, de mediador, quase de cobaia, para ir testando os cânticos.

 

7M – Sim, de cobaia para si, mas de mediador para quem escutava o coro.
Ah, certo, certo. É verdade. E tínhamos algumas pessoas especialmente “carismáticas” no canto alentejano. Tínhamos uma senhora originária de Vila Nova de São Bento, a dona Teresa Morgado. Tinha uma voz fabulosa. Enchia uma casa, uma igreja com a sua voz alentejana. E essa primeira gravação teve o seu contributo. Assim como foi possível fazer, por exemplo, duetos, ela e uma outra, por exemplo, a Balbina Quirino, que tinha uma boa voz e colaborou muito nisso. O próprio José Quirino também, estava em boa forma e conseguiu ele próprio assegurar alguns solos. Ainda hoje estão aí as gravações, que se podem ouvir.

Portanto, também estas pessoas, com o seu carisma pessoal, um dom que Deus lhes deu, e depois o Coro bem ensaiado, acompanhado a órgão… fizemos esta proposta, que foi uma coisa nova, absolutamente nova. Tão nova que uma vez, nessa altura, o Notícias de Beja publicou um pequeno texto de meia dúzia de linhas, a dizer que tinha sido editada uma cassete com a gravação do trabalho de recolha e recuperação da música tradicional religiosa do Baixo Alentejo. A RTP, na pessoa do jornalista António Luíz Rafael, veio aqui fazer uma reportagem.

Nessa altura, eu vivia no Seminário. Sobre o que tenho relatado, tenho de reforçar que fui quase sempre acompanhado do padre António Aparício, que se interessou também e trabalhou bem, no sentido de, às vezes, retocar alguns textos, melhorá-los, etc.. A RTP veio a Beja e entrevistou-nos para uma reportagem que saiu num Telejornal em agosto de 1979. Depois disso, lembro-me que o padre José Policarpo, futuro patriarca de Lisboa, viu a reportagem e perguntou-me: “Como é que vocês conseguiram pôr uma coisa daquelas na televisão num horário nobre?” Respondi: “Olhe, não sei, não pedi nada, foram eles que escolheram.”

 

7M – É um feito e tanto, sim.
Já que estamos a falar de televisão, depois, a partir de certa altura, começámos a ir com regularidade às missas da RTP. Ainda começámos pelos estúdios no Lumiar, depois fomos lá para a 5 de Outubro, mais tarde para Chelas. Fomos lá cantar bastantes vezes. E em cada missa tínhamos sempre a preocupação de pôr dois ou três cânticos alentejanos, que assim eram divulgados para todo o país.

 

7M – E isso também foi trazendo conhecimento de outras pessoas, e também colaboração com outros coros? Por exemplo, com o Coro da Sé de Lisboa.
Esta colaboração com o Coro da Sé da Lisboa é já num âmbito diferente. Já tem muito pouco a ver com o canto popular religioso de Baixo Alentejo. Tem a ver sobretudo com a música sacra em geral, música da Páscoa, música a Nossa Senhora, que eu escrevi. Eu sou muito amigo do maestro Luís Filipe. Fizemos uma espécie de parceria, temos pelo menos dois CDs, gravados pelos dois coros. Assim, a parceria é metade-metade. Um com a música de Natal, salvo erro, e outro com a música a Nossa Senhora, mas há outras iniciativas conjuntas.

 

António Cartageno: “O canto popular religioso foi uma das grandes bandeiras do Coro do Carmo nos primeiros tempos.” Foto © Maria do Sameiro Pedro

António Cartageno: “O canto popular religioso foi uma das grandes bandeiras do Coro do Carmo nos primeiros tempos.” Foto © Maria do Sameiro Pedro

 

7M – Ainda voltando à questão dos muitos ensaios que o coro tem de fazer: quando conversámos a propósito do seu trabalho de composição, verificámos que envolvia também lidar muito com o texto para o qual criava a música.
É verdade.

 

7M – Estes ensaios, este trabalho oficinal do Coro do Carmo, como é que se faz? O ensaio é uma oportunidade de oração?
O ensaio, ao princípio, é partir pedra. Porque muitas pessoas não sabem a música. Nessa altura não havia gravador sequer, agora pode-se cantar uma voz à parte e depois ali numa sala vão ouvindo e aprendendo a sua voz. Agora, por este meio, é possível ensaiar voz a voz em simultâneo e ganhar tempo. Aqui, a respeito do que está a dizer, é sobre canto alentejano ou em geral?

 

7M – Sim, em geral. Em particular, com referência a ele, quando possível.
O canto alentejano (ou “cante”, como agora dizemos) foi, de facto, a grande bandeira, ou melhor, o canto popular religioso foi uma das grandes bandeiras do Coro do Carmo nos primeiros tempos. Mas depois, naturalmente, o Coro em paralelo foi ensaiando outro tipo de repertório, quer popular, quer clássico, mas a vozes, a polifonia.

De facto, quem está um pouco dentro destas coisas sabe que dá muito trabalho, porque as pessoas não sabem música. Os cânticos alentejanos deram-me muito trabalho a ensaiar, porque não é fácil para quem não está habituado aprender a dar aquelas voltinhas todas (melismas). É certo que tínhamos no Coro três ou quatro pessoas que eram alentejanos castiços, mas também tínhamos gente com outras formações e tínhamos jovens que só a pouco e pouco se foram sensibilizando para o assunto. Esse trabalho foi duro. Para ensaiar um canto ao Menino, por exemplo o Menino de Vila Nova de São Bento, com as suas voltinhas próprias, não é à primeira nem à segunda. E para quem não sabe música, ainda mais. O mesmo se diga do Menino de Serpa, que também tem as suas dificuldades. O canto ao Deus Menino mais fácil, que nos deu menos trabalho para ensaiar, foi o de Pias. Esse é muito fácil, muito simples, mas muito bonito.

 

7M – O tal que diz “Ponde em nós os vossos olhos, misericórdia, amor“. Quando a tradição nos traz um pedido destes, formulado com estas tão poucas palavras, quem é que fala? Quem é que cria isto?
É uma boa pergunta. Quem mo cantou foi um pastor, em Pias. Lembro-me perfeitamente. Alguém mo indicou, já não sei o nome dele. Cantou só o refrão e uma quadra. E a partir daí o texto foi acrescentado, no mesmo tom, no mesmo espírito transmitido pela primeira quadra. Portanto, das quadras que lá vêm – e isso vem lá a bem da verdade, da autenticidade daquilo que fizemos –, só a primeira quadra e o refrão são os ouvidos a esse senhor. As restantes foram acrescentadas e estão muito bem feitas. O padre Aparício criou-as muito bem. E eu às vezes também ajudava. Às vezes andávamos os dois à procura da melhor forma.

Mas já agora que me fala desse canto ao Menino, lembro que o refrão do Menino de São Matias ainda é mais curto que o de Pias, porque nem sequer tem o verbo. Só isto assim: “Vossos olhos de misericórdia, amor.” O canto ao Menino de São Matias não vem no livro. Eu é que, mais tarde, resolvi pôr aqui [mostra folha colada no interior do livro, com letra e partitura musical]: “Vossos olhos de misericórdia e amor”. Este nem sequer ter verbo.

 

Mote de poema de Santa Teresa de Ávila

Mote de poema de Santa Teresa de Ávila

 

7M – Sim, é muito interessante ver como, pela tradição, por vezes se chega a formulações que não são nada óbvias nem nada simples. Estou a pensar, por exemplo, naquele verso também da tradição oral que está reproduzido num poema da Santa Teresa de Ávila e noutro de São João da Cruz, o “Morro porque não morro“. Chegar a esta formulação tão despojada, com o que está subjacente a este desejo…
É forte isso. O desejo de ver Deus face a face. Eu tenho um texto sobre isto. No último Natal, na Agência Ecclesia, pediram-me para escrever qualquer coisa sobre o Natal alentejano e eu falei destes dois cantos ao Menino, o de Pias e o de São Matias, e comparei àquilo a que Santo Agostinho chama o jubilus. O que é o jubilus? É aquela fase, digamos, da nossa oração e do nosso canto, em que quase já não são precisas palavras. Como o Aleluia. Um Aleluia tem um grande jubilus. Pode haver Aleluias em que o jubilus se desenvolve por mais de 30 notas [canta], em que a pessoa até se esquece do que está a balbuciar diante de Deus. E este cântico faz lembrar um bocadinho isso, alguém que, perante a contemplação do mistério, quase não tem palavras. As palavras aqui já são mínimas.

 

7M – E é muito curioso como tudo isto se desenvolve a par de um longo período de vida da Igreja, em que o comum dos fiéis não tinha acesso nem à própria Bíblia. E o conhecimento de Deus permitia-lhe alcançar estas pérolas na formulação.
Exatamente. Mas o povo conhecia estas coisas. Sabia-as de cor. Este Menino de São Matias é completamente diferente do de Pias ao princípio, tanto na música como na letra. Completamente. E depois, no refrão, os textos são muito parecidos. Haverá pontos de contacto? Não sei explicar. Talvez explique um bocadinho a ideia do jubilus, que foi o que me ocorreu. O jubilus é praticamente um canto sem palavras, um balbuciar uma vogal. Santo Agostinho tem um texto muito bonito sobre isso, onde diz nomeadamente “O «júbilo» é aquela melodia que traduz a incapacidade de exprimir por palavras o que sente o coração.”

 

7M – Portanto, para si, as circunstâncias da vida que o trouxeram para o Baixo Alentejo acabaram por, neste domínio, ser uma fonte de felicidade.

Ah, claro. Se eu ficasse lá por cima [Alijó, de onde é natural], isto tudo me passava ao lado. Eu vim para o Alentejo, interessei-me pelo canto alentejano. Ainda aqui no Seminário, comprei o Cancioneiro Alentejano do Padre Marvão. No Seminário dos Olivais, às vezes, como éramos lá um grupinho de alunos da Diocese de Beja, cantávamos uma ou duas canções alentejanas, que eram algo diferente do que os outros cantavam. Fui-me interessando a pouco e pouco. Mas, foi verdadeiramente a partir do repto de Casimiro Rosa, quando ele disse “quando tiverem mais cânticos alentejanos, eu venho cá transmitir isso”.

 

7M – Portanto, quando chegou a Roma, já levava tudo isto na sua bagagem.
Já. Eu fui para a Roma em setembro de 1987 e o grande período das recolhas foi de 1978 a 82. Nunca parou, porque às vezes há sempre alguma coisa que se vai acrescentando, até através de pessoas amigas que também se interessavam pelo assunto. Cheguei a levar para Roma algumas destas cassetes de canto religioso alentejano para os meus colegas e professores conhecerem. Eu tive uma cadeira de Musicologia e, naturalmente, tudo isto veio ao de cima.

 

7M – Então, e neste caminhar todo, o que é ser agora, desde dezembro, “capelão de Sua Santidade, o Papa Francisco?
A vida continua igual, igualzinha. É habituar-me. Às vezes chamam-me monsenhor. O que é que eu hei de dizer? É continuar a minha vida como era. É apenas um título honorífico.

 

7M – Mas está satisfeito com este reconhecimento?

Sim, certamente. Eu tenho de respeitar, se o Papa me deu este título. Aceito, mas não faço disso qualquer bandeira de importância, longe de mim. Com toda a sinceridade digo: passava muito bem sem este título.

 

7M – Há meses festejámos os seus 50 anos de sacerdócio. O que é que o fez deixar São Mamede de Ribatua e querer entrar num seminário para ser padre?
Bem, essas opções não se tomam assim. Quem me propôs vir para o seminário, foi o professor da escola primária. Melhor dizendo, propôs aos meus pais. Perguntaram se eu gostaria e respondi “está bem, pode ser, vamos experimentar.” Mas ainda não havia uma ideia definida, não. Sinceramente, não havia. Quer dizer, é uma coisa que se vai amadurecendo. Tenho ouvido dizer às vezes que há daquelas vocações que as pessoas vêm ali logo pequeninos e tal. Não foi bem o meu caso.

Enfim, para quem tem fé, sabe que é verdade. A oração tem poder. A minha avó paterna, chamada Albertina – segundo me foi testemunhado pelo pároco de São Mamede que me batizou e mais tarde encontrei aqui no Alentejo –, rezava sempre para que Deus lhe concedesse a graça de um neto sacerdote. E acredito que a oração da minha avó foi ouvida, porque estou aqui e sou padre. Ele disse-me que a avó rezava todos os dias para que Deus lhe concedesse ter um padre na família.

 

Em São Mamede de Ribatua, com os pais. Foto do arquivo de António Cartageno.

Em São Mamede de Ribatua, com os pais. Foto do arquivo de António Cartageno.

 

7M – Mas foi uma grande aventura, um menino vir de São Mamede de Ribatua para Beja…
Foi, foi, foi uma grande aventura, ainda por cima muito longe, nove meses fora da família, primeiro ano, enfim… Depois a pouco e pouco fui-me esclarecendo e fui-me interrogando e foi uma opção tomada numa idade até um bocadinho mais madura, já no Seminário dos Olivais [em Lisboa]. Estava com boa intenção, mas sempre pensando “se for da vontade de Deus e se eu for capaz…” E enfim, no Seminário dos Olivais tive muitas dúvidas, mas o Senhor ajudou-me a superar isso, também com a ajuda das pessoas, do diretor espiritual. E aqui estou. Mas não foi uma decisão de pequenino, não. No meu caso, não foi. Foi uma decisão já adulta.

 

7M – Sim, quase que é muito natural, quase que até desejável a existência dessas dúvidas, dessas situações de crise.
É muito difícil – era difícil nessa altura e é difícil hoje – um jovem ter todos os caminhos abertos, e alguns muito apetecíveis e muito sedutores, e escolher ser padre. Mas o Senhor deu-me força e cá estou.

 

7M – Cinquenta anos depois de ordenado, que planos para o futuro?
Planos? Continuar a servir a Igreja como for melhor. Por enquanto, estou aqui servindo a Igreja na paróquia de São João Batista, em Beja, com o padre José Maria e com o padre Novaes. Fazemos parte da equipa da Unidade Pastoral de Beja. Está aqui também o padre Aparício connosco ainda, como antigo pároco. O futuro a Deus pertence: o que hei de dizer? Vou fazendo aquilo que é possível fazer e continuo a colaborar com o Secretariado Nacional de Liturgia. Não já nas funções de presidente do Serviço Nacional de Música Sacra, que, entretanto, foi renovado: passou para outra pessoa [Emanuel Pacheco, da diocese de Beja] e muito bem. E eu também vou fazendo outras coisas e colaboro de outra forma. Vou a Fátima com regularidade ajudar nos trabalhos que se vão fazendo. Porque o Secretariado de Liturgia é muito ativo e há sempre trabalho. Sempre. Livros a fazer ou outros a rever. E, quando se esgota uma edição, entretanto já saíram cânticos novos e então já é preciso refazer e melhorar tudo isso…

 

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