Em 2012, a Câmara de Palmela atribuiu a António Correia, que nasceu em 8 de Março de 1938, a medalha de mérito, aproveitando o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações. Foi padre e professor em Palmela. Seguiu sempre as suas convicções, aproximou-se das pessoas, tem feito da vida um olhar sobre o outro.
António Correia morreu no sábado, 12 de Setembro, com 88 anos. O 7MARGENS publica a seguir, por amável cedência do autor, um texto que o professor e investigador João Reis Ribeiro, publicou há cinco anos no jornal O Setubalense, com o qual colabora. Nele, Reis Ribeiro evoca o percurso do amigo e conta como o então padre deu dormida a Zeca Afonso, que fugia da PIDE, e acabou a guardar uma mala que pensava que tinha armas. A seguir, publicamos também um vídeo com uma entrevista do próprio António Correia, bem como um testemunho dos filhos e um texto que o próprio escreveu na Páscoa para o seu lugar de despedida.
A nota biográfica é curta: “O António Correia é um rapaz – os velhotes dizem sempre ‘um rapaz do meu tempo’, mesmo que tenham 83 anos ou mais – que nasceu numa aldeia do concelho de Torres Novas chamada Valhelhas em 1938”.
Mas as memórias são muitas, logo desde a infância, decorrida entre Valhelhas e Árgea: “Nos invernos, a atravessar ribeiros, com o vento a espatifar o guarda-chuva e a ter de sair da estrada, que era só lama, e chegar à escola como um farrapo encharcado. Vivi assim, mas sem grandes lamentações.”
E também dos bolos que a mãe fazia, numa história de partilha: “A minha avó materna morava numa aldeia pequenina do concelho de Torres Novas, Santiago… A minha mãe, num Dia de Todos os Santos, foi para a casa da minha avó, que tinha um forno de cozer pão, fazer esses bolinhos. Entre a minha aldeia e a aldeia da minha avó, havia um monte onde tinha sido montada uma bataria, uns canhões, por causa dos medos de Portugal poder ser invadido pelas tropas alemãs. A minha mãe levou a carrocita, puxada pelo cavalo, com muitos bolinhos… Ao passar no monte, fez sinal aos soldados, chamou-os e deu-lhes uma quantidade grande desses bolinhos… Nunca mais me esqueceu isso…”
Alicerces da vida

António Correia em foto de família, à esquerda, seguido do pai Luís, da mãe Celeste, do irmão João Francisco ao colo, e da irmã Lucília. Foto: Direitos reservados
Viveu com os pais e com os dois irmãos até aos 11 anos, idade de ingresso no Seminário da Consolata, em Fátima.
“Hoje, vêm-me à ideia descrições como a da Manhã Submersa [de Vergílio Ferreira] e digo ‘eu não passei por isto’… felizmente. E lembro-me de professores bons e gente a quem não tenho de apontar o dedo ou culpar e a quem devo muito…”.
Três anos depois, foi a vez do Seminário de Almada, “um deslumbramento”, a que seguiram seis anos no Seminário dos Olivais, até ser ordenado padre em 1961, ano de convulsões: na Igreja, por causa do Concílio Vaticano II; na política, devido ao início da Guerra Colonial.
Ambos os temas ecoaram em António Correia, crítico desde sempre. “Lembro-me de, quando estava em Fátima, a minha mãe ter ido lá uma vez para me dar um grandessíssimo raspanete porque eu tinha a mania de criticar… eu criticava tudo… Estive mesmo para ser expulso por causa de criticar…”
Reconhece que esse pendor de compromisso o acompanhou sempre e foi incentivado por vários professores e alunos dos seminários que frequentou, reincidentes na abertura ao mundo.
Pensar foi também motivo para amizades inesquecíveis: “A crítica tem-me sempre acompanhado na vida… Onde fui sempre mais crítico foi dentro da Igreja e também na política, muito por influência de um amigo e companheiro meu, como professor no seminário de Almada, o António Jorge Martins.”
Amizades e compromissos
João Alves, que viria a estar na origem da diocese de Setúbal e a ser bispo de Coimbra, desafiou António Correia para ser professor no Seminário de Almada, logo após a ordenação, função que aceitou.
“Nunca me considerei inteligente para isso, eu era um aluno médio… Como sabia pouco, dava aulas de tudo – música, fundamentalmente canto gregoriano, solfejo, de História (fui substituir o João Bénard da Costa, que tinha ido para lá como leigo), de Geografia, de Introdução ao Grego… Quem não sabe nada ensina tudo!”
António Jorge Martins, padre que, pela intervenção social, foi afastado para o estrangeiro, levou António Correia para o meio dos chamados “católicos progressistas”, onde pontificava Nuno Teotónio Pereira.
Nesse grupo, participou no Direito à Informação, boletim que divulgava notícias sobre os acontecimentos no Ultramar que de outra forma não passariam e levava a PIDE a “marinhar pelas paredes para saber quem o fazia”.
Fez-se também associado da Pragma, cooperativa fundada no primeiro aniversário da encíclica Pacem in Terris, [do Papa João XXIII,] que não durou muito, pois a PIDE prendeu a direcção, acto que originou uma carta dirigida ao patriarca de Lisboa, que António Correia subscreveu.
Se António Jorge Martins teve de abandonar o país, António Correia teve de deixar o seminário, sendo remetido para Palmela, onde chegou em 1967. A distância entre a capital e a vila era muito mais do que geográfica.
“Uma vez fui a Lisboa para tratar do problema de uma criança que tinha necessidade de ser observada. Eu era padre, fui lá, e a pessoa que estava na recepção, depois de me identificar, perguntou-me de onde era e disse que era de Palmela. ‘Onde é que isso fica?’, perguntou…”
Proximidade com as pessoas

António Correia (o segundo à direita, sentado), com colegas padres no Seminário de Almada. Da esquerda para a direita: João Alves (futuro bispo de Coimbra), Pedro (reitor do Seminário), (um não identificado, de óculos), Vicente, Joaquim da Conceição Duarte, Albino Cleto (futuro bispo de Coimbra), Carlos Pessoa Pais (futuro pároco de S. João de Deus, em Lisboa), Jorge Martins, Adriano, António Correia, e Domingos. Foto: Direitos reservados
Chega a Palmela em 1 de Outubro de 1967, decidido.
“A casa do padre não devia ser a casa onde morava a família do padre, mas um espaço da paróquia onde as pessoas entrassem e tivessem aquele espaço como seu… Eu vinha muito marcado por essa perspectiva de ser padre ligado às pessoas. Isso foi fácil cá em Palmela, apesar de não conhecer aqui ninguém. Provavelmente por estar aberto às pessoas… A primeira coisa que eu tinha de fazer era mudar a minha linguagem…”
Paroquiou em Palmela até 1 de Janeiro de 1975, conservando muitas memórias desse tempo.
“Numa primeira reunião que tive com o pessoal da Quinta do Anjo, que eu sabia ser uma comunidade muito marcada pela Acção Católica Rural, falámos sobre a paróquia e alguém me perguntou: ‘olhe lá e das contas da paróquia, como é que é?’ Eu disse: ‘olhe, eu sou um rapaz novo, não tenho experiência nenhuma em lidar com dinheiro, vocês são pessoas crescidas, cristãos responsáveis que têm experiência em lidar com dinheiros por causa dos vossos negócios e acho que vocês podem continuar a lidar com as contas da paróquia’. Um levanta-se e diz: ‘Você disse aí uma coisa muito certa. Nós somos maiores, somos cristãos responsáveis e podemos continuar a lidar com as contas da paróquia’”.
Outra história: “O presidente da Câmara João Ataz pediu-me se eu autorizava que se cortasse um pouco do adro da igreja, sendo preciso deitar uma palmeira abaixo, porque a passagem à vinda da rua Luís de Camões era estrangulada e, apesar dos poucos carros que havia, de vez em quando batiam. Como eu não era o dono da igreja, na missa de domingo, contei o pedido e perguntei se podíamos autorizar a obra, quem estava de acordo e quem não estava… Penso que esta atitude foi muito importante na maneira de as pessoas reagirem.”
O Zeca e a prisão

Monumento a José Afonso, em Grândola. Foto © Wikimedia Commons
Em Palmela, um dos amigos novos foi José Afonso, que conheceu em 1969, quando o cantor andava em acção eleitoral.
Passaram a encontrar-se várias vezes. “Um dia apareceu-me a correr, dizendo que andava com medo de que a PIDE o fosse buscar a casa de noite. Eu disse ‘ó Zeca, tens a chave da minha casa, vens, sobes e ficas.’ E assim foi. Veio dormir várias vezes a minha casa.”
A polícia política apareceu na casa paroquial de Palmela, passados anos, não para levar José Afonso, mas para prender António Correia. Contudo, a prisão efectuar-se-ia no Entroncamento.
Em 15 de Dezembro de 1973, ia casar o irmão que estava em França; no dia 11, António Correia partia para o Entroncamento, onde viviam os pais e de onde tomaria o comboio para Paris no dia 13, viagem impossível, pois a PIDE apareceu no Entroncamento no dia 12.
“Na madrugada de 11 para 12, vieram à minha casa, a Palmela, perguntar por mim, que era para ir dar os sacramentos à sogra de um deles, que estava a morrer e queria o padre e mais não sei quê… Depois, foram-me buscar a casa dos meus pais, ao Entroncamento, logo de manhã… Estive preso de 12 de Dezembro até ao dia 28 de Fevereiro”.
O motivo? Ligado aos católicos progressistas, António Correia aceitou o pedido de Conceição Moita para guardar uma mala onde estariam papéis, supostamente documentos recolhidos no estrangeiro sobre o que se passava na Guerra Colonial, mala que não deveria ser aberta nem revelada.
No entanto, por linhas várias, a polícia, julgando estar na pista de armas, chegou lá. António Correia soube na cadeia qual o conteúdo da mala: uns milhares de contos que tinham sido roubados no assalto a banco em Alhos Vedros, perpetrado por organização extremista.
A prisão do pároco mexeu com a população palmelense. “Os paroquianos de Palmela começaram por fazer um abaixo-assinado com o Álvaro Cardoso à frente, a mulher, o Isidoro Fortuna, o António Fortuna… Assinaram 800 pessoas e ninguém podia assinar por ninguém… Houve uma série de pessoas que passaram três dias a aprender a escrever o nome… para poderem assinar.”
A comoção toma conta de António Correia: “Chorei e choro ainda… Quando me disseram isto, eu chorei. Ainda hoje me pergunto o que é que eu fiz por esta gente…”
O desencanto com a Igreja

Cardeal Ribeiro com o Papa João Paulo II: o patriarca aceitou que António Correia continuasse a viver em Palmela, contrariando as regras. Foto: Direitos reservados
“Eu entusiasmei-me muito com o Concílio, como outros colegas meus se entusiasmaram. E começámos a ver a Igreja a andar para trás, logo com o Paulo VI… Acabou com uma coisa que nos entusiasmou muito… O Paulo VI pôs um ponto final no movimento dos padres operários.”
Todos os padres que criavam focos de esperança nas paróquias eram afastados e substituídos por outros que apagavam esses focos. “Pensei: amanhã vão-me fazer o mesmo. Não tenho resistência psíquica para fazer aquilo em que não acredito, que é o que querem que eu faça. De maneira que saio.”
Quando foi falar com o cardeal António Ribeiro para comunicar a decisão, ouviu-o dizer que fazia muita falta à Igreja em Palmela. “Disse-lhe: ‘Só agora é que me está a dizer? Já decidi e vou sair…’”
“Mas tem de sair de Palmela…”, [respondeu o patriarca]. Confrontado com a ordem para sair da vila, António Correia responde: “Olhe, fui para Palmela, as pessoas aceitaram-me, não fiz mal a ninguém nem ninguém me fez mal a mim, vou continuar a morar em Palmela…”
E o cardeal acabou por aceitar que António Correia continuasse a viver em Palmela, o que contrariava o estabelecido. A vida, passou a ganhá-la a pintar portas e janelas, assim colaborando com um construtor.
Ainda em 1975, concorreu para o ensino, sendo colocado na Escola Secundária de Palmela, no período em que andava a ser construída, tendo sido nomeado presidente da equipa directiva.
Entretanto, frequentou a Faculdade de Letras para ter equivalências, lecionou na Escola Preparatória de Bocage e estagiou na agora Escola Secundária Sebastião da Gama, para, no final do estágio, regressar à Secundária de Palmela, onde fez a sua carreira e se aposentou.
Olha para a juventude como sempre o fez: “Os alunos que traziam problemas eram sobretudo problemas dos pais, fossem pais licenciados ou socialmente muito degradados… A juventude continua a ser uma esperança. A gente nova é muito interessante. Para fazer pão, é o fermentozinho pequenino… Não pretendo que toda a massa seja igual ao fermento. O fermento é um concentrado e há muita gente nova que é capaz de fazer coisas… tão gira nas perspectivas que tem, com dificuldades muito maiores do que as que a gente tinha…”
A família e a Natureza

Casamento de António Correia com Elisa, em 12 outubro de 1974, na Igreja de São Pedro de Palmela, celebrado pelo padre Manuel Franco, pároco de Azeitão. Foto: Direitos reservados
Em 12 de Outubro de 1975, casou com Elisa, união de que nasceram três filhos. Hoje, já têm seis netos. O casamento foi muito participado pelos palmelenses e houve festa grande, com as pessoas a levarem os seus petiscos e a conviverem.
Para trás, ficava um percurso intenso. Com custos. “A coisa que mais me custou foi: qual vai ser o futuro da casa paroquial? Porque a casa paroquial tinha uma história… era uma casa onde o pensamento era livre… Foi muito lindo, a casa teve uma vida muito curiosa, muita gente se refez ali das suas doenças, dos seus impasses, das suas coisas… criaram-se amizades muito lindas…”.
Não era capaz de viver na cidade. Gosta de viver onde se sente bem, com as pessoas com quem se sente bem, de preferência no campo.
“Essa ideia do campo ficou muito enraizada em mim, a Natureza ficou sempre como um ponto de referência do viver e da maneira de estar na vida, desde o trabalho no campo em si, desde a importância da poda para as árvores e para a nossa educação – vamos lá cortar aquilo que não presta… olhar muito a Natureza e gostar muito da Natureza…”.
Do alto dos 83 anos, pensa. “Como é que me meti nestas coisas? Sou um qualquer… Não tenho valor nenhum, mas quando me ponho a recordar das pedras que estão nos meus alicerces, encontro tanta gente, muito curioso…”
Conseguirmos todos ser cada vez mais humanos
Numa entrevista em vídeo para o Museu Municipal de Palmela, António Correia contava, em 2019 histórias do seu percurso biográfico:, começando por ler a carta em que comunica aos amigos a decisão de deixar o ministério de padre:
Um uso aos dias tão inteiro, tão pleno
– testemunho dos filhos
No dia do funeral, Ana, Rita e Miguel Correia leram um testemunho sobre o seu pai, que se reproduz a seguir.
O nosso pai não é só nosso: é comunitário. E é com orgulho e prazer que o partilhamos, desde que temos memória. Foi e é um privilégio imenso termos nascido na casa dele e crescido com ele e com a mãe que escolheu para nós.
Foi um apaixonado pelas pessoas, pelas palavras – pelo Poder da palavra – e viveu de forma plena estes seus 88 anos, regido pelo bem e guiado pela máxima de que “pelo sonho é que vamos”, citando Sebastião da Gama. Foi um homem de compromisso com o humanismo e com a constante procura de fazer do mundo um sítio melhor. Viveu sempre com uma capacidade de deslumbramento fácil, fosse com uma composição musical, uma obra de arquitectura, uma paisagem, um gesto. Teve, até ao fim, sede de saber e de aprender. Como dizia muitas vezes, “sou um homem de dúvidas, não tenho a certeza de nada”. E esse seu questionar constante alimentava a sua fé.
Sentimos que, nem que vivêssemos cinco vezes o tempo que ele viveu, conseguiríamos dar um uso aos dias tão inteiro, tão pleno e aproveitar a vida como ele o fez.
No início deste ano sentiu o pôr-do-sol a aproximar-se, a vela a querer-se apagar. Como sempre, homem de metáforas. Quis deixar tudo arrumado até ao final e escreveu um texto para todos nós hoje, que apresentou à família no domingo de Páscoa. Estes meses pelo meio, em que ainda retomou o fôlego, deixaram-nos assimilar melhor estas palavras e com ele, respirar a imensa paz de espírito que o deixou descansar tão tranquilamente.
Foram estas as suas palavras, para todos nós hoje…
Posso despedir-me?

António Correia. Foto: Direitos reservados
Na Páscoa deste ano, pressentindo o fim, António Correia escreveu um texto que quis deixar para o momento da sua despedida e que foi cedido pela família.
Quando fomos recebidos por alguém que nos acolheu com agrado, ao irmo-nos embora, despedimo-nos com gratidão.
Antoine de Saint- Exupéry, o autor de O Principezinho, deixou-nos esta ideia: “Aquele que partiu não nos deixou sós; ficou-nos um pouco de si, levou um pouco de nós.”
Um livro bom deixa-nos ideias que nos marcam; pessoas boas que passaram pela nossa vida também, e fazem parte dos nossos alicerces muitas lembranças que recordamos com gosto.
É o que se passa comigo. Dei entrada em Palmela no dia 1 de Outubro de 1967. Vim para cá de castigo e fui recebido de braços abertos. Explico:
Eu era padre, professor no seminário de Almada. Em Lisboa envolvi-me com os apelidados católicos progressistas que, pela palavra e atitudes de humanidade, lutavam pela paz, uma vez que o país andava na guerra colonial. O arquiteto Nuno Teotónio Pereira, com outros, no terceiro aniversário da encíclica [Pacem in Terris] do Papa João XXIII, sobre a paz, fundaram em Lisboa uma cooperativa de explicações grátis, para quem quisesse avançar um pouco no seu fraco conhecimento escolar, para poder progredir na profissão. A cooperativa tinha o nome de Pragma. O ambiente na sede não era apoiante da guerra.
A [polícia política do Estado Novo] PIDE soube, foi lá e levou presa a direção. Fez-se um abaixo-assinado dirigido ao Presidente da República e ao cardeal [patriarca Gonçalves] Cerejeira, a protestar contra a prisão de cristãos que tinham tido tal iniciativa. Evidentemente que eu assinei. O patriarca exigiu que eu fosse afastado de Lisboa para exercer longe a minha função de padre. O meu antigo professor, padre João Alves, que teve a iniciativa de eu ser também professor em Almada, lançava nessa altura os alicerces da futura diocese de Setúbal, e conseguiu autorização do patriarca para eu ficar como pároco de Palmela.
Por que demorei tanto com esta história? Porque ela marcou o rumo para uma vida cheia de ideais, de sonhos, de esperança, de procura…
Trazia ideais? Sim. Continuar a lutar pela paz, através da palavra, no que dizia, no que escrevia, no que policopiava (tantos milhares de cópias), na maneira como lidava com toda a gente, como orientava as missas, nomeadamente nos cânticos que fazia para a comunidade… A casa paroquial passou a ser um espaço aberto ao pensamento, de ajuda às pessoas, e de dinamização de iniciativas que ajudassem a fazer um mundo melhor. Isso foi percebido por tanta gente…
As pessoas que marcaram a minha vida não me saem da ideia. Foram as das comunidades na procura da fé cristã, pois o Deus de Jesus estava envolvido nos nossos ideais, ou nós nos d’Ele; os participantes em iniciativas culturais populares, os que ajudaram a fazer o centro social, os e as colegas, funcionários e funcionárias, e alunos da escola secundária; a gente que encontrava e saudava nas ruas, no mercado – em todo o lado; e não posso esquecer o pessoal de medicina, enfermagem e serviços vários dos hospitais da Luz de Lisboa e Setúbal, e do Hospital de São Bernardo, por quem fui tratado com tanta competência e humanidade, para ajudar a vida a viver mais um bocadinho, numa altura em que a saúde começou a precisar de vigilância mais cuidada…
Não me sai da cabeça a maneira como as pessoas encararam a minha prisão, como tantas (1115) arriscaram o seu nome a pedir a minha libertação, e a festa que, sem nada combinado, rebentou do íntimo de tanta gente, quando Álvaro Cardoso e sua esposa chegaram comigo a Palmela, tendo ido buscar-me a Caxias.
Passado tempo tomei a decisão de deixar de ser padre porque, na Igreja, os ideais do Papa João XXIII e do Concílio Vaticano II, começaram a ser intencionalmente esquecidos… Muita coisa iria mudar, o que de facto aconteceu.
Casei, tanta gente me acompanhou e fez festa. Não esqueço. Optei por ficar em Palmela apesar de a Igreja não gostar disso. Mas tinha cá tantos amigos!
Não cito nomes de ninguém, mesmo da família, de tanta gente que me ajudou a ser feliz. A lista seria muito grande. Mas não posso esquecer a minha Elisa… E o quanto dela recebi, e vou recebendo em cada dia… Do pôr do meu sol…
“Parto, mas não vou sozinho; deixo um pouco de mim, levo muito, MUITO de vós”.
OBRIGADO.
António Correia
As palavras que marcaram a minha vida
– o testemunho de António Correia sobre as bem-aventuranças

Vista do Mar da Galileia a partir do Monte das Bem-Aventuranças: este texto do Evangelho era central para António Correia. Foto © Obendorf | Wikimedia Commons
O que segue são palavras que, juntamente com outras de Jesus, marcaram muito o rumo da minha vida. Não foram proferidas em grandes cerimónias de qualquer religião ou de grandes templos, mesmo que de Roma, mas foram ditas na encosta de um monte para uma assembleia que não precisou de vestir roupa de ir à missa, inspiradas por um Deus diferente daquele que anda na boca de toda a gente… Um Deus que não opta por ser juiz, legislador, guerreiro, rei, dono de corte, de palácios, de gente vestida ricamente e com cerimónias rituais constantes, Deus que não gosta de mortes de animais nem do sofrimento de pessoas para o satisfazerem, nem aceita fronteiras entre classes, sexos, ideologias, estratos sociais etc… Deus que, como a eletricidade que está em tudo, mesmo na pilha que anima o coração ou o relógio, e que ninguém vê, assim Ele, sem medida e discreto, “é o que há de mais íntimo no íntimo de nós mesmos”, segundo diz Santo Agostinho. Mas isso, desde que haja lucidez e coragem para travar todo o acesso de mentira, que impede a descida ao íntimo dos nossos alicerces.
É esse Deus discreto, amoroso e silenciosamente inspirador em que creio e que procuro, apesar de ser impossível ir mais longe na ideia que procure ter d’Ele. É d’Ele que aprendo o único dogma que me pode guiar: o que é importante é ajudar o mundo a ser bom e fazer tudo para que as pessoas sejam felizes. E sempre a Paz… Eis o que aprendi ao longo da vida.
O Sermão na Montanha
(Evangelho segundo Mateus, V)
Vendo as multidões, Jesus subiu até à montanha e, sentando-se, vieram ter com ele os seus discípulos. E abrindo a sua boca, ensinou-os, dizendo:
“Bem-aventurados os mendigos pelo espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que estão de luto, porque eles serão reconfortados.
Bem-aventurados os gentis, porque eles herdarão a terra.
Bem-aventurados os esfomeados e os sedentos de justiça, porque eles serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles serão alvo de misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão Deus.
Bem-aventurados os que fazem a paz, porque eles serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados sois vós quando vos insultarem e perseguirem e disserem, mentindo, toda a maldade a vosso respeito por minha causa.
Alegrai-vos e regozijai-vos, porque a vossa recompensa nos céus é grande.
Pois do mesmo modo perseguiram os profetas antes de vós. Vós sois o sal da Terra…”










