Apontamento sobre a necessidade de ver claro

| 18 Out 2023

 

1. Sejamos claros: Cada vida conta. Todas as vidas contam. Não há vidas melhores ou piores. Não as há certas ou erradas. Nada justifica a sua supressão. Seja numa manifestação cruel de desespero e impotência. Seja às mãos de um estado terrorista que, desde há anos, a morte serve e, diligente, a organiza e a propaga.

2. E, no entanto, Brecht:

 do rio que tudo arrasta
 diz-se que é violento.
 mas ninguém chama violentas
às margens que o comprimem.

3. Conheço um quase nada dessa violência omnipresente e compressora que as margens da artificial geografia dos vencedores exercem sobre a Palestina.

Há alguns meses, por poucos dias, um acaso profissional levou-me à Cisjordânia. Estava-se muito longe da tragédia presente, mas percebi bem o pesadelo de quem vive sob agressão, sujeito às mais humilhantes arbitrariedades quotidianas, sem vez nem voz, num território ocupado, murado, onde colonatos do agressor florescem como flores venenosas.

Pessoas de diversas origens, credos, horizontes. Muitos jovens. Imensas crianças. Gente sem oportunidade de pensar um futuro, não apenas ao nível colectivo, como qualquer povo legitimamente espera, mas nem sequer no domínio mais pessoal da quotidiana organização da vida. Dos projectos da família, da educação dos filhos, da compra de uma casa, da sustentabilidade de um negócio, da possibilidade de se deslocar livremente ou de sair do país.

Por poucos dias experimentei o que significa viver sob ocupação.

Dois pequenos exemplos. Numa tarde, o carro em que regressávamos de Nablus é desviado por uma patrulha fortemente armada porque pouco antes um rapaz de 19 anos fora assassinado ali perto por uma vaga suspeita de actividade subversiva. Fora caçado, no bairro onde vivia, por uma milícia do colonato sob protecção militar.

No dia seguinte, em Hebron, do telhado do que resta dos antigos banhos públicos, vi como o mercado milenar de uma das cidades mais antigas da Terra foi retalhado, cercado, esvaziado para que no seu seio se erguesse um novo colonato. Impressionante cilindro de betão para meio milhar de colonos protegidos por dois mil militares.

Caminhei pelos fragmentos das antigas ruas do mercado, sob um tecto de arame farpado. No acesso à mesquita antiga gaiolas de aço com jovens, muito jovens, apontando-nos metralhadoras. Seu rosto inexpressivo e, suspeitei num ou dois casos, um olhar perdido. Mas o que me quiseram mostrar do cimo do telhado não foi esse cenário a que a cidade se habituou como a um pesadelo. Não. Foram os telhados das casas que daí desciam, cada um com o seu reservatório de água, uma espécie de bidão de plástico branco, que se torna necessário substituir regularmente porque, das varandas altas do dito cilindro de betão, são atingidos a tiro para que se perca a água preciosa. Fazem o mesmo aos poucos painéis solares que alguns habitantes montam para contornar o bloqueio energético e os preços absurdos com que têm de comprar electricidade ao ocupante. Desses painéis, nessa tarde, não restava nenhum intacto.

Um rapaz que vendia fruta perto do lugar onde se erguera a sua casa, contou como esta fora expropriada para a construção do colonato. A recusa do pai em assinar a legalização do saque, traduziu-se numa breve detenção de onde, a acreditar na certidão de óbito, um enfarte providencial o retirou.

Testemunhei as estradas segregadas. Vi a humilhação na passagem dos múltiplos checkpoints. Soube das detenções arbitrárias. Dos desaparecimentos. Da inimputabilidade prática dos militares. Vi nos olhos de muitos a incerteza sobre o fim do dia. Ou fim da vida. O medo. O medo. O medo. E a revolta.

Mahmoud Darwish, Journal of an ordinary grief4. A história desta longa catástrofe é conhecida. Ninguém de boa-fé ignora que nunca se tratou de um conflito entre judeus e árabes, mas de um projecto colonial contra uma população residente que, de resto, em 1948, incluía cerca de 6% de judeus, numa vizinhança sem atropelos nem querelas. Conhece-se o êxodo de proporções bíblicas que então ocorreu: a expulsão de 730 mil pessoas para cumprir o velho, falacioso desígnio do sionismo: uma terra sem povo para um povo sem terra.

Os que partiram para nunca mais, deixaram as casas como estavam, as cabras recolhidas, a candeia acesa. Levaram a chave no bolso, voltariam em breve. Mahmoud Darwish, um poeta maior da Palestina, ele próprio, aos 7 anos, expulso com a família da aldeia que habitava, escreveu, num livro extraordinário, a memória da catástrofe. Um pequeno extracto:

– Que fazes tu, meu pai?
– Procuro o meu coração que desapareceu nesta noite.
– Porventura o encontrarás aí?
– Onde mais o posso encontrar? Dobro-me para o chão e vou pegando nele, pedaço a pedaço, como as mulheres colhem azeitonas em Outubro, uma após outra.
– Mas tu apenas recolhes pedras, pai.
– Fazê-lo, sabes, é um bom exercício para a memória e o entendimento. Quem sabe? Talvez estas pedras sejam pequenas petrificações do meu coração. E mesmo que o não sejam, o próprio acto de o procurar prova-me que recuso perder-me na minha própria perda.
– E que mais fazes tu, meu pai?
– Sempre que encontro pedras que se parecem com o meu coração, transformo-as, com os dedos em chama, em palavras que me ligam a uma pátria distante. E assim a língua se muda em carne viva.

(Mahmoud Darwish, Journal of an ordinary grief, 1973.)

Quem candidamente diz não perceber o que se passa, não ousa tomar partido, ou prefere comprazer-se numa comoção qualquer para consolo próprio, poderá talvez ler este livro ou, em todo o caso, estudar um pouco. Não vou cansá-los aqui.

5. Convirá, porém, não nos iludirmos. Não sairemos incólumes. Nem nós nem as democracias de que julgávamos orgulhar-nos. Em França o governo proibiu manifestações pela causa palestiniana. A ministra britânica do Interior, a mesma que queria exportar refugiados à força, como mercadoria perecível, foi ao ponto de propor criminalizar a bandeira da Palestina. Vários responsáveis europeus, que há meses cerravam fileiras pela Ucrânia, alinham a Europa com outra potência de ocupação e veladamente ameaçam o dissenso. Como pano de fundo, a invocação sacrílega do Holocausto, como se alguma vez um crime pudesse justificar um outro.

6. Mas voltemos ao essencial: O que está em curso em Gaza é o massacre da população civil. Uma punição colectiva, anunciada com detalhe e sobranceria por Israel ao arrepio do mais elementar direito internacional. Pior, é o prelúdio de uma chacina anunciada (e, talvez, desejada). Uma limpeza étnica como outras que a história desafortunadamente conheceu.

Quem não percebe o que se passa e não ousa tomar partido, por favor ligue a televisão, leia jornais. Apesar da sistemática obstrução noticiosa e do progresso da desinformação premeditada que acompanhou os primeiros dias da tragédia, os factos, de tão brutais que são, emergem por si mesmos.

Sábado passado, no Porto, numa presença contra o massacre, alguém reproduziu por telemóvel a mensagem de uma pessoa cercada em Gaza, já então incontactável. Terminava assim:

Se não me voltarem a ouvir, quero dizer que não perdoo ninguém que pudesse ter parado este mar de sangue. (…) Não vos perdoo. E espero que os nossos rostos vos assombrem para sempre.

7. Faz parte do folclore da diplomacia norte-americana a expressão “he’s a son of a bitch, but he’s our son of a bitch”, numa referência, cujo contexto exacto desconheço, mas que teria por alvo um qualquer ditador na América Central em meados do século passado. A verdade é que se voltou a ouvir agora, como justificação de café para a hipocrisia à solta. Ao aplicá-la, porém, ao governo terrorista de Israel e aos seus crimes, será melhor deixar cair a adversativa: o assunto clarifica-se e poupam-nos a vergonha.

 

Nota: Título pedido de empréstimo a um texto notável de Mário Dionísio, publicado em Sol Nascente, 26, 1938.

 

Luís Soares Barbosa é professor na Universidade do Minho e autor de Longos Dias Breve o Medo.

 

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