As cartas do bispo António Barroso: rara lucidez, energia do pioneiro (pré-publicação)

| 16 Mai 19

António Barroso, bispo de Meliapor (1897-1899), Índia

 

António Barroso e o Vaticano – Correspondência é o título do livro que, recolhendo mais de 400 documentos guardados no Arquivo do Vaticano e pesquisados durante três anos, dá a conhecer diversas facetas do homem que foi missionário no Congo e bispo de Moçambique, de Meliapor (Índia) e do Porto, tendo assumido também a defesa da liberdade religiosa perante as perseguições da República.

Da autoria de Carlos A. Moreira Azevedo, o livro complementa a biografia de que o bispo e historiador é coautor, com Amadeu Gomes de Araújo, intitulada Réu da República (ed. Alêtheia),

António Barroso (Barcelos, 1854) – Porto, 1918) catalisa em si os debates do seu tempo, seja sobre a presença das missões católicas nas então colónias portuguesas, sobre a relação da Igreja com o Estado, a liberdade religiosa ou a renovação da vida religiosa.

O 7MARGENS publica a seguir alguns excertos da introdução da obra e cinco das cartas reproduzidas no livro. A obra será apresentada no Porto nesta sexta-feira, dia 17 de Maio, por Jorge Teixeira da Cunha, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. A sessão, que contará com a presença do autor e do bispo do Porto, realiza-se a partir das 21h00 no Paço Episcopal do Porto e tem entrada livre.

 

Entrar no ânimo de um bispo santo

(Excertos da Introdução)

Em figuras cristãs de rara lucidez unem-se exemplar determinação e simplicidade evangélica, transparecem unidas a coragem e a fidelidade ao ideal. Não podem, por isso, negligenciar-se esforços para conhecer os detalhes das suas vidas, o itinerário das suas lutas, a clareza do seu pensamento.

Com este livro, não se oferece mais uma biografia do ilustre missionário de Remelhe (Barcelos), mas recolhe-se documentação essencial para entrar no ânimo de um bispo santo[1]. De facto, a correspondência conservada no Arquivo Secreto Vaticano, em grande parte inédita, constituirá fonte primária para analisar posições pastorais, liberdade política e notável discernimento.

Reuni aqui 400 cartas, sendo metade desconhecidas do processo de canonização, âmbito em que foi realizado um primeiro levantamento. (…)

Aqui despontam as marcas de uma personalidade paradigmática: não é apenas o missionário entregue à catequese e às estruturas da missão. António Barroso atende à geografia, à etnografia; desafia o tipo de política ultramarina reinante e conserva um firme amor à Pátria.

Como missionário no Congo, entre 1881 e 1888, espanta-nos a energia do pioneiro. Diante do total desamparo do ambiente, febres, condições inclementes, escassez de alimentos, rasga caminhos a partir de ruínas e escombros: funda um posto meteorológico, promove uma escola agrícola. Descobre rapidamente que o missionário tende a levar «em uma das mãos a cruz e na outra a enxada […] ser padre e ser artista, pai e mestre, doutor e homem da terra»…[2]Observa a realidade desastrosa, mas não tece lamentos, deita antes mãos à obra. Reconhece o trabalho protestante e sente quanto tem de esforçar-se para lhe estar a par. Não embandeira por caminhos fáceis de eficácia aparente. (…)

Os talentos excecionais revelados no Congo, do qual António Barroso manteria gratíssima recordação para sempre, quis o novo ministro da Marinha e do Ultramar, António Enes, escritor e político anticlerical e da Maçonaria, fossem alargados a uma região mais vasta. Barroso foi, então, nomeadoprelado de Moçambique por decreto real de 12 de fevereiro de1891. O núncio comunica, em carta de 16 de fevereiro de 1891 para o secretário de estado do Vaticano, o acordo do governo “pela nomeação do egrégio missionário Barroso”[3]. (…)

O espírito crítico acerca do modo de colonizar e a intenção de avançar no seu projeto ficam evidentes. De facto, o que anuncia vai cumprir: criou paróquias e deu início a várias missões como Maputo, Lhanguene. Muitas vezes teve de escrever ao ministro do Ultramar para exigir meios para as escolas, porque, como declarava António Barroso: a instrução pública não pesava sobre os seus ombros, mas era condição fundamental para uma evangelização séria e eficaz. (…)

Facto, porém, mais relevante são as quatro grandes viagens a que se aventurou. Constituem verdadeira epopeia missionária. Lançou-se a penosos itinerários pastorais para conhecer de perto a realidade indígena e para incentivar, pela experiência de vida, os seus colaboradores para não se pouparem ao desgaste, nem evitarem os contratempos. Assim podia incentivar a mudança e provocar o marasmo colonial. Os processos de uma errada colonização eram claros para D. António Barroso. (…)

O bispo de Meliapor percorreu inteiramente a diocese deliberando atritos, construindo a almejada comunhão, não obstante a dificuldade de locomoção devida aos antigos caminhos. Na Índia, em menos de dois anos, realizou 14 visitas pastorais às igrejas do Maduré, percorreu o vale do Ganges e fez visita às missões de Calentá, expondo-se às neblinas do grande rio e agravando o impaludismo, já crónico, levado de África. Apesar das frequentes febres, percorria, por dois, três ou quatro dias, geralmente em carros de bois, por entre pântanos ou desertos de calor abrasador, o caminho entre as comunidades cristãs. (…)

Uma questão que podemos verificar nesta correspondência consiste na emergência do lento processo da colegialidade dos bispos. (…) o quadro desarticulado entre os bispos era visto assim pelo Vaticano: “ausência absoluta de organização séria e de posição comum; e portanto de concórdia e de coesão”[4]. Perante tal retrato, aconselhava-se o núncio a insistir em conferências anuais. Curioso que o bispo do Porto, em carta a monsenhor Tonti, em 8 de abril de 1907, lamente, que após reunião de janeiro em Lisboa, na qual tinham manifestado desejo de se reunirem de novo para tratar de um catecismo comum, nada recebeu até agora e está dependente de aviso do patriarca[5]. Novamente, em 1915, esperava reunião, mas “parece ficar para as calendas gregas”[6].

 

Cinco cartas

Uma desgraça, sobretudo para os pobres

Cerimónia de despedida de um grupo de missionários, no seminário de Cernache do Bonjardim (1891). António Barroso está na primeira fila, ao centro.

 

As medidas do Governo de Hintze Ribeiro contra a ação das congregações religiosas querem agradar aos republicanos e situam-se dentro do espírito do Caso Calmon. Ao conhecer o Decreto do Governo de 10 de março de 1901, exigindo estatutos às congregações religiosas, o bispo do Porto manifesta a sua preocupação, pois muitas instituições de ensino e de caridade, dedicadas aos mais pobres, não têm estatutos.

– Carta ao núncio Andrea Aiuti. Porto, 12-03-1901.

Ex.moe Rev.moSenhor de toda a minha consideração e amizade

(reservada)

Publicaram os jornais o Decreto de 10 do corrente com respeito a congregações religiosas. Aqui há um grande número de instituições sobretudo de mulheres para o ensino dos pobres e caridade. Algumas destas instituições tem estatutos aprovados, mas na maior parte não existem tais estatutos; deste modo se o Decreto se executar à letra tem de retirar muita gente, o que significa uma desgraça, sobretudo para os pobres. Quais serão as vistas subliminares do Governo? Era um ponto importante a conhecer, mas importa dar força [?] aos católicos. Que será mais conveniente que eles façam neste momento? Eu desejava ouvir a opinião de V. E. R. em confidência sobre este assunto; e muito agradecia se V. E. me quisesse dizer um destes dias.

Aqui na rua há paz, mas os espíritos estão ainda muito exaltados e não é fácil ainda provar até onde poderá isto levar-nos.

Deus Nosso Senhor se compadeça deste pais que tão desorientado está. A mim tudo isto me tem causado profunda amargura. […]

António, bispo do Porto.

 

A orientação política divide os católicos

A incapacidade governativa do final do regime monárquico e a falta de uma resposta dos católicos, demasiado divididos em fações partidárias, faz sofrer o bispo do Porto. Antes desta obra que publico não era conhecida a advertência feita, em mensagem breve, ao cardeal Merry del Val, secretário de estado do Vaticano, a 6 de março de 1910: “uma questão gravíssima divide os ânimos entre os católicos portugueses, isto é a orientação política. Creio ser meu dever levar este facto ao conhecimento da Santa Sé, a fim de que determine o que julgue oportuno para a tranquilidade dos espíritos e para o bem da Igreja”[7].

 

“Saúde e fraternidade” numa carta para Afonso Costa

António Barroso, já bispo do Porto, a chegar a Lisboa, onde foi chamado por Afonso Costa, para interrogatório, em 7 de Março de 1911. Por decreto daquela data, foi destituído, preso e desterrado, só regressando ao Porto em 3-4-1914.

 

Reveladora da responsabilidade pastoral e da audácia apostólica, com pés bem assentes nas dificuldades, mas sem qualquer temor, é a atitude com que Barroso encara a mudança de regime e a perseguição do governo republicano.

Não foi só no auge republicano de 1910 que teve início a luta de António Barroso a favor da liberdade religiosa e que começou a sua firmeza corajosa. Chegaria, contudo, a ocasião para revelar o carácter destemido da sua fé e amor à liberdade da Igreja. O Governo republicano apressou-se a lançar legislação abundante, destinada a erradicar o catolicismo em Portugal. As medidas legais contra a Igreja Católica multiplicam-se na incipiente República. O bispo escreve, em 12 de outubro, a Afonso Costa apelando para o fim da legislação contra a Igreja, uma vez que não está a ser submetida à aprovação da Assembleia Constituinte[8]. Os termos são hábeis e medidos. No entanto, o ministro não atende à carta e as medidas sucedem-se em crescendo.

– Carta ao ministro da Justiça, Porto, 12-10-1910.

Ex.mo Senhor Ministro da Justiça

Permita V. E. que, com vista nos altos interesses morais que me estão confiados, e que tanto importam ao Estado português, eu venha pedir a V. E. que as medidas, que se diz o Governo Provisório da República Portuguesa tenciona tomar, com respeito a assuntos eclesiásticos, não sejam decretadas antes da reunião da Assembleia constituinte, mas sim sejam a ela presentes.

Como cidadão português, ouso esperar que o Governo do meu país, nas medidas que sobre tais assuntos houver de tomar ou propor, se inspirará nos elevados princípios e sentimentos de liberdade, de justiça e de equidade, que podem concorrer para a ordem pública e para a tranquilidade e bem de todos, o que certamente constitui a aspiração do Governo.

Fico fazendo votos para que este pedido, que assim faço, seja benevolamente acolhido, se não por atenção a mim, pela consideração dos vitais interesses, a que respeita e cuja importância não careço expender, porque de sobejo a reconhece o esclarecidíssimo espírito de V. E., que, na actual conjuntura, quererá por certo proceder com aquela cordura e ponderação, que tão bem quadram a um homem de Estado.

Saúde e fraternidade.

Porto e Paço Episcopal 12 de Outubro de 1910.

António, bispo do Porto.

 

Abstenção é uma doce forma de nada se fazer

– Carta a monsenhor Masella. Porto, 06-06-1915

Porto 6-6-915

Ex.moe Rev.moSenhor

(…) Continuo com a opinião de que a abstenção é um erro e uma doce forma de nada se fazer.

Assim vimos sempre contemporizando com monárquicos e com republicanos; uns dizem que estamos enfeudados aos primeiros e os outros que tememos os segundos. Isto assim é talvez cómodo, mas não é digno e quem perde é a Igreja e também a Pátria.

Disponha sempre V. E. R. do que é […]

António, bispo do Porto.

Membros da Juventude Católica do Porto, da varanda do paço, ovacionando D. António Barroso no seu regresso à diocese, em 3 de Abril de 1914.

Monárquicos e republicanos, a distinção necessária

Em 1917, os bispos escrevem uma carta pastoral coletiva e em resposta a recomendações de Masella, referentes à imprensa católica, Barroso escreve: “Sempre me tenho esforçado por manter a necessária distinção e todos os dias verifico que é um erro muito grave imputar à monarquia ou à república, o que por sua natureza deve estar sempre acima do que pertence às disputas e paixões dos homens. Parece-me que a imprensa católica do Porto, que bem reduzida é, se tem mantido quanto possível nesta linha de conduta. O que às vezes lhe causa sacrifícios, pois a corrente mais forte deseja que a religião se ponha ao serviço dos interesses monárquicos[9].

 

Notas

[1]Os escritos oficiais de António Barroso, como missionário em África e Ásia, já mereceram uma publicação de António Brásio – D. António Barroso, missionário, cientista, missiólogo. Lisboa: Centro de estudos históricos ultramarinos, 1961.

[2] BARROSO, A. – O Congo: seu passado, presente e futuro. Lisboa: Imprensa Nacional, 1889, p. 70.

[3] Ver ANL 312, fasc. 2, f. 243. A apresentação do rei data de 14-02-1891. Existe cópia em ASV, Segreteria di Stato1891, rub. 250, f. 139.

[4] ANL 363, fasc. 1, f. 20.

[5] ANL 365, fasc. 3, ff. 21-22.

[6] ANL 397, fasc. 3, ff. 44-45v.

[7] Ver carta de 06-03-1910.

[8] Ver carta de 12-10-1910.

[9] ANL 393, fasc. 2, f. 72 (10-03-1917).

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