Todos os domingos, a bandeira republicana é içada na igreja metodista do Mirante, no Porto. O acto traduz a profunda adesão republicana dos fundadores desta comunidade com 154 anos. Histórias de uma igreja cristã minoritária, onde não falta um apaixonado Luthero…
(Texto publicado no Público, em 1/11/2011; apenas se actualizaram dados pessoais; as declarações e os dados relativos à Igreja Metodista referem-se àquela data.)
Adivinham-se os arrepios de Luthero quando viu a bandeira do deposto regime monárquico na torre da Igreja da Lapa, no Porto. Filho de um militante republicano, não podia permitir tal ultraje, ainda por cima perto de sua casa. Tenta, então, subir à torre para retirar a bandeira. Não consegue. Decide destruí-la a tiro.
Um apaixonado. Em tempos agitados, não se permitia outra atitude que não fosse a paixão intensa. Mesmo nos amores: noivo de Idalina, que acabaria por morrer, talvez na sequência de uma tuberculose, Luthero viu-se desasado. Peregrina diariamente ao cemitério de Agramonte, no Porto, para carpir mágoas. Não sobrevive à perda e acaba ele próprio por morrer cedo, a 28 de Novembro de 1920, poucos dias antes de completar 22 anos. De febre tifóide, dizia a notícia necrológica no Portugal Evangélico, jornal da Igreja Evangélica Metodista Portuguesa (IEMP). Mas à febre não deve ter sido estranho o desgosto.
Luthero da Silva era um dos cinco filhos de Alfredo Henrique da Silva, o primeiro líder português da IEMP. Este foi ordenado pastor a 6 de Novembro de 1898 (há 127 anos) poucos dias antes de Luthero nascer, a 7 de Dezembro. A Igreja assinalou já século e meio desde a sua fundação.
Saído do anglicanismo, o metodismo pretendia ser uma purificação daquela corrente cristã. O inglês Robert Hawkey Moreton foi o grande impulsionador da Igreja Metodista em Portugal. Alfredo da Silva seria o primeiro português a liderar a IEMP, entre 1917 e 1948.

Alfredo da Silva com a noiva, futura mãe de Luthero. Foto: Direitos reservados.
Cláudia Santos Pereira, que integra a Igreja Metodista na comunidade do Mirante (Porto), berço da IEMP, recorda-se das histórias de Luthero da Silva e do seu pai, ouvidas de duas irmãs que conviveram muito de perto com a família. Alfredo Henrique da Silva vivera com a mãe, durante algum tempo, numa casa arrendada aos pais dessas duas solteironas, proprietários de uma padaria na então rua da Rainha (actual rua Antero de Quental), no Porto.
A casa, que já não existe, tinha um quintal pegado com o da casa da família de Cláudia Santos Pereira. “No quintal delas, havia um poço para junto do qual ele ia estudar”, recorda. Seria também junto a esse poço que Cláudia ouviria, mais tarde, as histórias de Luthero e da sua família, pioneira no metodismo português. Depois de Alfredo da Silva ter casado, as duas irmãs passaram a frequentar a casa do pastor. “Mantinham o relacionamento com a família, também através da Igreja”, diz Cláudia Santos Pereira.
Do casamento de Alfredo da Silva, em 1890, com Júlia Amélia Moreira, nasceram cinco filhos: Luís, Alfredo, Adelina e Maria Sophia e Luthero. Cláudia Santos Pereira conheceu Luís e Maria Sophia, já Luthero e as suas paixões tinham morrido há muito. Professora de Matemática e Ciências no 2º ciclo do ensino básico, Cláudia Santos Pereira organizou já uma exposição documental sobre a história da IEMP.
O episódio da bandeira aconteceu tinha Luthero acabado de completar 20 anos, na altura da Monarquia do Norte, a revolta liderada por Paiva Couceiro contra a República, em Janeiro de 1919. Cláudia Santos Pereira baseia-se no agradecimento da família no Portugal Evangélico [jornal da IEMP], após a morte do Luthero em Novembro de 1920, de febre tifóide, para retirar algumas conclusões: “Ele terá feito parte do Batalhão de Voluntários do Norte, que combateram a insurreição monárquica no Porto”, diz.
Alfredo da Silva, evangélico dinâmico

Alfredo da Silva (à direita) no dia da sua ordenação como pastor, 6 de Novembro de 1898. Foto: Direitos reservados.
Para lá de fazer parte da mesma igreja, a história pessoal de Cláudia Santos Pereira, professora e cristã metodista, cruza-se também com a da família de Alfredo da Silva: quando o líder metodista morreu, as suas filhas arrendaram a casa aos padrinhos de Cláudia, que acabaria por ali nascer.
Os apaixonados acessos republicanos tinha-os Luthero herdado do seu pai. Alfredo Henrique da Silva, nascido em 1872, tinha sido baptizado como católico e frequentara uma escola de jesuítas, até aos nove anos, quando deixou a escola e foi trabalhar como caixeiro e, depois, como tipógrafo.
Em 1884, converte-se ao protestantismo, aderindo à Igreja Metodista. Logo depois do casamento, começa a dar aulas nas escolas primárias metodistas do Mirante e de Massarelos. Ao mesmo tempo, diz a historiadora Rita Mendonça Leite, começou a estruturar uma carreira académica como professor de inglês, director do Instituto Comercial do Porto, docente de História Económica e director do Instituto Industrial e Comercial do Porto.
Rita Leite, que estudou a vida de Alfredo da Silva, assinala que a sua carreira evangélica foi igualmente dinâmica: pregador leigo em 1893, foi autorizado a dirigir o culto em várias igrejas metodistas. Dois anos depois, era ministro à prova, etapa exigida pela Wesleyan Missionary Society antes de, em 1898, o consagrar como ministro da IEMP.
A acção de Alfredo da Silva iria notabilizar-se sobretudo na área da educação. Este foi um dos campos em que se centraram algumas das maiores lutas do protestantismo português, diz a historiadora, que integra o Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR), da Universidade Católica. “Desde logo, porque a centralidade da leitura da Bíblia no culto protestante promovia a alfabetização.” Mas, ao mesmo tempo, porque as igrejas protestantes procuravam “retirar à Igreja Católica a hegemonia sobre a cultura letrada e sobre a formação da mundividência do povo português”.
Neste último aspecto, nota Rita Mendonça Leite, autora de Representações do Protestantismo na Sociedade Portuguesa Contemporânea (edição Universidade Católica), virão a coincidir republicanos e protestantes. Por isso se entende a adesão de vários líderes do cristianismo reformado ao republicanismo. A tal ponto que, por exemplo, desde muito cedo, na Igreja do Mirante, a bandeira da República é hasteada todos os domingos e em dias de festa.
Protestantes afastam-se da República

Alfredo da Silva com um grupo de obreiros (cerca de 1900). Foto: Direitos reservados.
Após a promulgação da Lei de Separação da Igreja do Estado, de 1911, vários líderes protestantes começam no entanto a afastar-se do republicanismo. Eduardo Henriques Moreira (1886-1980), historiador e pastor protestante em Lisboa, membro do Partido Republicano desde 1906 e maçom, criticaria a substituição do catolicismo “por um culto cívico que se limitou a colocar os retratos de republicanos prestigiados no lugar dos registos dos antigos santos populares”, descreve Rita Leite. Por isso, Moreira passaria da censura aos governos republicanos à crítica do próprio regime.
Mesmo se também estava descontente com a evolução, Alfredo da Silva manteve a sua adesão à República. Destacou-se, entre os protestantes que tinham aderido ao republicanismo, “como o que mais investiu e acreditou no projecto” do novo regime, tendo depois “reclamado esse investimento como parte integrante do seu percurso”, diz Rita Mendonça Leite.
Alfredo Henrique da Silva não se ficou pela acção religiosa e política – em cujo âmbito integrou o Partido Republicano, chegando mesmo a fazer parte do executivo municipal do Porto. Esteve também entre os fundadores da futura Associação Cristã da Mocidade e da Sociedade Anti-Esclavagista, foi secretário e presidente da Sociedade Protectora dos Animais e colaborou com o Governo na assistência aos soldados portugueses em França.
Foi também durante a sua liderança que a Igreja Metodista Portuguesa se autonomizou relativamente à igreja-mãe de Inglaterra. Mas, depois do surto de crescimento das primeiras décadas, o final do mandato do primeiro líder português coincidiu com um retraimento da IEMP, a que não foram alheios factores externos.
Ireneu Cunha, que foi superintendente e bispo da Igreja Metodista (1984-2001), aponta algumas causas dessa quebra: a Segunda Guerra Mundial, a diminuição de recursos, os obstáculos da Censura, a redução dos apoios vindos de Inglaterra.
Apesar disso, a IEMP conseguiu ainda pequenos feitos, como a construção de templos em Aveiro e Mourisca do Vouga (Águeda). Mas, em 1948, pressionado pelas circunstâncias, Henrique da Silva deixaria a liderança da Igreja. Viria a morre dois anos depois, a 22 de Novembro de 1950.
Um trajecto atento à vida das pessoas e do país

Alunos das escolas primárias (cerca de 1910). Foto: Direitos reservados.
Nessa mesma década de 50, será de novo um inglês – Albert Aspey – a restaurar a estrutura da IEMP, que será consolidada com a acção de Ireneu Cunha. Depois da posse como superintendente-geral, Ireneu Cunha tentou dar passos para um novo processo de autonomização da IEMP, atingido em 1996 – e que levaria, nesse ano, à sua eleição como bispo, depois de a Igreja escolher essa forma de governo.
Hoje, é o bispo Sifredo Teixeira quem lidera a Igreja Metodista, que reúne cerca de duas mil pessoas, entre membros e outros que aparecem em iniciativas da IEMP. Algumas das intuições do início continuam presentes, em instituições sociais e educativas que a Igreja Metodista dinamiza em zonas como Valdozende (Terras de Bouro), Braga, Aveiro, Moita e Lisboa.
“Alfredo Henrique da Silva deixou um legado não só relacionado com a fé, mas também com o envolvimento nas necessidades do país e na política”, sintetiza o bispo Sifredo Teixeira, 66 anos.
Na capital, é onde se regista actualmente o maior crescimento da Igreja, com um núcleo de mais de uma centena de crentes oriundos de Angola. Entre os dez pastores (incluindo dois aposentados), há também duas pastoras (Eunice Alves e Ana Cristina Aço), que desempenham a sua missão em Braga e Oliveira de Azeméis. A Igreja Metodista foi mesmo a primeira, no universo do protestantismo histórico, a ordenar uma mulher pastora em Portugal – Miriam Lopes.
Há ainda outras duas mulheres com cargo idêntico, embora oriundas da Igreja Presbiteriana, com a qual a IEMP fez um pacto de unidade: as duas comunidades mantêm a sua identidade, mas colaboram institucionalmente em tudo o que for possível. Por isso, actualmente, há um pastor (José Salvador) e duas pastoras (Idalina Sitanela e Eva Michel) da Igreja Presbiteriana a trabalhar com comunidades metodistas, enquanto Miriam Lopes trabalha numa comunidade presbiteriana.
O trabalho que a IEMP desenvolve em instituições sociais e educativas vem na continuidade do trabalho pioneiro das escolas primárias de há 100 anos, promovido por Robert Moreton e desenvolvido por Alfredo Henrique da Silva, diz ainda Sifredo Teixeira. “Somos uma Igreja que não está só para o culto, mas que procura estar atenta à vida das pessoas e do país.”










