Deus chamou Moisés para liderar o povo hebreu no processo de libertação da escravatura no Egipto mas, segundo o texto de Êxodo 3, ele esquivou-se com inúmeras desculpas, tal como nós fazemos tantas vezes quando ficamos perante um novo desafio para o qual nos sentimos incapazes.
Quem sou eu?
A primeira desculpa apresentada foi uma manifestação de falsa modéstia ou então de baixa autoestima. De todo o modo foi um olhar altamente depreciativo que Moisés verbalizou sobre si próprio, tentando assim esquivar-se à responsabilidade da missão que Deus lhe propunha.
“Então Moisés disse a Deus: Quem sou eu, que vá a Faraó e tire do Egipto os filhos de Israel?” (v11). Mas a resposta de Deus foi encorajadora: “eu serei contigo!” (12).
Bem vistas as coisas, de facto o Moisés fugido do Egipto e pastor há quarenta anos no deserto não era ninguém, mas Deus com ele faria a diferença.
Que lhes direi?
A segunda desculpa foi a sua assumida falta de conhecimento de Deus. Os hebreus tinham passado mais de quatro séculos no Egipto, onde não cultuaram ao Deus de Abraão. Todas aquelas gerações perderam o património espiritual e religioso dos antepassados, por isso não sabiam nada sobre Ele e nem sequer conheciam ao certo o seu nome.
“Então disse Moisés a Deus: Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? (13)” Resposta de Deus: “Eu sou o que sou” (14). Moisés não tinha que explicar Deus, apenas que invocar o seu nome. Deus não se explica, vive-se!
Israel não me ouvirá!
A terceira desculpa foi a manifestação da impotência de Moisés face ao gigantesco desafio que tinha pela frente. Dadas as circunstâncias que o tinham levado a fugir da região há quarenta anos, Moisés achava que nem o seu próprio povo lhe haveria de dar ouvidos.
“Então respondeu Moisés, e disse: Mas eis que não me crerão, nem ouvirão a minha voz, porque dirão: O Senhor não te apareceu” (4:1). Deus respondeu a Moisés com manifestações sobrenaturais como a vara transformada em cobra, a mão leprosa, ou a água transformada em sangue (4: 3-9).
Nós não somos Deus, apenas seus servos. Tal como o carteiro, o mensageiro centra-se na entrega da mensagem e não nos seus efeitos.

Rembrandt, Moisés Quebrando as Tábuas da Lei, 1659, Gemäldegalerie der Staatlichen Museen, Berlim (Alemanha).
Não sou bom orador!
A quarta desculpa foi a dificuldade de expressão.
“Então disse Moisés ao Senhor: Ah, meu Senhor! Eu não sou homem eloquente, nem de ontem nem de anteontem, nem ainda desde que tens falado ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua” (10). Porém, Deus continua neste jogo dialéctico: “eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás-de falar” (12).
No reino de Deus as nossas competências pessoais não contam muito, o que conta realmente é o que Deus faz com aquilo que somos…
Senhor, manda outro…
Finalmente, e perante a dificuldade em justificar uma recusa, Moisés arrisca-se mesmo a dizer não. “Ele, porém, disse: Ah, meu Senhor! Envia pela mão daquele a quem tu hás-de enviar” (13). Resposta de Deus: então Deus irou-se e disse-lhe que Arão falaria por ele (14-17): “Então se acendeu a ira do Senhor contra Moisés, e disse: Não é Arão, o levita, teu irmão? Eu sei que ele falará muito bem; e eis que ele também sai ao teu encontro; e, vendo-te, se alegrará em seu coração. E tu lhe falarás, e porás as palavras na sua boca; e eu serei com a tua boca, e com a boca dele, ensinando-vos o que haveis de fazer. E ele falará por ti ao povo; e acontecerá que ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus. Toma, pois, esta vara na tua mão, com que farás os sinais.”
Temos aqui quatro desculpas e uma recusa, mas o Senhor ensina Moisés a compreender que trabalhar na Sua seara implica equipas e não individualismos.
Assim, guardemos alguns princípios fundamentais que decorrem deste episódio: 1) Deus connosco faz a diferença; 2) não temos que explicar Deus, apenas que o invocar; 3) Nós não somos Deus, apenas seus servos; 4) No reino de Deus as nossas competências pessoais não são determinantes, o que conta é o que Deus faz com aquilo que somos; 5) O trabalho de Deus é sempre desenvolvido em equipa.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.










