Ensaio de Christine Schenk (1)

As mulheres no cristianismo primitivo: Autoridade missionária e ação profética das mulheres

| 28 Abr 2024

religiosas fazem mascaras cirurgicas covid-19

Freiras fazem máscaras cirúrgicas em vez de vestes litúrgicas, durante a pandemia em 2020. Foto © Paróquia de Draguignan

A vida religiosa tal como a conhecemos hoje – tanto contemplativa como ativa – evoluiu ao longo de dois mil anos. Neste primeiro de quatro ensaios fala-se, com base na documentação literária, sobre as mulheres no cristianismo primitivo. Um ensaio inédito em quatro partes, publicado em exclusivo pelo 7MARGENS. 

Quando eu era uma jovem religiosa de São José, tinha um grande desejo de compreender quem eram as nossas antepassadas na fé. Embora goste muito dos textos bíblicos, muitas vezes tenho dificuldade de me reconhecer neles, pois os textos do nosso lecionário falam quase sempre dos nossos antepassados homens. As discípulas devotas de Jesus – com exceção de Maria de Nazaré – são praticamente invisíveis. Mais tarde, quando comecei a estudar para um mestrado em teologia no seminário local, devorei toda a informação sobre as mulheres do cristianismo primitivo. Nesta série de quatro ensaios, pretendo identificar as raízes históricas das comunidades religiosas femininas e talvez ajudar os leitores a começar a reconhecer-se na história dos primeiros cristãos.

 

A difusão do cristianismo e a Igreja doméstica

Afresco do século III do chamado cubículo de Velata nas Catacumbas de Priscila. Este retrato sugere que a falecida estava a ser inscrita na ordem das viúvas. Imagem © Cortesia de Rebecca Parrish

Afresco do século III do chamado cubículo de Velata nas Catacumbas de Priscila. Este retrato sugere que a falecida estava a ser inscrita na ordem das viúvas. Imagem © Cortesia de Rebecca Parrish

O “movimento de Jesus” espalhou-se rapidamente por todo o Império romano, em parte graças à iniciativa de viúvas e mulheres na veste de apóstolas, profetizas, evangelistas, missionárias e chefes de igrejas domésticas. O seu crescimento pode também ser atribuído ao apoio financeiro de mulheres empresárias cristãs como Maria de Magdala e Joana1, Lídia2, Febe3, Olímpia, uma diaconisa do século IV, e outras. O Papa Bento XVI reconheceu-o precisamente quando, a 14 de fevereiro de 2007, afirmou que «a história do cristianismo teria tido um desenvolvimento muito diferente se não tivesse havido o contributo generoso de muitas mulheres». «No contexto da Igreja primitiva, a presença das mulheres – observou – não era minimamente secundária».

As primeiras igrejas domésticas foram guiadas por mulheres como Grapte, que no século II dirigia a comunidade de viúvas que cuidavam de órfãos em Roma e Tabita, uma viúva do século I “dedicada a boas ações e obras de caridade”4, que fundou uma comunidade de Igreja doméstica em Jafa. Foi através das igrejas domésticas que os primeiros cristãos tiveram acesso a redes sociais que os colocaram em contacto com pessoas de diferentes classes sociais.

Quando um chefe de família mulher, talvez uma viúva rica como Tabita ou uma mulher libertada da escravatura como Prisca5, se convertia ao cristianismo, os evangelistas cristãos como Júnia6 ou Paulo tinham acesso não só à sua casa, mas também ao grupo de pessoas que elas protegiam e à sua clientela, o que significava que os seus escravos, libertos, crianças, familiares e pessoas que estavam em contacto com estas mulheres por razões profissionais também se convertiam. Foi assim que, quando Paulo converteu Lídia7, teve automaticamente acesso a um vasto leque de relações sociais e, portanto, a um público potencialmente muito vasto. Num ensaio intitulado A Woman’s Place, Carolyn Osiek e Margaret Y. MacDonald mostram como as mulheres cristãs de classes sociais mais baixas conseguiam criar pequenas empresas graças à sua inclusão na rede social cristã e, assim, adquirir uma certa segurança económica. Isto significava, por sua vez, o acesso a uma classe mais elevada e, portanto, uma maior liberdade de movimento, nomeadamente no seio da família alargada da Antiguidade.

 

Mulheres evangelizadoras

“Lojas” em Filipos: é possível que Lídia tenha vendido aqui seus tecidos tingidos de roxo. Foto © Christine Schenk 

“Lojas” em Filipos: é possível que Lídia tenha vendido aqui seus tecidos tingidos de roxo. Foto © Christine Schenk

Celso, famoso crítico da Igreja primitiva, tinha uma opinião escassa sobre a evangelização das mulheres. No entanto, embora sem intenção, forneceu provas independentes da iniciativa das mulheres no cristianismo primitivo, ao afirmar que os cristãos persuadiam as pessoas a «deixarem o pai e os mestres e a seguirem as mulheres e as crianças, companheiros de brincadeira, nas casas de mulheres, nos curtumes ou nas oficinas de carriões»8. A crítica de Celso coincide com as afirmações noutros textos do cristianismo primitivo de que a evangelização era feita de pessoa para pessoa, de casa para casa, por mulheres que iam ter com outras mulheres, crianças, libertos e escravos. A sua crítica diz-nos que as mulheres cristãs (e poucos homens) tomavam iniciativas fora das regras do patriarcado em função da sua fé em Cristo.

Entre os séculos I e IV, ocorrem três inovações significativas na sociedade romana que podem ser atribuídas à evangelização e ao ministério de chefia das mulheres cristãs. A primeira, por volta do século IV, é a liberdade de escolher uma vida celibatária, o que efetivamente derruba um pilar do patriarcado, nomeadamente a obrigação de contrair matrimónio. A segunda é que as viúvas e virgens cristãs salvam, socializam, batizam e educam milhares de órfãos que, de outra forma, morreriam por terem sido abandonados ou seriam destinados à prostituição. A terceira é que as atividades de ligação e de evangelização das mulheres desempenham um papel decisivo na transformação da sociedade romana de uma cultura predominantemente pagã para uma cultura predominantemente cristã.

Podemos reconhecer elementos de vida religiosa não só nas primeiras comunidades de viúvas, como a de Grapte ou a de Tabita, mas também nas mulheres que escolheram a vida celibatária, como as quatro filhas profetisas de Filipe e as comunidades femininas da Ásia Menor, mencionadas nos Atos de Tecla. As mulheres destas comunidades não só salvaram órfãos e viúvas pobres, mas também profetizaram nas primeiras reuniões da Igreja primitiva. O seu exercício contracultural da autoridade no contexto da vida doméstica quotidiana é uma das chaves, muitas vezes não ditas, da rápida difusão do cristianismo. A autoridade missionária e a liderança profética das mulheres na sua vasta rede social mudaram a face do Império romano.

Afresco do século VI de Tecla na sua janela (à esquerda), Paulo (ao centro) e a mãe de Tecla, Teocleia (à direita). Esta imagem retrata a cena do livro dos Atos de Tecla em que Teocleia se queixa de que a filha não faz outra coisa senão sentar-se à janela a ouvir a pregação de Paulo. Foto cedida pela Fundação Éfeso.

Afresco do século VI de Tecla na sua janela (à esquerda), Paulo (ao centro) e a mãe de Tecla, Teocleia (à direita). Esta imagem retrata a cena do livro dos Atos de Tecla em que Teocleia se queixa de que a filha não faz outra coisa senão sentar-se à janela a ouvir a pregação de Paulo. Foto cedida pela Fundação Éfeso.

Christine Schenk é religiosa da Congregação de São José (CSJ) nos Estados Unidos e foi fundadora e directora da FutureChurch, grupo internacional de católicos afiliados a paróquias que se centra na plena participação dos leigos na vida da Igreja. Entre outros livros, é autora de Crispina and Her Sisters: Women and Authority in Early Christianity (Fortress, 2017), que o jesuíta Brian McDermott, na America: The Jesuit Review, descreveu como um amplo material para “transformar radicalmente a nossa compreensão das mulheres cristãs como figuras de autoridade nos primeiros séculos…” Este texto foi publicado inicialmente no Vatican News, e é aqui reproduzido por cedência da autora e daquela publicação. 

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Notas:

1 cf. Lucas 8, 1-3

2 cf. Atos 16, 11-40

3 cf. Carta aos Romanos 16, 1-2

4 cf. Atos 9, 36-43

5 cf. Carta aos Romanos 16, 3-5

6 cf. Carta aos Romanos 16, 7

7 cf. At 16, 11-15

8 Orígenes, Contra Celso.

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