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Bernardo Caal Xol, o professor que gosta das flores da sua terra

| 02/01/2022

Opinião

Bernardo Caal Xol: a defesa do rio e das suas gentes custou-lhe a prisão. Foto © Amnistia Internacional.

 

Bernardo Caal Xol é um professor, líder sindical e defensor dos direitos ambientais e dos direitos dos povos indígenas na Guatemala. A sua missão de vida é capacitar a sua comunidade – a comunidade indígena Maia Q’eqchi – e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para proteger as suas terras e as reservas naturais de pilhagens e perda de biodiversidade.

Nessa missão de vida inclui a sua esposa, os seus filhos, a sua família e alunos. Vive a vida de forma integrada, ligado à terra, à sua terra, às suas gentes e à sua cultura.

O rio Cahabón é um dos maiores na Guatemala e é considerado sagrado para a comunidade de Bernardo. Entende-se bem. A água é quase como que um elemento sagrado, sinal de vida, de prosperidade. Símbolo da mãe. Da Mãe.

Quando uma empresa conseguiu uma licença dada pelo Governo da Guatemala para bloquear o rio e construir duas centrais hidroelétricas, Bernardo e a sua comunidade atuaram em resposta. A construção destas centrais já tinha destruído florestas que pertenciam aos seus territórios e este projeto iria fazer a comunidade perder a água, da qual dependiam para sobreviver. Bernardo exigiu a interrupção das atividades das centrais, alegando que as autoridades falharam em consultar a população de forma adequada – uma obrigação ao abrigo do Direito Internacional e por isso com força de lei.

Devido às suas ações pacíficas para proteger a natureza, foi difamado e injustamente condenado a mais de sete anos de prisão em 2018, mesmo não existindo quaisquer provas contra ele: em boa verdade, não há qualquer crime que ele tenha cometido. Fez o que qualquer um de nós faria pela nossa terra, pela nossa comunidade.

Como se não bastasse, a prisão onde está a cumprir pena fica a nove horas de viagem de distância da sua terra e é este o tempo que a família demora para o ir visitar, mais outro tanto para regressar a casa.

Bernardo Caal Xol adora ler e escrever. Escreve cartas a partir da prisão para expôr a sua história e é apaixonado pela sua profissão de professor. Adora ensinar, dar aulas, sobretudo na sua língua nativa. Mesmo preso, tem ensinado outras pessoas que também se encontram atrás das grades. Gosta também de ver documentários sobre história mundial ou sobre a história de povos indígenas, gosta de jogar futebol e música.

Gosta de comer. Pede sempre que lhe levem comida da sua terra, com plantas e alimentos lá criados. É a forma – diz ele – de manter a sua comunidade, as suas terras e a sua alma dentro dele e a correr-lhe nas veias.

Quando vejo fotografias do Bernardo, vejo-me nele, nessa ânsia de descanso, de natureza, de harmonia.

Não sei se é o amor pelo surf, o amor pela natureza, a idade, o trabalho que lida com situações de constante crise, se é de pensar no mundo que vamos deixar a quem vem a seguir, a natureza cresce muito em mim como refúgio, como arca de tesouro onde está guardado tudo o que vale a pena. Desde criança a crescer numa aldeia, a calcorrear caminhos, a ir buscar água à fonte. Depois nos escuteiros, onde se aprende o respeito, o ver a natureza não como se estivéssemos de fora, mas fazendo parte. A causa de Bernardo é a nossa. E não merece, nem de perto, estar preso por cuidar dos seus, da sua comunidade, da sua terra ao abrigo da lei, tentando impedir que lha roubem e coloquem em causa o futuro.

É a ela que vamos buscar a nossa comida, a matéria-prima para a nossa roupa, móveis, casas, carros, baterias e telemóveis, tudo o que precisamos para viver. Tudo vem da Terra, da natureza. É a nossa casa comum e o Bernardo vive connosco.

É por isso que faço este apelo, depois de termos comemorado, há três semanas, o Dia Internacional dos Direitos Humanos e com a época festiva tão importante que vivemos, em que todos devíamos poder estar na nossa terra, junto dos nossos: participe no projeto da Amnistia Internacional Maratona de Cartas e assine a petição dirigida ao Procurador-geral da Guatemala, que pede que o Bernardo seja libertado e tenha a possibilidade de um julgamento justo.

Uma simples assinatura é um grande primeiro passo para desfazer uma injustiça e devolver esta pessoa à sua família para que ele possa defender o que resta da sua comunidade.

 

(No âmbito desta campanha, o 7MARGENS publicou já um texto sobre a história de Janna Jihad, a jornalista mais jovem da Terra Santa.)

 

Pedro A. Neto é diretor-executivo da Amnistia Internacional Portugal

 

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