Os ataques contra comunidades cristãs na Nigéria tornaram-se “recorrentes, quase diários”, denuncia o bispo Wilfred Chikpa Anagbe, de Makurdi. Em declarações à agência SIR na última semana, no mesmo dia em que mais um violento ataque teve como alvo um seminário no Estado de Edo (centro-sul do país), o religioso diz não ter quaisquer dúvidas: “É uma jihad, uma guerra de limpeza étnica, um genocídio”.
Os ataques, perpetrados na sua maioria por elementos ligados ao grupo terrorista Boko Haram ou por pastores nómadas Fulani, chegam a durar “uma semana inteira”, sem que as populações recebam qualquer ajuda. “O governo nigeriano parece não compreender ou em negação”, lamenta o bispo.
A tragédia é quantificável em números devastadores: “Na minha diocese, entre 2018 e 2025, perdi cerca de 19 paróquias e um convento. Tive que fechar hospitais e clínicas devido à violência dos pastores terroristas Fulani. Eles atacam pessoas, algumas são mortas, outras fogem para campos de deslocados, mas depois nunca mais conseguem regressar às suas terras, às suas fazendas, às suas vidas. É até difícil exercer o meu ministério episcopal, porque as paróquias estão a escvaziar-se e padres e freiras precisam de ser transferidos ou de viver como refugiados com seu povo.”
O objetivo dos agressores é claro, explica Anagbe à agência de notícias da conferência episcopal italiana: “Eles querem islamizar a Nigéria, transformá-la no Estado Islâmico da África Ocidental. Quando atacam uma aldeia, massacram até recém-nascidos. Qual é o crime deles?”. O bispo recorda o horror de Yelwata, onde, entre 13 e 14 de junho deste ano, mais de 200 pessoas foram queimadas vivas em suas casas, “encharcadas com gasolina e incendiadas, queimadas como animais. Isso é genocídio”, insiste.
Também a sua aldeia natal, Aondona, foi atacada recentemente. “É devastador. Vivemos com essa realidade há vinte anos, mas ela se intensificou nos últimos dez. Naquele dia, eles chegaram às 18h e mataram mais de vinte pessoas. Tive que fechar a clínica e a escola secundária da minha aldeia. O pároco e cinco freiras fugiram para o mato, escondendo-se até as 2h da manhã. Graças a Deus, nenhuma delas ficou ferida, mas é um sofrimento indescritível.”
Mesmo assim, a Igreja continua ao lado do povo, garante: “Fazemos tudo o que podemos para cuidar das necessidades espirituais e materiais do nosso povo. A primeira coisa que eles buscam é Deus. A presença dos padres dá-lhes um pouco de esperança. Celebramos missas nos campos, oferecemos confissões, aconselhamento e apoio psicológico para prevenir traumas irreparáveis”.
“É hora de o mundo se levantar”

Anagbe repudia as teorias que atribuem este tipo de violência a conflitos climáticos ou disputas entre agricultores e pastores. Foto © ACN Portugal
O mais recente ataque foi dado a conhecer esta segunda-feira, 14 de julho, pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). Tratou-se de um ataque ao Seminário Menor da Imaculada Conceição, na ciocese de Auchi, que ocorreu por volta das 21 horas de quinta-feira, dia 10, quando vários homens armados invadiram as instalações aos tiros.
De acordo com um comunicado emitido pela diocese, e enviado para a Fundação AIS Internacional, o elemento oficial de segurança, que estava no local, Christopher Aweneghieme, foi morto pelos atacantes, enquanto três seminaristas foram raptados “e levados para as matas” situadas na região. Os restantes estudantes foram temporariamente realojados num local seguro, enquanto as autoridades reforçaram as medidas de segurança na zona onde se situa o seminário.
Até ao momento, “infelizmente”, sublinha o padre Peter Eigelewa, diretor de comunicação da diocese de Auchi, não foi possível estabelecer qualquer comunicação com os sequestradores.
Este não foi o primeiro incidente do género a ocorrer naquele seminário. Em 27 de outubro do ano passado, o reitor, o padre Thomas Oyode, foi sequestrado tendo permanecido em cativeiro ao longo de 11 dias. O presbítero terá suplicado para ser levado em vez de dois estudantes que estavam já a ser conduzidos para fora das instalações do seminário pelos homens armados que entraram no edifício aos tiros. O reitor “saiu do pátio e, quando se viu perante os bandidos com os dois estudantes como reféns, suplicou aos criminosos que os libertassem, oferecendo-se em seu lugar”, relata a AIS, citando o Vatican News. O pedido do reitor foi atendido “e ele foi trocado pelos dois estudantes, sendo depois arrastado pelos bandidos para o mato”.
Anagbe repudia firmemente as teorias que atribuem este tipo de violência a conflitos climáticos ou disputas entre agricultores e pastores. “Não é o clima. Não é um conflito de interesses. É um ataque direto a cidadãos inocentes. Eles querem submergir o Alcorão no oceano e transformar a Nigéria num Estado islâmico”.
O bispo nigeriano apela, por isso, à Igreja italiana e à Europa: “Permaneçam firmes connosco em oração, confiando que Deus ouvirá o nosso clamor. Mas isso não basta: sejam nossos defensores, denunciem esse mal”. Caso contrário, alerta, poderemos estar perante “outro Ruanda”, quando em 1994 o mundo permaneceu em silêncio e 800.000 pessoas foram mortas.
E conclui manifestando gratidão ao Papa pelo facto de este ter condenado publicamente o massacre de junho. “Agradeço ao Papa Leão XIV que, em 15 de junho, chamou as coisas pelo seu nome. As suas palavras consolaram-me. Sei que não estamos sozinhos. Mas se a Nigéria cair na anarquia, ela desintegrar-se-á. É hora de o mundo se levantar”.










