
O documento apela “a todos aqueles que têm o poder de parar a violência e a barbárie a ouvir em sua consciência a voz de Deus. Foto © Boonsom.
A Igreja Ortodoxa Russa (IOR) apareceu esta quarta-feira, 6, a dar sinais de vida na Península Ibérica, através de uma tomada de posição conjunta com a Conferência Episcopal (Católica) de Espanha (CEE), na qual se faz um apelo à paz…e ao Presidente Putin. Na declaração conjunta da IOR em Espanha e Portugal e da CEE, refere-se que as respetivas igrejas “se unem perante a dor e o sofrimento provocado a tantos irmãos nossos, ortodoxos, católicos e pessoas de todas as crenças, devido à invasão da Ucrânia pela Rússia”.
“Desde a Segunda Guerra Mundial que a Europa não afrontou uma guerra de tal magnitude, como esta guerra repugnante [ênfase no texto original], que agrava a já difícil crise provocada pela pandemia de covid-19”, diz o comunicado das duas entidades.
Depois de apelar à oração pela paz na Ucrânia e de agradecer a partilha e solidariedade que se têm registado, o documento apela “a todos aqueles que têm o poder de parar a violência e a barbárie a ouvir em sua consciência a voz de Deus, que rejeita o mal e a guerra, e chama para reconstruir a fraternidade universal”.
Assinam esta posição o arcebispo de Madrid e de Lisboa, ligado ao Patriarcado de Moscovo, e o arcebispo de Granada, que é também presidente da Subcomissão Episcopal para as Relações Interconfessionais e Diálogo Inter-religioso, dos bispos católicos.
Responsável anglicano impiedoso com Patriarcado de Moscovo

“Convém a Putin ter uma instituição eclesiástica complacente, e, inversamente, a instituição eclesiástica dá-se muito bem com o regime de Putin”, afirma o ex-arcebispo de Cantuária, Rowan Williams. Foto © Ivars Kupcis/WCC-CMI.
“Quando uma Igreja está a apoiar ativamente uma guerra de agressão, evitando condenar violações óbvias de qualquer tipo de conduta ética em tempo de guerra, então outras Igrejas têm o direito de levantar a questão.”
Quem afirmou isto foi o ex-arcebispo de Cantuária e ex-responsável máximo da Igreja Anglicana Rowan Williams no programa Sunday (Domingo) da BBC (Radio 4), no qual defendeu que “existe aqui um forte argumento para expulsar a Igreja Ortodoxa Russa do Conselho Mundial de Igrejas”, ao estar a apoiar a invasão de um país e não fazer uma clara condenação das matanças de civis.
O ex-arcebispo falava também enquanto autor de diversos livros e autoridade reconhecida no cristianismo ortodoxo, tendo aprendido russo para estudar as obras de Dostoiévski. Publicou em 2021 Looking East in Winter: Contemporary Thought and the Eastern Christian Tradition (Bloomberg Continuum), para referir o seu mais recente estudo. No programa radiofónico, Williams discutia, de resto, a relação entre a Igreja e o Estado russo, fazendo comparações de natureza histórica com igrejas na África do Sul do apartheid e da Alemanha nazi.
Na conversa com o condutor do programa Sunday, o arcebispo observou que “ainda está à espera” de que alguma figura sénior da hierarquia ortodoxa [russa] diga que a matança de inocentes é inequivocamente condenada por todas as formas de cristianismo”. Entre a hierarquia não se registou sequer um pedido de cessar-fogo. “É o mínimo que espero ver”, acrescentou Williams.
“Convém a Putin ter uma instituição eclesiástica complacente, e, inversamente, a instituição eclesiástica dá-se muito bem com o regime de Putin: muitas igrejas caras construídas, muitos privilégios para a hierarquia que ainda está, de certa forma, a recuperar de todas aquelas décadas de perseguição feroz sob o regime comunista”, acentuou Rowan Williams.
Mundo ortodoxo em “convulsão”
Prosseguem, entretanto, as demarcações e críticas de igrejas ortodoxas, somando-se a muitas outras, em países ocidentais e orientais.
“Algumas igrejas estão tão zangadas com Cirilo por causa de sua posição sobre a guerra que estamos a enfrentar uma convulsão na ortodoxia mundial”, disse Tamara Grdzelidze, professora de Estudos Religiosos da Ilia State University, na Geórgia, e ex-embaixadora da Geórgia no Vaticano, em declarações à Reuters, citadas pelo site Ekathimerini.
O metropolita de Calcedónia, Emanuel, considerou, em entrevista a uma televisão grega, “ultrajante o silêncio do Patriarca Cirilo, de Moscovo. “Acredito que ele veja a realidade, mas pode não ser livre para falar e dizer o que pensa e sobre o qual qualquer pessoa razoável poderia opinar”.
Bem mais contundente para com o patriarca de Moscovo foi o arcebispo ortodoxo de Helsínquia, na vizinha Finlândia, quando com veemência, apelou: “Pelo amor de Deus, acorde e condene este mal”. “Lembre-se das promessas que fez diante de Deus, como bispo e patriarca. Elas serão tidas em conta perante o Todo-Poderoso”, avisou. E ainda: “Chegou a hora de a Igreja na Rússia perceber que se extraviou.”










