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Surpresa após polémica sobre Papa Wojtyla

Bispos polacos decidem criar comissão independente para investigar abusos

| 15/03/2023

“Os bispos, que, até hoje, apenas em algumas dioceses fizeram levantamentos de situação quanto a abusos, dizem à comissão que deve ‘mostrar o conteúdo [dos arquivos] na sua totalidade, levando em consideração a lei e o estado de conhecimento, bem como o contexto sociocultural’.” Foto © Konferencji Episkopatu Polski (Conferência Episcopal Polaca)

Os bispos polacos vão criar uma comissão independente de especialistas para estudar os abusos de crianças na Igreja ao longo das últimas décadas, o que representa uma inversão total da posição até aqui mantida pelo episcopado daquele país.

A medida, adotada por unanimidade, foi anunciada esta terça-feira, 14 de março, pelo arcebispo primaz Wojciech Polak, no final de uma sessão plenária da Conferência Episcopal, em Varsóvia, e segue-se ao grande clamor oficial e na opinião pública gerado pelas notícias de que, enquanto arcebispo de Cracóvia, o cardeal Karol Wojtyla e futuro Papa João Paulo II teria encoberto alguns casos de padres abusadores.

O arcebispo primaz disse que a comissão independente incluirá historiadores, advogados e psicólogos, abarcará todas as dioceses e as ordens religiosas e trabalhará sobre os arquivos da Igreja Católica e os do Estado polaco, não tendo sido esclarecido se, a exemplo de Portugal e de outros países, aceitará escutar depoimentos e denúncias dos afetados.

Manifestou, entretanto, a vontade de que o resultado possa ser “de grande ajuda para as vítimas”, uma vez que estas “precisam da verdade”.

A tarefa da comissão, acrescentou Polak, será “examinar diligentemente os documentos, relativos à resolução de casos de crimes sexuais de alguns clérigos contra menores (…) a fim de mostrar o conteúdo na sua totalidade, levando em consideração a lei e o estado de conhecimento, bem como o contexto sociocultural”, segundo citação do site Notes from Poland.

A Comissão e a tarefa de que será incumbida constituem talvez a resposta mais consistente dada pelos bispos ao impacto suscitado por um livro recentemente publicado sobre o caso da Arquidiocese de Cracóvia, o qual deu origem a um documentário que foi exibido recentemente num canal televisivo privado, na Polónia, desencadeando um coro de protestos, tanto da Igreja como do Estado, como o 7MARGENS noticiou.

Por isso, na declaração final de sua plenária desta semana, os bispos voltaram a falar de tentativas “sem precedentes” de “desacreditar a pessoa e a obra de São João Paulo II”, apelando “a todos a que respeitem a memória de um dos nossos mais importantes compatriotas” e agradecendo aos que defenderam o “bom nome” do Papa Wojtyla.

Também o Papa Francisco, numa das entrevistas (a La Nación) que deu a propósito dos dez anos de pontificado, defendeu aquele seu predecessor, entretanto canonizado, considerando que os atos deveriam ser julgados “de acordo com os padrões da época”. E, “naquela época, tudo era encoberto”, observou.

Os bispos, que, até hoje, apenas em algumas dioceses fizeram levantamentos de situação quanto a abusos, dizem à comissão que deve “mostrar o conteúdo [dos arquivos] na sua totalidade, levando em consideração a lei e o estado de conhecimento, bem como o contexto sociocultural”.

É de admitir que haja bastante matéria para investigar. Em 2020, o Vaticano sancionou o cardeal Henryk Gulbinowicz, ex-arcebispo de Wroclaw (Breslávia) e, em 2021, na sequência de investigações iniciadas no ano anterior, puniu dois bispos daquele país por não terem assumido com diligência os seus deveres relativamente a vários casos de abusos.

 

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