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Christoph Brech, Capela do Rato, Arte, Fotografia

Experiência inédita nas homilias

Capela do Rato ensaia “partilha pública da Palavra” por leigos na eucaristia

| 25/10/2024

Christoph Brech, Capela do Rato, Arte, Fotografia

Christoph Brech, Finestra (janela), fotografia na Capela do Rato pertencente à série Musei Vaticani, exposta na mostra Lo splendore della verità. La bellezza della carità, realizada em 2011 no Vaticano para homenagear o Papa Bento XVI no 60º aniversário da sua ordenação presbiteral, que congregou muitos artistas contemporâneos. Foto: Direitos reservados.

A Capela do Rato, em Lisboa, vai inaugurar no próximo domingo, 27 de Outubro, uma experiência de “partilha pública da Palavra por leigos nas celebrações da eucaristia”. No momento da homilia, além do presbítero que preside à celebração, o comentário aos textos bíblicos será feito também por uma segunda pessoa, neste caso uma religiosa. A experiência, praticamente inédita neste momento na Igreja Católica em Portugal, é do conhecimento do Patriarcado e vai avançar, mesmo se o capelão admite que há pessoas que ameaçaram deixar de ir à Capela quando isso acontecesse.

Foi na sequência de uma proposta surgida na segunda fase do processo sinodal que a decisão foi tomada, diz o capelão do Rato, padre António Martins. De acordo com o documento de síntese da reflexão da comunidade, sentia-se a “necessidade de que a voz dos leigos, homens e mulheres, esteja presente nos comentários aos textos sagrados, nomeadamente [através d]a possibilidade de partilha pública da Palavra nas celebrações”.

Assim, ao longo do presente ano litúrgico, a Capela do Rato vai ensaiar este passo de alguns leigos e leigas poderem comentar a Palavra de Deus nas celebrações da eucaristia, acrescenta o responsável ao 7MARGENS. A primeira será já no próximo domingo, com a irmã Julieta Dias, que ainda há um ano publicou uma edição revista do livro Maria Madalena, a Apóstola dos Apóstolos, que escreveu em co-autoria com Paulo Mendes Pinto. No dia 24 de Novembro, será a vez do teólogo leigo Juan Ambrosio, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (FT/UCP). A teóloga espanhola Cristina Inogés Sanz, colaboradora regular do 7MARGENS, e José Eduardo Borges de Pinho, professor emérito da FT, também já aceitaram.

Não há, por enquanto, um ritmo obrigatório, diz o capelão. “A ideia é apresentar quatro ou cinco momentos ao longo do ano, não necessariamente a um ritmo mensal, mas mais tendo em conta os tempos fortes litúrgicos”.

A sugestão foi recorrente, ao longo dos dois anos de debates na capela a propósito do processo sinodal, refere ainda o padre António Martins. Na formulação final evitou-se referir “expressamente o termo homilia”, que se reserva teologicamente para a “dimensão profética do anúncio da Palavra própria do ministro ordenando que preside à eucaristia”. Mas “sem alienar esta dimensão, que foi e é uma novidade da reforma litúrgica” do II Concílio do Vaticano, “não de deve excluir a possibilidade de leigos e religiosas partilharem também publicamente a Palavra em contexto de celebrações comunitárias”, acrescenta António Martins.

O responsável da Capela do Rato diz que este comentário “não tem de ser necessariamente” feito na celebração da eucaristia. “Pode haver outros contextos” em que ele aconteça, como celebrações da Palavra (liturgias sem comunhão) ou celebrações penitenciais do sacramento da reconciliação ou confissão. “Há uma variedade de caminhos que se podem explorar”, resume.

 

Ambiguidades e dificuldades

Julieta Dias

A irmã Julieta Dias, numa conferência na semana passada na Universidade Católica, em Lisboa: na Capela do Rato, irá meditar sobre os textos bíblicos. Foto: Direitos reservados

António Martins, ele próprio professor na Faculdade de Teologia da UCP e autor de um pequeno estudo sobre A Sinodalidade Na Vida Da Igreja – Fundamentos e perspetivas, publicado pela UCEditora, admite que “a concretização da proposta a nível de comunidade apresenta as suas ambiguidades e dificuldades: não é um caminho claro.” Pergunta, como exemplo: “Que metodologia utilizar? Como seleccionar ou identificar pessoas que, dentro da comunidade, possam assumir a tarefa de anúncio público da Palavra em contexto celebrativo? Como se fará a escolha? Com que autoridade e legitimação se apresentam em público, diferenciados numa comunidade de irmãos? Porquê uns e não outros?” Para responder: “A concretização levanta problemas e não é um caminho claro. Não ignorando as dificuldades, a partir da reflexão no grupo de liturgia e no grupo coordenador da comunidade, resolvemos este ano avançar para dar um sinal concreto de inovação e de corresponsabilidade sinodal.”

O caminho está, no entanto, salvaguardado seja na relação hierárquica seja dentro da própria comunidade. No Patriarcado, o novo bispo auxiliar Alexandre Palma, “está informado e deu o seu contributo para a reflexão”, sugerindo quatro ideias: “Que nunca se aliene o momento da homilia reservado ao ministro ordenado; que, a acontecer durante o tempo da homilia, a proclamação pública da palavra seja a duas vozes, a do ministro ordenado e a da outra pessoa leiga (ou religiosa); que há outros momentos possíveis de meditação/partilha da Palavra para além da homilia; e que há outras celebrações possíveis com partilha da Palavra para além da eucaristia”.

Na comunidade, eventuais reacções adversas “são conhecidas e contemporâneas da própria proposta”, diz António Martins. “O debate, com a diversidade de perspectivas, aconteceu com toda a clareza”, recorda. “Houve pessoas que chamaram a atenção para o risco de se alienar uma tradição e uma prática profética de anúncio da Palavra que tem marcado a singularidade das celebrações da eucaristia na Capela do Rato, desde os tempos do padre Alberto Neto”, o capelão na altura da vigília contra a Guerra Colonial, no final de 1972.

Outras pessoas recordam-se “quando, na concretização da reforma litúrgica pós-conciliar, se abriu a possibilidade de partilha pública da Palavra durantes as homilias e muitas partilhas, no contexto político da altura, tinham acentuada vertente ideológica”, quase como um comício. “Foi uma experiência de curta duração”, diz o padre Martins. “Outras pessoas disseram mesmo que quando a partilha da Palavra por leigos viesse a acontecer deixariam de frequentar a Capela do Rato, pois vêm ali procurar uma homilia de qualidade, com implicações existenciais. E isso tem sido uma dimensão diferenciadora da Capela do Rato.”

“Não ignoramos as críticas” nem as reacções, “umas já expressas, outras que hão-de chegar” em relação à decisão, diz o capelão. “Alguém poderá objetar: são sempre os mesmos do costume? Lá vem a clericalização dos leigos, alguns elevados a ‘sacerdotes de serviço’. É a velha história de ‘o velho, o rapaz e o burro’”, acrescenta. “Mas creio que o grosso da comunidade aceita bem este caminho de inovação prudente. As reações pessoais de gente da comunidade que recebi vão nesse sentido. Nas redes sociais pode haver um tom mais crítico ao processo, aceitável e a ter em conta”, admite.

 

Dar maior densidade profética à Palavra da Bíblia

Paulo Melo (o primeiro à direita, no centro), no dia em que teve a homilia a seu cargo: “Muito do que relembro procede diretamente do Catecumenato”. Foto: Direitos reservados

Paulo Melo (o primeiro à direita, no centro), professor do ensino secundário, fazendo a sua homilia na Comunidade Cristã da Serra do Pilar (Gaia) no início deste mês: “Os leigos podem ajudar a trazer a Palavra ao concreto da vida, a partir das suas experiências profissionais, familiares, afectivas”, diz o capelão do Rato. Foto: Direitos reservados

António Martins diz que a iniciativa estará sujeita “a avaliação e a revisão”. Nada é definitivo, reitera. “É um processo que vamos iniciar, um caminho novo, com riscos e promessas. As quatro intervenções previstas para o ano pastoral 2024-2025 (de uma religiosa, de uma leiga e de dois leigos) é um modo prudente de iniciar. Convidam-se pessoas exteriores à comunidade com a sua legitimidade e autoridade reconhecida (teológica, de intervenções públicas) para partilhar publicamente a Palavra durante o tempo da homilia, a duas vozes”.

Este passo vai a par da convocação de grupos já existentes ou a criar para a meditação, oração e partilha dos textos bíblicos da liturgia dominical, refere o capelão. E no próximo ano, os quatro ou cinco momentos de partilha pública da Palavra resultarão das dinâmicas desses grupos, sendo cada um deles convidado a preparar a “homilia” e a indicar uma pessoa para a proclamar, em coordenação com o capelão.

E deveria esta experiência ser alargada a outras comunidades? Entre as críticas recorrentes às homilias proclamadas pelos ministros ordenados estão “a deriva moralista, a concentração doutrinária, o excesso de catequese e a pouca ligação à vida concreta das pessoas, ao seu sentir, às suas dificuldades”, admite António Martins.

Actualmente, a Comunidade Cristã da Serra do Pilar (Gaia) tem uma série de seis celebrações cujas homilias são feitas por leigos, como forma de assinalar os 50 anos da comunidade. Mas a experiência de haver não clérigos a intervir no momento da homilia é rara, pelo menos em Portugal.

O capelão do Rato assegura ao 7MARGENS: “Este processo de proclamação pública da Palavra por leigos não pretende substituir o sacerdócio ordenado pelo sacerdócio comum, mas articular as duas dimensões na leitura profética da Palavra de Deus. Se o ministro ordenado pode inserir a Palavra numa tradição de interpretação, os leigos, ativando o sensus fidei (o sentir dos crentes) podem ajudar a trazer a Palavra ao concreto da vida, a partir das suas experiências profissionais, familiares, afectivas…” Trata-se “de um enriquecimento e de uma experiência sinodal na atualização da Palavra de Deus na vida dos crentes”, afirma. “Há também experiências bem-sucedidas em que a homilia dominical, proclamada pelo presbítero, é preparada de uma forma orante com um grupo de leigos que trazem à interpretação e atualização da Palavra a sua vida.”

Para o professor de teologia, está claro que deveria “ensaiar-se e praticar-se uma leitura sinfónica da Palavra, a várias vozes, a partir de várias sensibilidades e experiências, conjugando o sentir dos crentes com a autoridade do ministério ordenado”. Tudo “de modo a dar maior densidade profética à Palavra proclamada, capaz de se tornar significativa para a nossa mentalidade e cultura actuais, capaz de dar forma e sentido à procura das comunidades actuais”.

“Os caminhos estão abertos, o modo de concretização exige saber aliar criatividade e prudência”, acrescenta António Martins. “De forma serena, creio que podemos percorrer caminhos novos, de maior vivência orante e profética da Palavra, nas nossas comunidades cristãs, sem provocar rupturas nem dinâmicas de desconfiança.”

 

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