O cardeal arcebispo de Belgrado (Sérvia), Ladislav Német, de origem húngara, denunciou a “excessiva proximidade” dos hierarcas católicos da Hungria ao regime de Viktor Orbán, apelando a um posicionamento crítico e a uma maior sintonia com “o dinamismo vibrante da Igreja universal e do seu caminho sinodal”.
Num artigo publicado no início desta semana e citado no site católico Katholische, o prelado pede à Igreja Católica do país que faça “um exame honesto e autocrítico” do seu silêncio ao longo dos 16 anos em que Viktor Orbán esteve no poder, beneficiando com o apoio deste político, salientando que a viragem decorrente das recentes eleições parlamentares pode representar “um kairós [tempo favorável] para a renovação e conversão eclesiástica”.
O cardeal, que já ocupou o cargo de secretário-geral da Conferência Episcopal Católica Húngara, sendo também corresponsável por aquilo que agora denuncia, diz esperar que, “no futuro, nos preocupemos muito mais com os ensinamentos do Papa do que com as ambições de nossos políticos, pois somente assim poderemos cumprir verdadeiramente nosso papel na sociedade”.
“Incomoda-me – acrescenta Ladislav Német – o facto de alguns membros da liderança da Igreja falarem sobre a última década e meia como se não houvesse expectativas muito concretas embutidas no sistema”, não entendendo “como aqueles que viveram por 16 anos numa determinada ordem política e social e estiveram entre os maiores beneficiários do sistema não puderam perceber que algo não estava a funcionar normalmente – dentro e fora da Igreja”.
Para o purpurado, “a arte de não falar” pode, por vezes, ser “sábia e necessária”. “Mas – enfatiza ele – quando o silêncio se torna sistémico e não se faz qualquer declaração substancial durante 16 anos relativamente à injustiça social, ao endurecimento do discurso público, à institucionalização do discurso de ódio, à corrupção desenfreada, à estigmatização sistémica das pessoas, à sua exclusão e à incitação contra elas, então deixa de ser uma virtude e passa a ser uma grave omissão”.
A tarefa dos pastores não é apenas “guardar o rebanho” ou ser um fator de estabilização da ordem social”, mas também o de “reconhecer os perigos e nomeá-los” e “reconhecer quando deve erguer um espelho crítico e julgar a realidade à luz do Evangelho – mesmo que isso seja desconfortável”.
Ladislav Német denuncia a “supressão do pluralismo” dentro da Igreja, dando a perceber que isso o levou a sofrer silenciamento e exclusão, “em parte devido à sua abertura ao processo de reforma sinodal da Igreja”.










