
Hilário e Suzuki juntos em missa na Hungria. Foto © Paróquia da Santíssima Trindade
O metropolita Hilário, que já foi o responsável máximo do importante Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscovo da Igreja Ortodoxa Russa (IOR) acaba de ser suspenso das funções que vinha exercendo na Hungria e retirado de outros importantes cargos. O motivo, não divulgado oficialmente, será, segundo várias fontes, um escândalo relacionado com assédio sexual de um subdiácono e um estilo de vida luxuoso e impróprio.
A investigação deste caso foi feita pela publicação jornalística independente Novaya Gazeta presentemente a ser editada em Riga, capital da Letónia, devido à repressão do regime do Presidente Vladimir Putin. As decisões a respeito do metropolita acabam de ser tomadas pelo Sínodo do Patriarcado de Moscovo, numa reunião realizada no último dia 25.
O comunicado emitido depois dessa reunião dá conta que o órgão decidiu constituir uma comissão para estudar a situação atual da Diocese de Budapeste-Hungria, removendo temporariamente o metropolita Hilário das suas funções à frente dessa diocese e nomeando um substituto temporário.
Além disso, o Sínodo decidiu destituir aquele hierarca de outros relevantes cargos, nomeadamente o de presidente da Comissão Bíblico-Teológica Sinodal e de presidente da Comissão de Teologia e Formação Teológica, nomeando, também aqui, um substituto.
Recorde-se que Hilário chegou a ser número dois do Patriarcado de Moscovo e potencial sucessor do Patriarca Cirilo (este, curiosamente, desempenhou as mesmas funções de “ministro dos negócios estrangeiros”, antes de ser eleito para o cargo que hoje exerce). Nessas funções recebia em Moscovo altos representantes externos políticos e religiosos e chefiava delegações de alto nível ao estrangeiro, como foi o caso de vários encontros com o Papa Francisco. De repente, em junho de 2022, sem qualquer explicação oficial, foi retirado do cargo e enviado como metropolita para a diocese de Budapeste, considerada uma das mais pequenas dioceses da IOR, no que foi visto como uma espécie de exílio.
Oficiosamente, diz-se que esta medida terá ficado a dever-se a uma discordância de Hilário quanto à invasão da Ucrânia pela Rússia e à cobertura e legitimação dadas pelo Patriarca Cirilo. Ele próprio, comentando o sucedido, afirmou, em declarações citadas pelos media russos, que não se tratava de quaisquer deficiências relacionadas com as responsabilidades que ele exercia na IOR. “Só se disse que a situação sociopolítica tinha mudado. Pode-se supor que a estrada fez uma curva muito acentuada, eu não me encaixei nela e acabei por ser posto à margem”, desabafou, na altura.
A investigação feita pela Novaya Gazeta revela múltiplas provas (incluindo gravações) dos alegados avanços sexuais e tentativas de condicionamento do metropolita Hilario e procura evidenciar as volumosas verbas implicadas em aquisições de bens mobiliários de luxo, quer na Hungria quer na França, por parte do hierarca, e o envolvimento de magnatas russos como patrocinadores de projetos que deixam a pairar a dúvida sobre o que é para fins privados e para obras da diocese.
Hilario tem-se multiplicado em entrevistas a meios de comunicação russos para se defender, sustentando-se em múltiplas vozes de apoiantes, nomeadamente do clero ortodoxo da sua diocese húngara. Segundo ele, o seu caso é típico: considera-se vítima da chantagem de um subalterno que tem acesso à vida privada de um superior e tenta, depois, tirar partido das informações recolhidas. Nega estar em causa assédio sexual e recusa o que diz ser uma devassa da sua vida privada.
Seja como for, um segundo artigo dedicado pela Novaya Gazeta a este caso prefere destacar a contradição entre o comportamento do metropolita e as posições que defendeu ao longo dos anos, como crítico loquaz da aceitação de membros da comunidade LGBTQ pelas igrejas, um pouco por todo o mundo, em especial a Igreja Católica, por aceitar a bênção de casais homossexuais. Em 2021 não só defendeu a criminalização de materiais que representem positivamente as relações LGBTQ, como defendeu idênticas medidas de banimento de propaganda gay noutros países.









