
Tolentino Mendonça no Dia de Portugal 2020, Mosteiro dos Jerónimos. Foto © Arlindo Homem/Ecclesia
O cardeal José Tolentino Mendonça afirmou na segunda-feira, 11, que a modernidade “persistirá como um projecto incompleto” se esquecer a fraternidade, dizendo que lógicas de xenofobia são indesculpáveis e que uma política que “semeia a divisão” está “condenada ao fracasso”.
“Uma política que semeia divisão, inimizade ou um cepticismo desolador, uma política que é incapaz de um projecto comum, inclusivo, é uma política condenada ao fracasso”, afirmou o bibliotecário e arquivista da Santa Sé na primeira sessão do curso Filosofia, Literatura e Espiritualidade, promovido pela Capela do Rato, do Patriarcado de Lisboa, onde comentou, através de plataforma vídeo, a encíclica do Papa Francisco, Fratelli Tutti, publicada no início de Outubro.
Este documento é um “texto de síntese”, afirmou, no qual se pode compreender “a visão, o legado, o projecto que o Papa Francisco oferece ao nosso tempo e àquele que virá”, nomeadamente no que diz respeito ao exercício da actividade política.
“As grandes perguntas que acabam por julgar a qualidade da actividade política pública são: ‘Quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade? Que laços reais construí? Que forças positivas desencadeei? Quanta paz social semeei? Que produzi no lugar que me foi confiado?’”, referiu o cardeal português, citando a encíclica do Papa.
Tolentino Mendonça lembrou a “visão crítica” de Francisco em relação aos “populismos e neoliberalismos exacerbados”, que “pensam que o mercado aberto é suficiente para regular todas as assimetrias sociais”, desafiando “os actores políticos a reencontrarem a nobreza da actividade política como a grande expressão do amor comum”.
“Um governante tem de olhar para o futuro! Não pode viver da agenda do imediato, da aparência, do marketing, das diferentes formas de maquilhagem mediática, mas tem de governar para um futuro que provavelmente ele não verá, mas constituirá o seu verdadeiro contributo”, sublinhou.
O cardeal Tolentino Mendonça lembra que o Papa Francisco reconheceu a demora da Igreja Católica a condenar a escravatura e “tantas outras formas de violência”, acrescentado que, hoje, não há desculpas para continuar “dentro de lógicas de violência, de xenofobia ou de desprezo pelos outros seres humanos”.
Fraternidade ficou de fora, mas deve ser um dever das sociedades
Comentando também as características da “bandeira do projeto de modernidade”, consignadas nos atributos da liberdade, igualdade e fraternidade, o cardeal Tolentino considerou que as “sociedades democráticas acolheram a liberdade e a igualdade”, mas “a fraternidade ficou de fora”, como “não se pudesse legislar, como se não pudesse ser operacionalizada como um dever, como uma proposta ética, concreta a efetivar nas sociedades”.
“O projeto da modernidade persistirá como um projeto incompleto e abstracto se continuarmos a insistir na liberdade e na igualdade sem termos em conta a urgência de construir a fraternidade. Porque é a fraternidade que dá uma propriedade prática à liberdade e à igualdade”, afirmou.
“A fraternidade é uma palavra, uma ideia, uma experiência, um desafio que acompanha o pontificado do Papa Bergoglio desde o primeiro momento”, acrescentou. E recordando a primeira saudação após a eleição, a 13 de Março de 2013, lembrou que Francisco se referiu a “um caminho de fraternidade”: “Rezamos uns pelos outros, rezamos pelo mundo, para que o mundo seja uma grande fraternidade.”
Para o arquivista e bibliotecário da Santa Sé, a fraternidade não é uma “ideia nova nem solitária” neste pontificado, mas “um tópico central” nos diálogos, na diplomacia e nos pronunciamentos de Francisco, que pretende promover um diálogo com todos e “chegar a todos”.
“A fraternidade não é um automatismo, uma inevitabilidade da nossa espécie, não é simplesmente ouvir o arquétipo da nossa natureza, é uma construção ética, é uma decisão.”
Papa o cardeal Tolentino, a encíclica Fratelli Tutti tem um “forte componente de desejo”, “não é um documento sobre a actualidade” ou de doutrina, mas “uma espécie de corpo de fogo atirado mais longe, um bólide espiritual lançado ao presente e ao futuro”, que consiste “num novo sonho de fraternidade espiritual”, afirmou na sua intervenção, que está disponível em vídeo e áudio na página da Capela do Rato.
O curso promovido pela Capela do Rato realiza-se semanalmente, à segunda-feira, através de plataformas vídeo, e tem perto de 500 participantes inscritos.










