Católicos escrevem carta aberta aos bispos, “envergonhados” pela colagem a manifesto sobre Cidadania

| 21 Set 2020

Patriarca de Lisboa. Manuel Clemente. Sé. Igreja

O patriarca na Sé de Lisboa, antes da celebração da Vigília Pascal deste ano, em Abril. Foto © Miguel Valle de Figueiredo/FFMS.

 

Um grupo de 22 católicos de diferentes proveniências e gerações escreveu uma “carta aberta” ao patriarca de Lisboa e ao bispo de Aveiro, manifestando-se envergonhados pelo facto de ambos terem dado o seu nome ao manifesto “em defesa das liberdades de educação”, divulgado no início do mês e assinado por uma centena de personalidades, já noticiado pelo 7MARGENS.

“Queremos dizer, com a franqueza de cristãos que é devida aos nossos bispos, que o vosso apoio subscrevendo e associando-se ao manifesto ‘Em defesa das Liberdades de Educação’ contra a obrigatoriedade das aulas de “Educação para a Cidadania e Desenvolvimento” no ensino básico nos decepcionou e desgostou muitíssimo. Melhor dizendo, envergonhou-nos! – enquanto cidadãos, cristãos e católicos”, lê-se na carta, enviada ao 7MARGENS neste domingo à noite.

Entre os signatários, estão José Leitão, do Centro de Reflexão Cristã e advogado, os jornalistas Jorge Wemans e Leonor Xavier, e o professor universitário e economista Manuel Brandão Alves e Maria João Sandes Lemos, do movimento Nós Somos Igreja.

“Estas posições entristeceram-nos e nós não nos revemos de todo naquela colagem a posições ideologicamente conservadoras”, explica Nuno Caiado, técnico superior da Administração Pública, sobre as motivações do grupo, em declarações ao 7MARGENS. “Preferíamos uma leitura mais ética e moral consentânea com o século em que vivemos”, acrescenta.

A carta, diz o mesmo signatário, foi enviada sexta-feira à tarde aos dois destinatários. O patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, já respondeu, mas o grupo considera que não lhe compete divulgar a resposta. Que, acrescenta Nuno Caiado, no essencial “mantém a argumentação do manifesto”, mas não parecendo “contrariar nenhum argumento da nossa carta”.

Os sentimentos de decepção, acrescenta o texto, têm-se repetido com “outras” posições públicas dos bispos. Por isso, os signatários entendem ser seu “dever” escrever a manifestar a sua opinião: “a assinatura do referido manifesto é uma desastrada forma de intervenção cívica, sendo objectivamente sentida como uma agressão aos católicos que não se revêem nesse documento”.

O texto foi ainda remetido à nunciatura apostólica (embaixada) do Vaticano em Lisboa, ao presidente da Conferência Episcopal, o bispo de Setúbal, José Ornelas, e à Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, que é presidida actualmente pelo bispo de Aveiro.

 

Intervenção “desnecessária e pastoralmente irresponsável”

No documento, os signatários recusam entrar numa “polémica argumentativa”, mas apresentam cinco razões que consideram justificar a disciplina em causa, dizendo que o que está em causa são questões relativas à igualdade de género e não à ideologia de género. E recusam “o absurdo de tornar o eixo educacional da cidadania referendável à opinião dos encarregados de educação”.

Por isso, acrescentam que a associação dos dois bispos ao manifesto “foi desnecessária e política e pastoralmente irresponsável” e representa uma “nova manifestação de um conservadorismo decepcionante e indesejável” e um sinal do “preocupante movimento de aproximação (por vezes, alinhamento) entre a Igreja e forças políticas bem identificadas com a direita e mesmo com a extrema-direita – como já se verificou com a subsequente apresentação de uma proposta legislativa do Chega sobre a matéria”, escrevem.

O documento – que se pode ler na íntegra nesta ligação digital – recusa “uma Igreja instrumentalizada ou de qualquer modo cúmplice – como em momentos passados – com as nuvens escuras que se adensam em muitos países de todos os continentes devido à emergência de radicalismos políticos essencialmente estimulados pelas referidas forças políticas” e cujos resultados são conhecidos: “Caos, ditaduras, guerras, pobreza, desigualdade, dor e sofrimento.”

A carta termina com um desafio aos bispos e a toda a Igreja: “Ponderar melhor sobre os caminhos que trilhamos, perguntando-nos onde está Jesus Cristo nas opções que tomamos, seja no nosso dia a dia, seja no governo da Igreja: é Ele uma força de fé́ para o bem, motivadora de transformação e de solidariedade, ou é um instrumento ou pretexto deturpado de legitimação política?”

O manifesto que deu origem a esta polémica já tinha estado em debate na reunião do conselho permanente da Conferência Episcopal. No final da reunião, os bispos que integram este organismo – e que inclui o patriarca de Lisboa – manifestaram uma posição mais cautelosa do que a do manifesto, não referindo a questão da objecção de consciência, que está no centro do caso que lhe deu origem.

Na altura, conforme o 7MARGENS noticiou, os bispos reafirmaram a sua “disponibilidade para colaborar na busca de parâmetros comuns para a clarificação do importante papel desta disciplina na nossa sociedade”.

 

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