O país viveu o agosto mais negro de sempre. O fogo consumiu tudo: vidas, casas, bens, culturas… O desordenamento do território transformou a floresta num inimigo assassino. As comunidades religiosas tentaram, à sua maneira, apoiar os mais atingidos, oferecendo acolhimento e apoios. Porém, a tragédia não suscitou vozes exigindo cuidar da nossa casa comum. O silêncio da Igreja Católica foi clamoroso. Tal como agora é tímido, ou mesmo inexistente, o seu programa para celebrar o Tempo da Criação que se inicia amanhã, dia 1 de setembro.
O Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação que amanhã se celebra em todo o mundo marca o início do Tempo da Criação que se prolonga até 4 de outubro, dia de São Francisco. O dia foi instituído pela Igreja Ortodoxa em 1989 e a ele foram aderindo várias Igrejas, entre as quais a Igreja Católica, no ano (2015) da publicação da encíclica Laudato si’. Sementes de Paz e Esperança é o tema escolhido pelo Papa Francisco para este décimo Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, tema que Leão XIV confirmou na sua mensagem de 30 de junho.
Ao apresentar o lema deste ano, Leão XIV relembra a tradição do profeta Isaías: “O Espírito de Deus é capaz de transformar o deserto árido e ressequido num jardim, num lugar de repouso e serenidade.” Frase que ressoa como convite à esperança num país pintado de negro pelo fogo devastador.
Contudo, sobre essa imagem, o Papa prossegue citando o profeta: “Na terra, agora deserta, habitará o direito, e a justiça no pomar. A paz será obra da justiça, e o fruto da justiça será a tranquilidade e a segurança para sempre.” Estas são as condições que temos de construir para que possamos viver não “num deserto árido e ressequido”, mas “num jardim de repouso e serenidade”.
Se por vezes o debate público fica tomado pela polémica sobre os meios disponíveis, a capacidade e a estratégia de intervenção de bombeiros e agentes coordenadores da proteção civil, ou sobre os interesses económicos por trás da floresta ardida, as verdadeiras e indesmentíveis causas dos fogos incontroláveis radicam nos temas centrais da Laudato si’: as alterações climáticas e a urgência de cuidar da casa comum.
Uma perceção apurada daquelas levaria a superar hesitações políticas e contabilidades de ganhos eleitorais imediatos para determinar planos coercivos de ordenação da floresta e do território adaptados a um clima que já não é o que era e para os tornar espaços resilientes a fenómenos climáticos cada vez mais extremos.
Uma vontade formada na consciência da necessidade urgente de, individual e coletivamente, cuidar da casa comum implicaria substituir a miragem do máximo lucro imediato (que acaba por redundar em proveito zero) e o inqualificável desleixo de não limpar o que é seu por uma gestão coletiva que a todos proteja, distribuindo rendimento também pelos proprietários “obrigados” a disponibilizar terrenos para servirem de descontinuidade florestal, de acessos a bombeiros e de outras necessidades coletivas de prevenção dos incêndios florestais.
Uma Igreja convertida pela Laudato si’ não teria ficado calada perante o cenário de devastação que a sua ignorância prática montou neste agosto. Silêncio apenas explicável pelo facto de tal conversão não se ter ainda dado. Uma década de conferências, encontros, criação de módulos universitários e outras iniciativas de debate mostra como tudo isso não toca mais do que a superfície das coisas e foi incapaz de alterar de forma radical costumes, práticas e consciências. Sem ações, planos e programas sujeitos a avaliação e correção, ninguém se sente verdadeiramente envolvido pelo cuidar da casa comum. A começar pelos mais altos responsáveis da Igreja Católica, em silêncio quando deviam uma palavra pública e em igual inação agora que se inicia a celebração do Tempo da Criação.
Sementes de Paz e Esperança
É a essa ação que a mensagem de Leão XIV convida ao afirmar que durante “a iniciativa ecuménica do ‘Tempo da Criação’, junto à oração, são necessárias vontades e ações concretas que tornem percetível a ‘carícia de Deus’ sobre o mundo”. Só tais ações concretas podem responder ao que se verifica “em várias partes do mundo onde já é evidente que a nossa terra está a cair na ruína”, pois “por todo o lado, a injustiça, a violação do direito internacional e dos direitos dos povos, a desigualdade e a ganância provocam o desflorestamento, a poluição, a perda de biodiversidade, fazendo-se acompanhar de “fenómenos naturais extremos, causados pelas alterações climáticas provocadas pelo homem, que estão a aumentar de intensidade e frequência”.
É neste quadro que se multiplicam em Roma iniciativas para sublinhar a importância deste tempo. Já no próximo dia 5 de setembro Leão XIV vai regressar a Castel Gandolfo para inaugurar o Borgo Laudato si’, um espaço sonhado pelo Papa Francisco com 35 hectares de jardins e 20 hectares de terras agrícolas que abriga mais de 3.000 plantas pertencentes a 300 espécies diferentes [ver 7MARGENS].
O Borgo é “um projeto de educação para a ecologia integral que visa ser um exemplo de como se pode viver, trabalhar e fazer comunidade aplicando os princípios da Encíclica Laudato si’”.
Papa Leão XIV vai inaugurar o Borgo Laudato si. Foto © Vatican Media
Já no final do Tempo da Criação, entre 1 e 3 de outubro, terá lugar em Roma a conferência Irradiar Esperança que reunirá agentes de mudança social para discernir juntos “o que o Espírito diz à Igreja” nestes tempos de crise ecológica. Mais de 25 líderes espirituais, cientistas, comunidades indígenas e ativistas de todo mundo estarão reunidos em Roma, numa série de apresentações que poderão ser seguidas on line.
Além do Papa e do cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano, figuram entre os oradores peritos e ativistas como Lorna Gold, teóloga e diretora executiva do movimento Laudato si’, Patricia Gualinga, defensora da Amazónia e líder indígena kichwa na Amazónia equatoriana e Austen Ivereigh, escritor, jornalista e vaticanista, biógrafo autorizado do Papa Francisco.
Irradiar esperança responde ao apelo da mensagem papal quando retoma a afirmação do seu antecessor no sentido de que a cuidar da criação para os católicos não é uma opção, é um dever: “Num mundo onde os mais frágeis são os primeiros a sofrer os efeitos devastadores das alterações climáticas, do desflorestamento e da poluição, cuidar da criação torna-se uma questão de fé e de humanidade.”
Portugal: algumas iniciativas
Em Portugal, uma das iniciativas mais original é a da “caravana da esperança” que vai percorrer durante o tempo da criação as 321 paróquias da Diocese de Bragança-Miranda. Três frades capuchinhos, frei Hermano da Silva Rodrigues, frei John Naheten e frei Hermenegildo Sarmento visitam o território da diocese, também ele vítima dos fogos de agosto, na sua autocaravana. Objetivo: conversar com as pessoas sobre o cuidar da casa comum, levando exemplares do “Cântico das Criaturas” e da mensagem de Leão XIV, celebrando eucaristia quando e onde for possível.
Além das igrejas e ermidas, a caravana, que terá lugar entre 9 e 30 de setembro, tem previstas paragens em algumas escolas, lares de idosos e instituições públicas, sempre em jeito de “uma peregrinação de gente para quem ‘o mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor’”, dizem os frades capuchinhos.
Mais a sul, os frades franciscanos de Santo António dos Olivais, em Coimbra, lançaram a toda a comunidade e à cidade uma série de iniciativas para celebrar o Tempo da Criação. Entre elas recriaram uma iniciativa da Rede Cuidar da Casa Comum e recebem até dia 10 de setembro, num e-mail criado para o efeito, até três fotos, ou um vídeo de um minuto, que qualquer pessoa pode enviar ilustrando temas como paz com a criação, Laudato si’, paz e fraternidade, jubileu da esperança, cântico das criaturas, São Francisco e Santo António.
Os frades prometem organizar, a partir das fotos e vídeos recebidos, “uma apresentação multimídia ‘Paz com a Criação’ que será projetada no dia 4 de outubro 2025, no Largo do Mosteiro de Celas, durante o jantar solidário”.
A própria Rede Cuidar da Casa Comum organiza o seu encontro anual ‘Também Somos Terra’ no dia 13 de setembro, no jardim do Seminário da Luz, em Lisboa, a partir das 16h00. Após a mesa-redonda dedicada aos temas da mensagem papal e ao balanço de dez anos da Laudato si’ terá lugar, entre as 18h30 e as 19h45, “uma breve caminhada pelo jardim tendo como ‘estações’ os sete objetivos da encíclica”. O encontro termina com a vigília ecuménica a ter início às 21h30.










