Entrevista ao 7MARGENS

Comité de la Jupe quer encorajar as mulheres a não se calarem na Igreja e na sociedade

| 8 Mar 2024

Comité de la Jupe em manifestação, 25 novembro 2023, Foto Comité de la Jupe

O Comité de la Jupe atrai cada vez mais membros de todas as gerações, incluindo os jovens. Foto © Comité de la Jupe

 

Foi há 15 anos que a biblista Anne Soupa e a jornalista Christine Pedotti, diretora de Témoignage Chrétien, decidiram lançar a associação-movimento Comité de la Jupe (traduzido à letra : Comité da Saia). A ideia ocorreu-lhes a partir de uma “boutade” menos feliz do então arcebispo de Paris, que associava a saia à inteligência. O objetivo era encorajar as mulheres, sobretudo as que se sentem discriminadas na sociedade civil e na Igreja, a não se calarem, a denunciarem o seu sofrimento; até porque, como se diz nesta entrevista, “o ostracismo é totalmente contrário aos ensinamentos de Cristo”. Neste sábado, 9 de março, na capital francesa e em vários outros pontos de França, celebram o caminho percorrido por esta “voz” que fala contra o sofrimento e a invisibilidade das mulheres, nomeadamente as cristãs. As atuais co-presidentes, Adeline Fermanian, investigadora em estatística, e Sylvaine Landrivon, teóloga e feminista, aceitaram responder por escrito a algumas questões colocadas pelo 7MARGENS, a propósito do percurso realizado desde 2009.

 

7MARGENS – Como é que as dirigentes do Comité de la Jupe veem a situação atual dos direitos das mulheres na Igreja Católica?

Adeline Fermanian e Sylvaine Landrivon – Em meados do século XX, a situação do laicado na Igreja Católica foi finalmente tida em conta pelo Concílio Vaticano II, com a sua ênfase no “povo de Deus” e no “sacerdócio comum dos fiéis”. As mulheres acreditaram então, pelo menos no Ocidente, que tinha chegado o momento de ultrapassar a discriminação. Um sonho que foi rapidamente trazido de volta à realidade por textos como Inter insigniores[1] e outras chamadas à ordem por parte do magistério. Isto significava que as mulheres continuavam subjugadas numa Igreja decididamente patriarcal. Assim, não se tratava de lhes dar acesso a cargos de governação, pois às mulheres continuava a ser atribuído o estatuto de “menores”, apesar da evolução da sociedade civil. Não lhes era permitido exercer qualquer função sacerdotal, quer na transmissão da Palavra, quer na celebração dos sacramentos. Por outro lado, a manutenção do controlo sobre a sua vida privada resistia através da persistência da condenação de qualquer tentativa de controlo dos direitos reprodutivos (contraceção, aborto, etc.). A frase dúbia do [então] arcebispo de Paris, André Vingt-Trois, que deu o nome à nossa associação, é apenas uma ilustração disso mesmo, pois, segundo ele, não bastava ter uma saia para intervir na Igreja, era preciso também “ter um cérebro”. Sic!

 

7M – E nos nossos dias, com o Pontificado de Francisco ?

A eleição do Papa Francisco deu um pouco de esperança àqueles que aspiram a uma verdadeira igualdade entre todos os batizados. De facto, houve alguns sinais de um desejo de mudança. O motu proprio Spiritus Domini, de janeiro de 2021, oficializa a possibilidade de as mulheres exercerem os serviços de leitor e acólito, de forma institucionalizada e estável. O recente trabalho do Sínodo sobre a sinodalidade identificou a ausência de mulheres nos cargos da Igreja como um problema. O relatório da CIASE [Comissão Independente sobre os Abusos Sexuais na Igreja] também registou este facto. Algumas mulheres foram nomeadas para cargos de governação. Mas, no fundo, o que é que mudou na instituição? Nada mudou. Pelo contrário, uma onda de recuo identitário está a reduzir o número de paróquias onde as mulheres são acolhidas e reconhecidas. Nos últimos 20 anos, o acesso das raparigas ao serviço do altar foi reduzido em benefício de uma nova função: a de “assistentes de assembleia”, que as impede de dar qualquer contributo para o culto.

 

a biblista Anne Soupa e a jornalista Christine Pedotti, fundadoras do Comité de la Jupe

A biblista Anne Soupa e a jornalista Christine Pedotti, fundadoras do Comité de la Jupe. Foto: Direitos reservados

 

7M – E que tem feito o Comité de la Jupe, nesse contexto ?

O Comité de la Jupe elaborou um mapa das paróquias para evidenciar estes disfuncionamentos e denunciou-os numa carta enviada a todos os bispos de França. Apenas cinco responderam, entre os quais o arcebispo de Lyon, que exprimiu as suas reservas relativamente ao regime misto.

A mesma onda de fechamento que confisca a mensagem do Evangelho em vez de se tornar aquilo a que o Papa chama “uma Igreja em saída” está a dar origem a um ressurgimento das peregrinações por género e, ao mesmo tempo, a ignorar o problema dos migrantes e das pessoas recambiadas para as margens, incluindo mulheres e pessoas LGBTQIA+…

Isto torna ainda mais importante o papel de associações como o Comité de la Jupe, Oh My Goddess, FHEDLES… É, sem dúvida, aquilo de que os católicos progressistas se aperceberam, uma vez que o Comité de la Jupe atrai cada vez mais membros de todas as gerações, incluindo os jovens.

Como nos recorda o primeiro dos valores do nosso sítio web, aspiramos a transmitir uma mensagem de justiça e de amor radical, a mesma mensagem ensinada pelo Evangelho. Rejeitamos a interpretação androcêntrica da Bíblia que leva à discriminação e à atribuição de papéis que privam as pessoas do seu potencial. Infelizmente, o aviso enviado pelo cardeal Parolin aos bispos alemães mostra a resistência que estamos a enfrentar. A Alemanha tinha lançado um projeto de comissão sinodal, composta por clérigos e leigos, para se ocupar da governação, do papel das mulheres, da moral sexual, etc. Roma travou-o, o que não é um bom presságio.

 

7M – Quais foram os pontos altos do trabalho do Comité nos seus já 15 anos de vida e quais os desafios para o futuro próximo?

Os principais avanços do Comité de la Jupe desde a sua criação por Anne Soupa e Christine Pedotti consistem em encorajar as mulheres a não se calarem. Tal como no caso da violência sexual e sexista na sociedade civil, as pessoas discriminadas são convidadas a denunciar o que sofrem, tanto mais que, no catolicismo, este ostracismo é totalmente contrário aos ensinamentos de Cristo. Assim, as mulheres têm agora uma voz que fala contra o seu sofrimento e a sua invisibilidade.

Através de ações militantes (no âmbito dos desfiles feministas), de artigos nos jornais (La Croix, Golias, AFP, Le Monde), de entrevistas e de discursos, apresentamos as nossas exigências de reconhecimento.

Foram criados grupos locais em muitas regiões para estar o mais próximo possível dos nossos membros: Orleães, Lyon, Tours, Marselha, Arles, La Rochelle/Saintes, Paris… incluindo Lausanne na Suíça, e outros estão em vias de ser criados.

Desenvolvemos também cursos de formação através de videoconferências (atualmente uma série sobre o tema “Catolicismo e poder”, na qual participam Philippe Lefebvre, Bénédicte Serre e Marie-Jo Thiel), colóquios (o nosso próximo fim de semana de Pentecostes no convento de Tourette, sobre o tema “Cristãs, feministas, ecologistas : o Evangelho como resposta à violência contra a terra e as mulheres”) e organizamos celebrações ao longo dos pontos altos do ano litúrgico.

Elementos do Comité de la Jupe marcaram presença em Roma, durante a XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Foto: Direitos reservados

 

7M – Que expetativas têm em relação ao atual Sínodo sobre a sinodalidade, particularmente no que diz respeito ao protagonismo das mulheres?

Em primeiro lugar, lemos com alívio no Relatório-síntese que foi produzido após esta etapa [romana] do sínodo que “a assembleia pede-nos para evitar repetir o erro de falar das mulheres como um problema. Em vez disso, queremos promover uma Igreja em que homens e mulheres dialoguem para compreender melhor a profundidade do projeto de Deus, em que apareçam juntos como protagonistas, sem subordinação, exclusão ou competição”.

Lemos também que finalmente parece estar registado que “homens e mulheres são chamados a uma comunhão caracterizada por uma corresponsabilidade não competitiva, que deve ser encarnada a todos os níveis da vida da Igreja”.

Mas, como diz Anne Soupa desde a criação do Comité de la Jupe, quando se trata de responsabilidade e de transmissão da palavra, “queremos tudo”. Algumas pequenas medidas nunca serão suficientes face às tarefas eminentes que Jesus confiou :

  • à mulher Madalena: ir anunciar a ressurreição ;
  • à mulher samaritana: converter o seu povo ;
  • a Marta: conseguir formalizar o sentido da ressurreição ;
  • à sua mãe a quem uniu o discípulo “amado”, estendendo assim o povo de Deus de Israel até aos confins da terra.

Não podemos contentar-nos em falar da possibilidade de um diaconado feminino para aliviar a escassez desesperada de clérigos, que aumenta todos os anos no Ocidente. Temos de reler a Escritura e devolver às mulheres, aos leigos e aos que não têm voz a parte da missão a que têm direito em virtude do seu batismo. Através deste sacramento, cada cristão torna-se “sacerdote, profeta e rei”. Como escreveu Paulo aos Coríntios: “Para mim, anunciar o Evangelho não é um título de glória, mas um dever a cumprir. Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!”

Essas são as nossas expetativas: fazer com que cada uma e cada um de nós possa, segundo os seus carismas, partilhar a mensagem do Evangelho e viver dela.

 

[1] Declaração sobre a admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial, da Congregação para a Doutrina da Fé, de 1976, na qual se nega essa possibilidade invocando a revelação, a tradição e o facto de Jesus ser um homem.

 

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