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Apesar de tudo, crianças brincam nas ondas da costa da Faixa de Gaza durante a devastadora guerra de um ano de Israel. Foto Nour ElAssyTNH

Testemunho

Como a bondade me ajudou a sobreviver durante um ano de genocídio de Israel em Gaza

| 15/10/2024

Este testemunho foi publicado originalmente pelo The New Humanitarian.

Apesar de tudo, crianças brincam nas ondas da costa da Faixa de Gaza durante a devastadora guerra de um ano de Israel. Foto Nour ElAssyTNH

As crianças brincam nas ondas da costa da Faixa de Gaza, apesar da devastadora guerra que dura há mais de um ano. Foto © Nour Elassy/TNH 

Enquanto observo a lua cheia que surge acima dos céus escuros de Gaza, tudo o que consigo pensar é no estado de falência moral do mundo que permite que este genocídio aconteça ao longo deste ano. No meio de tudo isto, como é que nós – os palestinianos que ainda sobrevivem em Gaza – preservamos a nossa humanidade? Como é que mantemos a nossa bússola moral quando tudo ao nosso redor nos incentiva a abandoná-la?

Continuo a olhar para o meu povo e talvez a maior bênção durante toda esta calamidade que nos atinge seja o facto de constantemente nos incentivarmos a permanecermos afetuosos uns com os outros.

Com toda a violência, dor e sofrimento, vivemos permanentemente com raiva, ansiosos e nervosos. É uma luta constante manter a sanidade, continuar a viver de acordo com os nossos valores e tratarmo-nos uns aos outros com gentileza. Mas continuamos a encontrar energia onde não resta nenhuma.

Talvez seja aqui que o Regime de massacre Israelita está certo: em Gaza, na Palestina, somos todos lutadores. Somos todos lutadores porque ousamos manter a nossa humanidade. Esta é a batalha silenciosa; aquela que estamos a travar com nada para além dos nossos corações e corpos esfomeados, sobrevivendo a balas após balas, bombas após bombas.

Somos, de facto, lutadores, guerreiros, um povo que continua a levantar-se. A banalidade da nossa luta escapa à forma como o mundo nos vê: não somos apenas vítimas da raiva impiedosa e sangrenta. Somos os que resistem diretamente, mesmo que a resistência não surja da forma esperada.

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Permanecemos juntos

Durante esses tempos difíceis e trabalhosos, aprendi o que significa ter uma família, ser humano e apoiar os outros de forma altruísta.

Quando Israel atacou Gaza como um todo, estava a fazer algo ainda mais sinistro do que ceifar vidas e destruir edifícios. Estava a tentar destruir as coisas intangíveis que nos unem. Esta é a estratégia dos exércitos e dos regimes coloniais – dividir e conquistar.

Israel não estava a tentar massacrar-nos a todos. Preservará sempre uma parte da população simplesmente para poder dizer: “Veem como não os erradicamos a todos?”

Mas o que está a fazer – ou pelo menos a tentar fazer – é transformar o parentesco e a segurança que sentimos uns com os outros; colocar-nos uns contra os outros, deixar-nos ressentidos uns com os outros e está a criar uma população que direciona a sua raiva e frustração para dentro.

O que Israel e todos os seus aliados não conseguem entender, compreender e reconhecer é que, em cada momento, nós fazemos exatamente o oposto.

Eles mostraram-nos o que significa ser selvagem e desumano, impedindo a entrada de carrinhas humanitárias na Faixa de Gaza, impedindo-nos de aceder ao nosso dinheiro e fazendo com que os preços até dos produtos mais básicos subissem inacreditavelmente. Mas nós permanecemos juntos desde o início.

É verdade que algumas pessoas se tornaram egoístas, pensando apenas em si mesmas. Mas outras fizeram tudo o que podiam para dividir a quantidade limitada de alimentos de que dispomos – mesmo quando era o único alimento que têm para os seus filhos – e partilhá-los com outros.

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Família e sobrevivência

© UnicefAbed Zagout Pessoas clamam por comida na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza

Pessoas clamam por comida na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza. Foto © Unicef/Abed Zagout

Aquilo a que estamos a sobreviver em Gaza não é apenas a ferocidade das armas letais de Israel; é também a exaustão mental, a desregulação emocional e o esgotamento da esperança e da fé que o ano passado trouxe. Acredito que Israel está a fazer isto para que, se algum dia decidirem dar-nos uma oportunidade real de negociação, procuremos o mínimo necessário.

Afinal, somos feitos apenas de carne, ossos, coração e alma – todos componentes frágeis da nossa composição humana; todos os quais requerem cuidados constantes e que são capazes de apodrecer. A única coisa que nos salva somos nós.

A família é a que trava uma das batalhas mais difíceis neste episódio maníaco de liquidação.

Antes da guerra, a minha família não era rica, mas eu vivia uma vida com a qual a maioria das raparigas sonha. Tinha o luxo de uma casa, uma educação superior e o melhor material para pintar. Sou pintora e costumava pintar pinturas a óleo em telas. Sinto mais falta disso do que alguma vez imaginei. É claro que não podíamos comprar tudo o que eu desejava, mas eu era feliz e muito grata. Agora, durante esta guerra, vejo o meu pai a lutar apenas para que não sintamos que já não podemos comprar as coisas mais básicas. Israel fez com que não tivéssemos acesso ao dinheiro das nossas contas bancárias e o meu pai não tem como ganhar a vida. Mesmo assim, ele tem feito o seu melhor para nos dar o que precisamos. Mesmo quando não pode, dá-nos abnegadamente o pouco de comida que há disponível, mesmo que isso signifique que ele não comerá, preferindo suprir as nossas necessidades em vez das dele.

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A puxar por mim

Já por várias vezes atingi o fundo do poço, perdi a esperança, pensei: “Isto é o fim”. Acabei de fazer 22 anos e já acreditei que vou morrer deslocada, que vou ser feita em pedaços e que ninguém conseguirá reconhecer as minhas feições, que vou morrer com fome sem poder realizar os meus desejos mais pequenos – voltar a comer na minha casa e viver até casar e ter uma família, morrer depois de uma vida longa e feliz rodeada das pessoas que amo.

Quando isto acontece, no meio de toda a escuridão que só parece aumentar, a única coisa que puxa por mim é a minha família.

A minha família foi obrigada a fugir a 7 de outubro do ano passado da nossa casa em al-Tuffah, um bairro no centro histórico da cidade de Gaza que existe desde o século XIII.

O meu irmão, que vive em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza, acolheu toda a nossa família sob o seu teto. Graças a Deus, não fomos obrigados a evacuar novamente. Mas estamos sempre com medo. A casa dele fica ao lado de um hospital, e os hospitais são frequentemente alvo dos militares israelitas. Tivemos de fugir uma vez, quando bombardearam a mesquita ao lado da casa, mas acabámos por conseguir regressar.

Eu, os meus pais, as minhas irmãs, os meus irmãos, os seus cônjuges e filhos, o meu tio e a sua família, éramos muitos para acolher. Vinte e oito pessoas numa só casa. Mas o meu irmão tentou fazer-nos sentir seguros durante as noites mais horríveis. No mínimo dos mínimos, tentou fazer-nos sentir que ainda estávamos em casa.

Enfiou a sua própria família – as suas duas filhas e os seus dois filhos – num quarto só para nos dar algum espaço para nos sentirmos confortáveis. Isto é a família; isto é a superação apesar da escassez de recursos, apesar da densidade de respirações num único quarto, apesar das bombas à nossa volta, apesar de tudo.

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Dois extremos

OMSChristopher Black Crianças estão sendo tratadas em um hospital de campanha temporário em Mouraj, bairro no sul da Faixa de Gaza

Dois meninos num hospital de campanha temporário em Mouraj, bairro no sul da Faixa de Gaza. “Tem havido grandes surtos de doenças, especialmente entre as crianças”.  Foto © OMS/Christopher Black 

Durante os meses de inverno, partilhávamos cobertores e abraços. Quando acordávamos com frio à noite, aterrorizados pelos bombardeamentos, tínhamo-nos uns aos outros. Demos força e paciência uns aos outros. Partilhávamos a comida à mesma mesa. Jogávamos às cartas até altas horas da noite para aliviar as longas noites frias.

Lembro-me da minha cunhada. Ela estava grávida e ficou doente. Sabe-se como isso pode ser doloroso. Uma mulher grávida já é vulnerável e fraca. Ela estava tão preocupada, e era uma noite de inverno gelada. A mulher do meu tio acordou a meio da noite e fez-lhe uma sopa quente. Sei que podem pensar que não é nada, mas era tudo o que ela precisava para sarar.

Quando tive febre – uma febre muito dolorosa – lembro-me que o meu corpo não parava de tremer debaixo de muitos cobertores. A minha mãe ficou ali a abraçar-me. Pensei que ia morrer. A minha cara estava tão vermelha, como se estivesse a arder. Lembro-me que toda a casa estava lá para mim, a perguntar-me se precisava de alguma coisa.

Não pude deixar de me perguntar: “Como é que pode haver dois extremos no mundo: o humano e o desumano?” Algumas pessoas lutam para fazer o que for preciso para ajudar o outro a aliviar a sua dor; outras continuam a provar que não têm qualquer problema em infligi-la.

Não sei exatamente o que se passava comigo. Tinha uma febre forte e o meu corpo não parava de tremer. Há tantas pessoas doentes. Tem havido grandes surtos de doenças, especialmente entre as crianças. É impossível encontrar medicamentos e, se os conseguirmos encontrar, são muito caros. Só há uma clínica na nossa zona para dar resposta a tudo isto. É uma luta para conseguir uma consulta – eu nunca consegui uma. Felizmente, sobrevivi.

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São estas as coisas

Um dia, estava sentada junto à praia com os pés descalços na margem. Estava realmente devastada. Miserável. Não conseguia não chorar. Uma menina pequena sentou-se ao meu lado. Era muito bonita. O seu cabelo estava clareado pelo calor do sol, a sua pele queimada e ela pedia-me dinheiro. Naquele momento, eu não tinha nenhum para lhe dar.

Quando ela me viu a chorar, sentou-se ao meu lado e pediu-me para brincar com ela na areia. Brincámos e fizemos um pequeno castelo. Ela conseguiu fazer-me rir e deu-me um beijo na cara.

Mais tarde, enquanto caminhava pelas ruas despidas, vi um homem a vender bananas. Apetecia-me qualquer fruta, especialmente bananas, porque me fazem lembrar casa. Adorava comer uma de manhã, antes de ir para a universidade. Perguntei ao homem quanto custava cada uma. O homem disse-me um preço demasiado alto que eu não podia pagar. Continuei a andar, mas ele chamou-me e ofereceu-me uma.

Comi a banana com lágrimas nos olhos. Sabia-me a céu porque me fazia lembrar a minha casa.

Estas são as coisas pelas quais estarei grata até ao dia da minha morte: um beijo na bochecha de uma criança descalça na areia a escaldar; o homem que me deu uma banana porque sabia que eu queria uma e não tinha dinheiro para pagar; as pessoas que estiveram sempre ao meu lado; as pessoas que abriram as suas casas aos seus irmãos e irmãs deslocados, e aqueles que partilham a sua comida e a comida dos seus filhos com os outros.

Estou grata a cada ser humano que manteve a sua humanidade apesar da violência terrível que vivemos diariamente.

 

Edição: Eric Reidy. Tradução para português: MEERU. O The New Humanitarian não é responsável pela exatidão da tradução.

O The New Humanitarian coloca o jornalismo independente e de qualidade ao serviço de milhões de pessoas afetadas por crises humanitárias ao redor do mundo. Saiba mais em www.thenewhumanitarian.org.

 

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