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Joaquim Félix. Foto

Como cartão de tapeçaria de Dom Robert

| 04/05/2023

[domingo iv do tempo pascal – a – último dia da semana de oração pelas vocações 2023]

[vindos da diáspora? / a beleza do cartão ― / dialetos pedaços © Joaquim Félix]

 

1. Ao tempo de Jesus e de Simão Pedro, sabemos bem que,
também por aqui e muitos outros lados,
o pastoreio de rebanhos era uma paisagem comum.
Pedro falava para uma comunidade de hebreus,
alguns vindos da diáspora e, entre outros, certos pastores,
que apascentavam ovelhas de seus senhores.
Hoje, porém, a nossa tessitura socioeconómica é tão diferente.
Distante das atividades agropecuárias e do mundo pastoril,
ela apresenta-se muito mais citadina, em êxodo rural,
com muitas pessoas empregues no setor terciário,
ocupando-se sobretudo na produção industrial,
nos serviços, na hotelaria e no comércio.

2. Será que as comparações, que Jesus explora até ao detalhe,
― a do ‘belo Pastor e das ovelhas’, e da ‘porta do aprisco’ ―,
nos poderão dizer algo de pertinente para traduzir a urgência
que Pedro coloca na ‘metanóia’, na conversão,
para que não haja ‘ovelhas desgarradas’ das comunidades?
Ou, para compreender a crítica construtiva que Jesus profeticamente pratica,
a fim de melhorar o serviço da condução do Povo de Deus,
tão diferente do exercício de alguns poderes,
em especial por religiosos e políticos, abusivamente exercidos?
Será que também hoje há assaltos, pilhagens e violências?
Como interpretamos os discursos proferidos na Assembleia da República,
por ocasião do 25 de abril, tão inflamados e perturbados que foram?
Que nos fazem pensar os últimos casos da TAP, por exemplo,
que são pagos com o dinheiro dos nossos impostos? 

3. Sem entrar em debates e diatribes partidárias,
até porque este momento não tem essa vocação,
procuremos explorar a palavra de Deus,
centrados no potencial das comparações.
Poderia ir à procura de outras imagens parabólicas, porque as há,
mais representativas das atividades humanas predominantes.
Claro, assumindo, como aliás Jesus, que todas apresentam limites.
― Digo isto porque, hoje como outrora, tomar as pessoas por ovelhas
não seria a melhor forma de considerá-las,
uma vez que os ovinos são vistos como animais pouco ‘inteligentes’ ―.
Porém, os valores da analogia que interessam são outros, notemos.
E é nessa medida que me proponho a um desafio:
à maneira de Jesus, recordar todas as imagens que,
com ovelhas ou pedaços delas, a realidade me tem oferecido.
É curioso que, neste exercício de memórias,
senti-me a desenhar um ‘cartão de tapeçaria’,
capaz, creio eu, de abrir horizontes de transformação eclesial,
como declinação dos ‘modos de ver’, muito atentos, de Jesus.
E que belo cartão me saiu, mesmo se incompleto!
Das cerca de dez paisagens que reuni,
vou explorar três; as outras ficam para novas ocasiões.

4. A primeira paisagem, à qual me referi nas duas últimas homilias,
é um «Pedaço de ovelha».
Bem, a esta hora (11h45), muitos estarão a pensar
numa peça de carne no prato, de borrego no forno.
E que bem saberia, se com umas batatas novas e folhinhas de alecrim!
Porém, falo de um outro ‘pedaço de ovelha’, no caso, em bronze.
É uma escultura enorme, que se encontra no parque da cidade de Zurique,
junto a uma magnólia, repito, de amarelo-de-ouro-a-fundir-se,
cujo autor foi o famoso escultor Henry Spencer Moore.
Quando a vi, naquele pequeno outeiro verdejante,
com algumas pessoas a praticar desporto, ou a contemplar as árvores,
majestosas como estas que, aqui ao lado, se encontram
― sequoias, liquidâmbares, plátanos, etc. ―
no Parque das Termas de Vizela, junto ao rio,
pensei para comigo o que agora vos partilho:
Há tantos ‘pedaços de ovelha’ nos nossos parques de cidades,
fazendo exercícios matinais, espraiando o olhar entre árvores!
Há tantas pessoas, jovens e não só, que andam por lugares,
que muitos consideram ‘profanos’ e ‘concorrentes’ à Igreja.
Não será que andamos deslocados em relação às pessoas?
Ou seremos nós que estamos sempre bem situados?
Como cuidar de outros ‘pontos de encontro’, de ‘catedrais seculares’?
Poderá pensar-se que alguns se afastam das igrejas,
porque, até do ponto de vista arquitetónico,
perderam a capacidade criar assombro e deslumbramento,
e de proporcionar deambulações para o corpo e o espírito?

5. A segunda paisagem, que me apraz partilhar,
poderia designá-la assim: «Dialetos dos pastores».
Fazem parte de uma instalação em vídeo, que vi
exibida numa das edições da Bienal de Vila Nova de Cerveira.
Foi intitulada «A fala das cabras e dos pastores».
É um documentário realizado, em 2018, por Alexandre Delmar,
que agora faz parte da Coleção do Museu Bienal de Cerveira.
Convido-vos a vê-la quando puderes; vale o tempo a investir:

 

E, para mais informação, com imagens e sons:

Não vos poupo a alguns ‘impropérios’; já sois crescidos!
Ah! isto sugere-me a criação de outros ‘dialetos’,
para falar com as pessoas, sejam elas quais forem,
de forma a aumentar o potencial das linguagens,
através de uma comunicação direta e geradora de proximidade e confiança.
Sem esta linguagem, sempre a recriar, quem poderá entender-se na Igreja?
As novas gerações serão capazes de compreender certas linguagens,
prisioneiras de séculos, sem atender ao progresso da Tradição?
Como perseverar na vivência comunitária do Evangelho,
se, por exemplo, a linguagem progride incipientemente, ou estagna mesmo?
Ou se quem dela usa não sabe senão repetir ipsis verbis, desencarnadamente,
em quatro ou cinco minutos (para não chegar tão atrasado à missa seguinte),
as mesmas palavras das leituras bíblicas, sem um necessário ‘aggiornamento’,
para anunciar ex novo a Boa Notícia de Jesus, interpelando-se e partilhando-a?
Oh! e a linguagem verbal, como anda essa parente pobre?
Desaprendendo os nomes, cairemos no caos, na ‘desvocação’.
Pelo que pergunto: ― Será ainda possível falar em ‘vocações’,
prosseguir em diálogos, se não vamos além do despersonalizante anonimato?

 

6. A terceira e última paisagem, para hoje,
contemplei-a num campo da ribeira do rio Neiva,
num final de tarde, já com o sol a conceder-me o privilégio da contraluz.
Confesso-vos que me parecia ― permiti a imaginação ―
o momento em que os animais saíam da arca de Noé.
Sim, mas não como nos mosaicos da catedral de Monreale, na Sicília,
em que, descendo da arca, as ovelhas olham com desconfiança os felídeos.
Neste cenário através da vegetação ripícola,
contemplei àquela hora da tarde um conjunto alargado de criaturas:
ovelhas, brancas e negras, com os seus cordeirinhos;
cabras, cabritos e cabritinhos;
perus brancos e negros, arrastando as asas; galinhas, galos, granizos;
e um cavalo branco num campo, ao lado, tão solitário como ele…
ali colocado, pensei, por Andrei Tarkovsky, para um dos seus filmes.
Parecia-me, confesso-vos, uma tapeçaria viva feita por Dom Robert,
um monge beneditino, que se especializou em cartões de tapeçarias.
Esta paisagem de harmonia,
de sã convivência, de uma coralidade improvável,
como naquelas belíssimas tapeçarias de Dom Robert,
expostas que foram na catedral de Notre-Dame, por exemplo,
aquando da Cimeira do Clima de Paris, como «Ode à criação»:
Hoje, seria possível uma ‘ode à criação’ na paisagem da Igreja,
na variedade das vocações, com ministérios e serviços vários,
sem que ninguém se agrida, nem murmure, nem desconfie?
Em que todos nos poderíamos entusiasmar a viver do Evangelho,
para um melhor serviço nas comunidades, segundo a beleza que há em Jesus?
Abertos à condução e serviço dos ministros ordenados, também?
Não precisaremos de estar mais atentos a todo o tipo de salteadores,
que continuam a entrar nas casas das famílias por janelas outras?

7. Que a verdejante Palavra escutada, e desdobrada em migalhas,
tal como estas parábolas nos ajudem a perguntar:
«“Que havemos de fazer, irmãos?”» (At 2,37).
A que conversão estamos ainda convocados!
«Senhor Jesus, filho de David, Tu que derramas a Tua luz sobre nós,
continua a inspirar-nos com a tua bondade e misericórdia,
para que possamos discernir a Tua vontade nas nossas vidas (da Oração pelas Vocações).

 

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais  VERNA. Este texto corresponde à homilia do passado Domingo, dia 30 de Abril, Domingo IV do tempo pascal na liturgia católica e último dia da Semana de Oração pelas Vocações 2023, da Igreja Católica.

 

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