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Guilherme d'Oliveira Martins

Como recuperar a esperança?

Ambiente. Atmosfera. Poluição. São Paulo.

“Como poderemos responder aos desafios que estão lançados pela crise económica e financeira, pelas guerras que se eternizam, pela permanência de uma estranha cegueira relativamente à indiferença, à escalada da violência e á destruição da natureza e do meio ambiente? Somos chamados à ação e às bem-aventuranças”, nota Guilherme d’Oliveira Martins. Foto © Paulisson Miura/WIkimedia Commons.

 

Neste Advento, o mundo apresenta-se incerto, imprevisível e distante dos Evangelhos. Precisamos de sinais de esperança. No prefácio que assinou ao volume Ilustrissimi – Cartas do Patriarca, da autoria do Papa João Paulo I, Albino Luciani, o cardeal D. José Tolentino Mendonça pergunta: “Qual é a tarefa do cristianismo após a fratura da modernidade? Luciani sublinha-o na carta a Gilbert K. Chesterton: é urgente ajoelhar-se não diante daquele Deus que «pela secularização é chamado de “morto”», mas «diante de um Deus mais atual que nunca». Isto, porém, exige a sabedoria de compreender como o «ponto de vista» se tornou culturalmente complexificado. 

É por isso uma responsabilidade gravíssima da Igreja reativar processos culturais que desaguem na criação de códigos e chaves de leitura hermenêuticamente consistentes e vitais. Por isso, precisamos da literatura, não como um ornamento agradável, que, tudo somado, seja supérfluo, mas antes como estrutura portadora do nosso estar no mundo e da irrenunciável responsabilidade que o cristianismo transporta, como sustentava Luciani, de «fazer refletir!». E o certo é que este “fazer refletir” leva-nos à essência do fenómeno religioso, numa das suas raízes etimológicas – “relegere”, reler, repensar, ao lado do “religare que nos conduz à exigência do contrapor a coesão à fragmentação. 

E quando esta ligação e este repensamento estão na ordem do dia não podemos esquecer a participação ativa do Papa Francisco não só no desenvolvimento do processo sinodal, chamando todos a uma reflexão séria e persistente como participantes numa comunidade que se emancipa através da partilha de pensamento e ação, tirando consequências dos erros praticados ou das simplificações, mas também num caminho que se deseja de abertura, de diálogo, de capacidade crítica e de compaixão. É verdade que alguns gostariam de uma acomodação do Papa à inércia e ao dolce far niente. No entanto, este Sínodo tem uma agenda obrigatória e exigente que procura garantir a vivência de uma Igreja em movimento e em saída. 

Compreende-se o gradualismo, mas é o inconformismo que tem de se constituir como marca e método. A sociedade humana evolui e o universalismo da dignidade das pessoas obriga à releitura da encíclica Pacem in Terris de S. João XXIII, numa conjuntura como aquela em que vivemos em que a cultura da paz é subalternizada, e em que os direitos e deveres fundamentais são esquecidos. 

Quando o Papa apelou a “todos” em Lisboa, fê-lo, para além de qualquer formalismo, apontando para um humanismo pleno de pessoas livres e iguais em dignidade e direitos, que tendo como consequência a ecologia integral, afirmada em «Laudato Si’» e na exortação apostólica Laudate Deum, sobre o cuidado relativamente ao planeta, exprime profunda preocupação pela nossa casa comum, porque “não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe, está-se esboroando e talvez aproximando-se dum ponto de rutura”. 

Embora o estado clínico geral do Papa Francisco tenha melhorado, os médicos pediram ao Papa que não efetuasse a viagem ao Dubai, para a 28ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas; no entanto “o Papa e a Santa Sé continuam dispostos a participar nos debates durante a COP28, através de modalidades definidas oportunamente. O Papa Francisco reafirmou, assim, que, «além da guerra, o nosso mundo está ameaçado por um outro grande perigo, o climático, que coloca em perigo a vida na terra, especialmente a das gerações futuras. E isto é contrário ao projeto de Deus, que criou tudo para a vida”.

D. José Tolentino Mendonça, no prefácio referido, lembra ainda que, no mesmo ano em que foi publicado Illustrissimi. Cartas do Patriarca, de Albino Luciani (1976), foram dadas à estampa as Cartas Luteranas, de Pier Paolo Pasolini. Os dois livros são verdadeiros sismógrafos, já que Luciani alerta profeticamente para a necessidade de atenção às pessoas, enquanto Pasolini adverte para a «reviravolta antropológica promovida pela sociedade dos consumos e consumada pela desapiedada terraplanagem concretizada pelos seus processos sociais e culturais de homologação». 

A obra de Pasolini é um livro-denúncia, realçando a originalidade do livro de Luciani, que faz uma leitura crítica da realidade, enquadrando-a num horizonte necessariamente dilatado, «surpreendentemente convocado à redenção, pois Deus não desiste de procurar o Ser Humano». Italo Calvino escreveu que «um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer». Como poderemos responder aos desafios que estão lançados pela crise económica e financeira, pelas guerras que se eternizam, pela permanência de uma estranha cegueira relativamente à indiferença, à escalada da violência e á destruição da natureza e do meio ambiente? Somos chamados à ação e às bem-aventuranças.

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

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