O Vaticano acaba de anunciar ter praticamente constituído o painel de juízes independentes que irão julgar os múltiplos casos de abuso espiritual e sexual de mulheres vulneráveis por parte do ex-jesuíta padre e artista de mosaicos Marko Ivan Rupnik.
O início do julgamento canónico fica, agora, dependente de algumas diligências que é necessário fazer, como, por exemplo, a notificação das vítimas, segundo esclareceu o prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, o cardeal Victor Manuel Fernández, à margem de uma conferência de imprensa decorrida na manhã desta quinta-feira, 3 de julho.
O purpurado disse ainda que os juízes escolhidos não integram aquele Dicastério. “A ideia foi eliminar, tanto quanto possível, a ideia de que o Dicastério para a Doutrina da Fé ou a Santa Sé tivessem qualquer interesse ou estivessem sob pressão”, disse ele. “Foram escolhidas pessoas que não levantassem suspeitas”.
Quem se congratulou com a perspetiva de um julgamento a breve prazo foi a advogada italiana Laura Sgrò que é defensora de cinco das vítimas do padre Rupnik. “O facto de o painel de juízes ter sido selecionado é certamente uma boa notícia”, comentou a causídica em declarações por escrito ao site OSV News.
“Agora o julgamento pode começar em breve”, acrescentou, “permitindo que as vítimas participem como partes lesadas e não apenas como testemunhas, protegendo o seu direito à defesa e à transparência, que é tão necessária quanto a confidencialidade”.
Laura Sgrò observou que as suas clientes “irão certamente cooperar plenamente na reconstrução dos fatos e na busca da verdade. Esperamos que este caso seja concluído o mais rápido possível e que finalmente traga conforto às vítimas.”
O caso do padre Rupnik já foi analisado no Dicastério por duas vezes. Na primeira, em 2020, o tribunal reconheceu a excomunhão (latae sententiae) do então jesuíta por um caso de absolvição de uma noviça com quem tinha tido relações sexuais em contexto abusivo. Essa pena foi retirada umas semanas depois, tudo em grande segredo. Dois anos depois, vários outros casos de abusos de mulheres consagradas que estavam na dependência de Rupnik foram apreciados no esmo Dicastério, tendo este entendido que os factos haviam prescrito.
A partir de dezembro de 2022, sucessivas denúncias de vítimas do padre artista surgiram em meios de comunicação social, deixando a ideia de que Rupnik se comportava ostensivamente como alguém que não prestava contas e que ninguém vergava. Nem sequer respondia às convocatórias de superiores da Companhia de Jesus. Mais grave: dadas as relações conhecidas com os vários Papas, incluindo Francisco, foi-se instalando a ideia de impunidade e de que havia dois pesos e duas medidas, conforme os casos (de resto, o de Rupnik não era o único a ter tratamento especial). Até que, na reta final da primeira assembleia geral do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade, em finais de outubro de 2023, depois de alerta público emitido pela Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores e Pessoas Vulneráveis, o Papa decide reabrir o processo, retrocedendo no argumento da prescrição dos factos.
Aparentemente, foi preciso, no Dicastério para a Doutrina da Fé, ultrapassar vários tipos de dificuldades, para chegar ao julgamento: desde a questão concetual e teológico-canónica do abuso espiritual à reunião de informação que possa ser considerada relevante para a análise e decisão judicial e à constituição do painel de juízes. Resta, agora, aguardar pelo julgamento.










