
Em Beirute, “durante todo o dia, as pessoas ouvem o som de aviões militares ou drones”, conta uma responsável da Fundação AIS no Líbano. Foto © Raylan Givens
A voz ofegante do padre Jihad Kraiem, guardião dos franciscanos em Beirute, Líbano, é reveladora da tensão em que tem vivido nos últimos dias devido aos ataques de Israel visando, alegadamente, atingir alvos do movimento xiita Hezbollah. “Em Beirute a situação é caótica, especialmente as pessoas da área xiita estão a fugir para as áreas cristãs. As bombas não caíram perto de nós, mas ouvia-se bem. E as pessoas estão com medo, muito medo”, conta, explicando que, ao acolherem famílias xiitas, as probabilidades de se tornarem alvos dos ataques aumentam. “Mas acolhemos tantos quantos podemos”, assegura.
O padre Kraiem fala ao Vatican News a partir do mosteiro franciscano de Gemmayzeh, na capital do Líbano, depois de, nesta quarta-feira, 25 de setembro, os ataques terem causado, de acordo com dados do Ministério da Saúde libanês, 72 mortos e cerca de 400 feridos no país, e colocado milhares de pessoas em fuga.
“Temos que dar comida, cobertores, colchões a essas pessoas, mas faltam muitas coisas. O que tínhamos, distribuímos”. E comprar bens de primeira necessidade é cada vez mais difícil, lamenta: “Não sabemos aonde ir, todo a gente corre para comprar, fica difícil encontrar as coisas necessárias, estamos a tentar comprar um pouco aqui e um pouco ali, mas está a faltar muita coisa”.
“Acima de tudo, tendo em vista o inverno, são necessários cobertores. Especialmente nos lugares onde faz mais frio. – sublinha o franciscano – E depois precisamos de comida, leite para as crianças…”.
“Está a afetar toda a gente…”
Embora a recente vaga de ataques seja, segundo as autoridades israelitas, atingir alvos terroristas do movimento Hezbollah no Líbano, a verdade é que ela está a ter “um efeito devastador em toda a população, incluindo os cristãos, e poderá levar ainda mais pessoas a abandonar o país”, alerta Marielle Boutros, coordenadora de projetos da fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) no Líbano.
“Está a afetar toda a gente, porque todo o sul do Líbano está a ser visado e há nessa região muitos cristãos”, explica, citada num comunicado da AIS enviado esta quinta-feira ao 7MARGENS. “Não são zonas puramente xiitas ou do Hezbollah. Por ali vivem muitas famílias cristãs. Algumas perderam as suas casas e estão agora a deslocar-se do sul para outros locais como Beirute, Monte Líbano e para o norte, procurando encontrar segurança”, acrescenta. Em Beirute, os ataques confinaram-se principalmente às zonas xiitas, confirma. “Mas Beirute não é uma cidade grande, por isso, se uma parte de Beirute for atingida, toda a Beirute o sentirá e, durante todo o dia, as pessoas ouvem o som de aviões militares ou drones”, assinala.
“Vivemos todos numa condição em que se misturam angústia, dor, raiva e medo”, relata por sua vez, à Agência Fides, o padre maronita Rouphael Zgheib, diretor das Pontifícias Obras Missionárias libanesas e professor da Universidade São José dos jesuítas. “A incerteza sobre o que nos espera também pesa sobre tudo. Não se consegue entender quem pode fazer parar tudo isto e se os ataques são apenas o começo”.
“Esta manhã – conta – o pequeno vilarejo xiita de Maaysra foi bombardeado, na região de Keserwan, área histórica de assentamento de comunidades católicas. É uma povoação que fica a poucos quilómetros da sede do Patriarcado Maronita, em Bkerké”.
O medo e incerteza – acrescenta o padre Zgheib – afetam as iniciativas de resgate dos deslocados e feridos. Apesar de haver muitas iniciativas individuais de solidariedade para com os cristãos e muçulmanos que fogem do sul e de outras áreas afetadas, esta solidariedade espontânea coexiste com sentimentos de desconfiança.
Felizmente, diz Marielle, os atuais projetos da AIS não foram diretamente afetados, até porque agora são mais necessários do que nunca. “Desde 7 de outubro que decorre uma guerra de baixa escala no sul do país, pelo que os projetos nessa zona e no Vale de Bekaa destinam-se sobretudo a ajudar as pessoas através da distribuição de alimentos e produtos sanitários, e nada foi interrompido ou diretamente afetado por estes ataques. É verdade que as escolas, que também temos apoiado fortemente, estão fechadas e estão agora a passar para o ensino online, mas isso é temporário”, refere a responsável, que apesar de tudo se mantém otimista. “Se a situação se mantiver, vamos precisar de aquecimento para o Inverno, embora, claro, esperemos que isto não dure tanto tempo…”.
Líderes religiosos condenam agressão

“Espero que a comunidade internacional faça todos os esforços para travar esta terrível escalada. É inaceitável”, disse o Papa Francisco durante a audiência geral desta quarta-feira, referindo-se aos ataques no Líbano. Foto © Vatican Media
Não duraria, se dependesse dos apelos do Papa Francisco, que na sua audiência semanal fez questão de condenar a ofensiva israelita no Líbano. “Espero que a comunidade internacional faça todos os esforços para travar esta terrível escalada. É inaceitável. Expresso a minha proximidade ao povo libanês, que já sofreu demasiado no passado recente”, afirmou Francisco.
Também o Conselho de Igrejas do Médio Oriente (MECC), organismo ecuménico com sede em Beirute, pediu esta quinta-feira “à comunidade internacional que intervenha o mais rapidamente possível e expresse uma posição clara que condene os crimes de guerra contra civis com o lançamento de ataques, destruindo sistematicamente propriedades e interrompendo o fornecimento de alimentos e saúde”.
Num comunicado citado pelo Vatican News, o MECC “condena veementemente a morte de pessoas inocentes, crianças, mulheres, idosos e outros civis, e deplora os ataques conduzidos pelas forças de agressão em áreas densamente povoadas que levaram à morte de cerca de 500 pessoas num único dia e o deslocamento de centenas de milhares de cidadãos das suas áreas de assentamento.”
O texto faz ainda o pedido para que seja fornecida “proteção internacional aos civis para que organizações e associações possam fornecer-lhes os materiais necessários para uma vida digna”.









