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Cuidar do outro com humanidade

“Foi-se a COVID, porém mantiveram-se regras inventadas naquela altura, a esmo e muitas vezes sem critério e gravemente atentatórias da liberdade das pessoas.” Foto © Sarcifilippo / Pixabay

 

A geração nascida em meados do século passado foi ensinada a respeitar os mais velhos, a escutá-los e seguir os seus ensinamentos, dada a sua condição de anciãos e, por tal, sabedores daquilo que é melhor para a família, para cada comunidade e para a sociedade em geral. Era assim que se preparavam as novas gerações para aprenderem a respeitar o outro, os seus pais, irmãos e avós, cuidando deles e uns dos outros, desde a nascença até à morte. E esta não era escondida dos olhos e sentimentos dos mais jovens. Mesmo as crianças de tenra idade conviviam com o nascimento, a educação, o trabalho e a morte com toda a naturalidade, sem dramas e sem tabus, como era timbre de famílias normais, com os seus problemas, porém, em geral, sadias e respeitadoras do outro. Era assim…

E o que vemos hoje, em que apenas se fala de direitos e quase nada de obrigações? Direitos que apenas são falados quando interessa a algumas pessoas, por exemplo aos dirigentes políticos e sindicais, mas que são ignorados em certas alturas da vida, como se, a certa altura, as pessoas fossem descartáveis e pudessem ser deitadas fora.

Sim! Refiro-me às leis do aborto. E sim! Refiro-me à eutanásia.

E não posso esquecer os armazéns de velhos, que nasceram naquelas circunstâncias primeiras, formaram famílias, criaram e educaram filhos sem os meios que hoje existem, por entre muitas dificuldades, trabalharam, produziram riqueza, cuidaram dos netos e agora são atirados para lares de idosos, quando não para os hospitais, onde vegetam, quantas vezes abandonados pelos familiares, deserdados pela sociedade que ajudaram a construir e para a qual contribuíram com o seu trabalho esforçado e o apoio dado a outros que dele necessitavam.

Perante isto, como podemos aceitar que, alegando todo o tipo de argumentos, a maior parte sem qualquer fundamento razoável, apenas baseado na vontade e por decisão de directores, responsáveis e até Provedores das Santas Casas da Misericórdia, se impeça e dificulte uma simples visita a essas pessoas, mesmo por parte de familiares e amigos, apenas porque sim.

Misericórdia! Que Misericórdia existe quando se estabelece, de forma arbitrária, que as visitas a familiares apenas podem ser marcadas na semana anterior para quem deseja visitar um parente ou amigo no Sábado ou no Domingo? Que misericórdia se exerce quando um familiar ou amigo não pode visitar alguém que esteja impossibilitado de descer para a sala de visitas e permanecer no quarto ou alojamento onde se encontra? E como se pode impedir uma pessoa de ajudar na administração de alimentação a um familiar que tenha dificuldade em se alimentar sozinho, mesmo na sala de refeições?

Foi-se a COVID, porém mantiveram-se regras inventadas naquela altura, a esmo e muitas vezes sem critério e gravemente atentatórias da liberdade das pessoas.

Ficam apenas alguns exemplos daquilo que se passa em muitos lares, apesar da sua ligação à Igreja, tais como Misericórdias, Lares e Centros Paroquiais e Sociais.

Mas, em contrapartida, pode visitar-se qualquer pessoa num hospital, praticamente a qualquer hora, durante todo o dia, sem qualquer constrangimento.

E há Lares de idosos e Centros de Dia detidos e geridos por empresas onde tudo se passa de maneira diferente. E por vezes por preços mais baratos. Como se compreende tudo isto? Que exemplo dá a Igreja e quem dirige e serve nas instituições ligadas à Igreja de humanidade, de doação, de serviço aos idosos? Diz-se que não há meios humanos e outros. Será que tudo se pode justificar por essa forma? Que preocupação se nota por parte de quem superintende nessas instituições sobre o modo como é feita a gestão dos meios disponíveis, quantas vezes fruto de doações e testamentos ou ofertas. Quem de entre os altos responsáveis da Igreja se tem preocupado em conhecer estes problemas e tentar encontrar soluções, perante a violação clara dos deveres de cuidar do outro como manda o Evangelho? Porventura, não será dever dos mais altos responsáveis da Igreja e nomeadamente dos Bispos de cada diocese exercerem algum controlo, um estar mais presente, relativamente aos eleitos para os cargos dirigentes dessas instituições, procurando perceber que tipo de formação e prática religiosa e de gestão possuem essas pessoas que se candidatam a exercer esses cargos na área social?

 

António Caseiro Marques é advogado e dirigente da Acção Católica Rural

 

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